Nascido em Montevidéu em 3 de setembro de 1940, o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, que completaria 86 anos nesta quinta-feira, deixou um legado literário e político marcado por sua obra mais influente: “As veias abertas da América Latina”. Publicado em 1971, o livro oferece uma interpretação popular da história econômica e política do continente, questionando a persistente subordinação da região na divisão internacional do trabalho, apesar de suas vastas riquezas naturais.
Galeano faleceu em 2015, mas sua análise sobre como a América Latina, rica em ouro, prata, açúcar, café, cacau, borracha, cobre, estanho, petróleo e ferro, tem suas economias organizadas para atender às demandas externas, continua sendo um ponto central. A metáfora das “veias abertas” ilustra a saída contínua de riquezas do continente, uma narrativa que percorre cinco séculos de história, focando não em eventos políticos, mas nos ciclos de mercadorias.
A Contradição da Riqueza e Pobreza
A obra de Galeano parte da conquista europeia, que transformou a América espanhola em um centro de exploração extrativa, com Potosí se tornando um símbolo. A contradição central do livro reside na abundância natural que não se traduz em prosperidade para seus habitantes. A América Latina produz riqueza, mas frequentemente não controla os mecanismos de transformação, financiamento, comercialização e consumo dessa riqueza.
Ao longo dos séculos, embora os produtos e as potências dominantes tenham mudado, Galeano identificou uma continuidade estrutural: as economias latino-americanas são moldadas pelas necessidades externas. Ele organiza sua narrativa em torno desses ciclos de exploração, como o açúcar no Caribe e Brasil, o café, a borracha amazônica, a carne, o cobre chileno, o estanho boliviano e o petróleo venezuelano, conferindo uma dimensão humana a esses recursos naturais.
A Tese da Dependência e Seu Legado
A ideia central de Galeano é que o subdesenvolvimento não é uma etapa anterior ao desenvolvimento, mas sim um resultado simultâneo do mesmo processo histórico. A acumulação de riqueza em centros econômicos estaria ligada à transferência de recursos das regiões periféricas. Essa interpretação alinha-se à teoria da dependência, uma contribuição intelectual latino-americana do século XX.
Apesar de não ser um economista acadêmico, Galeano conseguiu traduzir debates complexos sobre dependência e imperialismo em uma narrativa acessível, alcançando milhões de leitores. Sua obra foi temida e proibida por regimes militares latino-americanos, tornando-se um símbolo de resistência ao questionar a ideia de que a pobreza e a desigualdade eram apenas consequências de atrasos internos. Ele apresentou uma nova perspectiva, na qual a América Latina emerge como protagonista de sua própria história, vista de dentro do continente.
A Atualidade da Questão e os Novos Recursos
Apesar de algumas críticas ao longo do tempo, a importância de “As veias abertas” reside nas perguntas que continua a levantar. Hoje, se Galeano escrevesse o livro, ele provavelmente incluiria uma nova lista de recursos estratégicos: lítio, níquel, terras raras, água, biodiversidade e minerais críticos para a transição tecnológica e a revolução digital. Esses recursos são essenciais para veículos elétricos, baterias, semicondutores e inteligência artificial.
A pergunta fundamental de Galeano ressurge com novos contornos: a América Latina continuará sendo apenas fornecedora de matérias-primas para a nova revolução industrial ou conseguirá transformar seus recursos em indústria, tecnologia e prosperidade? O lítio, por exemplo, em países como Bolívia, Argentina e Chile, repete o dilema de Potosí. A questão é se a região pode transcender a exportação de matéria-prima para desenvolver cadeias industriais locais e ocupar uma posição diferente na divisão internacional do trabalho.







Comentários
Seja o primeiro a comentar.