A disputa pela hegemonia global atingiu um novo patamar, onde tecnologia avançada, poder bélico e controle territorial se interligam de forma inédita. Esse foi o tema central do programa Brasil no Mundo, que teve como convidado o historiador e cientista político Chico Teixeira, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O ponto de partida do debate foi a recente movimentação de líderes de grandes empresas de tecnologia americanas, que pediram cautela no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) generativa e autônoma. Essa retórica encontrou resistência da China, que denunciou a iniciativa como uma "nova Guerra Fria" para frear o avanço de concorrentes. Chico Teixeira destacou que a IA já superou o âmbito de ferramenta operacional, tornando-se um elemento central do poder estatal e militar.
IA como arma geopolítica e o cenário global
Para o especialista, o apelo por "pausas" no desenvolvimento da IA por parte de empresas ocidentais reflete a preocupação com a velocidade do avanço tecnológico chinês. Ele compara a situação atual com a corrida armamentista do século XX, apontando que o controle da IA confere aos países a capacidade de ameaçar, impor ou dissuadir. Diplomatas internacionais já equiparam o domínio da inteligência artificial à posse da bomba atômica a partir de 1945.
No cenário global, percebe-se a formação de blocos. Os Estados Unidos articulam arranjos tecnológicos com países como a Índia, enquanto a China aproxima nações do Sul Global, oferecendo cooperação técnica. Teixeira traça um paralelo histórico com a regulação nuclear do século XX, quando a criação da Agência Internacional de Energia Atômica visava congelar o status quo, permitindo que apenas alguns países possuíssem a tecnologia. Segundo ele, o debate sobre a IA repete esse padrão.
Militarização espacial e tensões regionais
Outro ponto abordado foi a declaração da Força Aérea dos Estados Unidos sobre a presença de sistemas de armas orbitando a Terra, que pode indicar a quebra do Tratado do Espaço Exterior de 1967. Essa movimentação seria uma resposta aos mísseis hipersônicos desenvolvidos pela Rússia e China, capazes de manobras imprevisíveis em altitudes orbitais. Teixeira conecta esse anúncio à postura isolacionista e agressiva do trumpismo, que propõe erguer um "Domo de Ouro" sobre o território norte-americano.
Os conflitos em curso também foram analisados, incluindo o estrangulamento das rotas marítimas no Estreito de Bab el-Mandeb pelas forças Houthi do Iêmen, ameaçando o Canal de Suez. Na Ucrânia, um recente ataque de drones russos a um terminal ferroviário próximo à fronteira polonesa é visto como uma demonstração de força de Moscou, indicando que nenhuma artéria de suprimento ocidental está fora de alcance.
O Brasil e a geopolítica do Sul Global
Encerrando as reflexões, o painel abordou a recente cúpula dos Brics e a abertura da Assembleia Geral da ONU. A resistência diplomática do Sul Global e o texto final dos Brics foram definidos como uma "guerra de trincheira", visando impedir que o multilateralismo seja soterrado pelo arbítrio unilateral das superpotências. Teixeira alertou para as crescentes pressões sobre a política externa independente do Brasil, destacando a importância da defesa intransigente da autodeterminação nacional e da soberania do Sul Global no púlpito das Nações Unidas.







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