O documentário “Naza”, dos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, recebeu o prêmio especial do júri no Festival de Veneza. A obra aborda como as operações das forças de defesa de Israel contra o grupo Hamas provocam o genocídio de civis palestinos na Faixa de Gaza. O filme detalha mecanismos do aparato estatal israelense que, segundo os diretores, levam a atrocidades de forma rotineira.

A produção estabelece um paralelo com o conceito de “banalidade do mal” de Hannah Arendt, aplicado a funcionários do Estado alemão durante a década de 1940. Esses agentes executavam ordens do governo nazista para exterminar a população judaica, distanciados física e emocionalmente das vítimas, o que trivializava a crueldade. O longa sugere que, oito décadas após a Segunda Guerra Mundial, um processo análogo ocorre, promovido por funcionários israelenses que agem à distância contra a população palestina.

Depoimentos e 'dano colateral'

Yuval Abraham explica que a força dos escritos de Arendt reside na percepção de que podem ser aplicados a diversos sistemas de extermínio, genocídios, crimes de guerra e atrocidades estatais. O cineasta aponta que indivíduos inseridos em uma sociedade normalizam o sistema, vivendo nele sem perceber, como se fosse o ambiente natural. A investigação do filme reúne depoimentos de 24 integrantes e ex-integrantes das forças armadas de Israel. Esses relatos indicam que ataques específicos a membros do Hamas frequentemente resultam na morte de centenas de inocentes.

O termo “naza”, que intitula o filme, designa o que é enquadrado como “dano colateral”. Nesses casos, a perda de vidas civis é prevista e quantificada nas operações. Os entrevistados revelam o uso de sistemas de inteligência artificial para detectar padrões de comportamento e localizar alvos. Cidadãos comuns com condutas semelhantes aos padrões mapeados são identificados por engano e se tornam alvos de investidas militares, vitimando também parentes e vizinhos. O documentário afirma que a eliminação de civis inocentes é sistêmica e faz parte do projeto militar desde o início das ofensivas contra Gaza, em 2023.

Reação e riscos para os diretores

Abraham declara que, com o filme, cumprem sua responsabilidade como jornalistas, seres humanos e cidadãos do país que comete tais crimes: falar sobre o assunto. Para proteger a identidade das fontes, as imagens e vozes dos entrevistados foram alteradas por inteligência artificial. Os diretores asseguram que a checagem das identidades foi rigorosa, contando com o apoio do jornal britânico The Guardian, um dos produtores da obra. Rachel Szor explica que as informações de cada fonte são confirmadas por outras, garantindo a veracidade dos relatos detalhados sobre o sistema.

Sobre as motivações dos militares israelenses para depor, apesar dos riscos, Abraham observa uma diversidade de comportamentos, indo além da culpa ou do remorso. Alguns falavam por vergonha ou culpa, mas o tom mudava, revelando um senso de orgulho. Após a exibição em Veneza, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou a intenção de cassar a cidadania de israelenses que “difamem as forças de defesa de Israel”. Essa ameaça afeta diretamente os diretores, que já haviam conquistado o Oscar de melhor documentário dois anos antes com “Sem Chão”, sobre a destruição de um povoado palestino por tropas israelenses. Na ocasião, a casa dos pais de Abraham foi invadida, forçando o afastamento temporário de sua mãe. Abraham expressa receio, mas afirma que não fizeram nada de errado. Ele pondera a assimetria entre cidadãos israelenses e palestinos, reconhecendo um privilégio que os torna menos preocupados, pois, se fossem palestinos, seriam assassinados ou presos.