247 – A delegação dos Estados Unidos não aplaudiu o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22), em Nova York, em meio a um pronunciamento marcado por críticas ao unilateralismo, à pressão econômica contra o Brasil e à ingerência externa em processos eleitorais.

Estavam no salão Howard Lutnick, secretário do Comércio dos EUA; Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA; e Scott Bessent, secretário do Tesouro. O presidente norte-americano Donald Trump não acompanhava o pronunciamento no plenário naquele momento. Lula abriu os discursos de chefes de Estado, tradição mantida pelo Brasil desde 1955, e foi seguido por Trump. O presidente brasileiro defendeu a soberania nacional e criticou ingerências externas sem citar nominalmente os Estados Unidos.

Em um dos trechos centrais do discurso, Lula afirmou que a comunidade internacional precisa escolher entre cooperação e imposição. “Este Conselho [de Segurança da ONU] agora deve se debruçar sobre temas determinantes sobre o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Soberania ou subordinação?”, declarou.

O pronunciamento ocorreu em um momento de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos. A relação bilateral tem sido atravessada pela reta final da eleição presidencial brasileira, marcada para 4 de outubro, em que Lula disputa a Presidência com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em maio, Flávio foi recebido por Trump na Casa Branca durante uma viagem aos EUA. Integrantes do governo brasileiro têm manifestado preocupação com a possibilidade de interferência externa no processo eleitoral e defendem que a decisão sobre o próximo presidente cabe exclusivamente aos eleitores brasileiros.

Lula reforçou essa mensagem ao afirmar que o país não aceita relações baseadas em tutela. Segundo o presidente, o Brasil “não cabe no quintal de ninguém” e precisa de parceiros com uma agenda positiva, voltada ao desenvolvimento. “Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, disse.

O presidente também criticou o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão política. O governo Trump impôs tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, medida contestada pelo governo Lula. “A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos. Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas. Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações”, afirmou.

Outro ponto de destaque foi a defesa do Pix. Lula afirmou que o Brasil não aceitará pressões externas sobre o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX”, declarou o presidente.

Na área de segurança, Lula defendeu cooperação internacional contra o crime organizado, mas rejeitou soluções baseadas em demonstração militar. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.

O presidente também levou à Assembleia Geral críticas ao que chamou de “tecno-oligarcas” e defendeu a regulação das plataformas digitais e da inteligência artificial. Segundo ele, a corrida tecnológica não pode avançar “sem freios éticos à revelia da ONU”.

Lula ainda cobrou reformas no Conselho de Segurança das Nações Unidas e defendeu o fortalecimento do multilateralismo como caminho para enfrentar conflitos internacionais. A Assembleia Geral é o principal órgão deliberativo da ONU e reúne representantes dos 193 Estados-membros para a apresentação das prioridades de cada país diante dos principais temas globais.