O ex-embaixador da Argentina em Pequim, Sabino Vaca Narvaja, é um conhecedor profundo da China, onde ocupou o posto diplomático durante o kirchnerismo, opositor do atual presidente Javier Milei. Para Vaca Narvaja, ao contrário do presidente Lula, o presidente argentino “decidiu subordinar a Argentina a outro Estado” – os Estados Unidos. Ele lamenta que o governo Milei tenha rejeitado a incorporação da Argentina ao BRICS, pouco depois de tomar posse em 2023, num claro ato de preferência pela relação com o governo Trump e com os EUA. Ele observa ainda a “interferência sem precedentes dos EUA na nossa região”.

Dilma e Lula

Vaca Narvaja é admirador da ex-presidenta Dilma Rousseff, que está à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do BRICS) e que assina o prólogo de um dos seus livros, e seguidor das políticas do presidente Lula. O ex-embaixador é o coordenador de sinólogos (especialistas em China) da América Latina e do Caribe no Centro Mundial de Sinologia, com sede em Pequim.

Reunião de especialistas em China no Peru

O ‘Terceiro Encontro de Sinologia e Caribe’ será na semana que vem, entre os dias 15 e 17 de setembro, em Lima, no Peru. No momento, Vaca Narvaja está em Shenzhen, no sul da China, como um dos principais oradores do Simpósio Acadêmico Internacional sobre o Pensamento de Xi Jinping.

A seguir, os principais pontos da entrevista de Sabino Vaca Narvaja ao Brasil 247, na qual destaca a importância da defesa da soberania por parte do governo Lula frente às recentes pressões do governo Trump e em um momento em que o Sul Global ganha cada vez mais força no xadrez global. “O BRICS hoje é muito mais importante que o G7 e, por suas riquezas naturais e dimensões, decisivo para o mundo”, diz nosso entrevistado.

  • Como você observa hoje a relação entre a China e o Mercosul, já que o bloco está fragmentado diante das diferenças entre os presidentes Lula e Milei?

Vaca Narvaja: A China tem uma estratégia muito clara do que quer para a América Latina. Por exemplo, a China tem o que é chamado de ‘Livro Branco para as Relações com a América Latina’, escrito em 2008, atualizado em 2016 e atualizado novamente em 2025. Recomendo a leitura desse documento porque é o que a China projeta para a relação com a região e, claro, incorpora os mecanismos da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e os diálogos com o Mercosul. O tema que temos com o Mercosul é que há um país, o Paraguai, que ainda não reconhece a República Popular da China.

  • Oficialmente, o Paraguai tem relação diplomática com Taiwan e não com a China.

Vaca Narvaja: É o único no Cone Sul, e ele faz parte do Mercosul. Mas, apesar disso, a China tem diálogo com o Mercosul. Também acho importante que nós mesmos, como bloco e como região, saibamos o que queremos da relação com a China. É importante porque a China é o centro da manufatura mundial e também tecnológica. E, se não tivermos uma estratégia comum, no Mercosul e até em toda a América do Sul, em toda a América Latina, ficaríamos, como dizia o economista Raúl Prebisch (intelectual da Cepal que faleceu em 1986), em uma relação de centro e periferia. Muitos analistas falam da China como um Estado continental pelo tamanho e pela população que possui. Então, acho importante discutir nosso próprio livro branco sobre o que nós queremos com a China. Nosso encontro de sinólogos, que este ano será no Peru, é justamente para discutir esse diálogo com a China e organizar um caminho próprio. Organizar nosso próprio livro branco.

  • Mas hoje vemos o conflito entre os presidentes dos maiores sócios do Mercosul.

Vaca Narvaja: Em relação ao Mercosul, acho que, neste momento de tensão mundial e de reconfiguração, no qual os Estados Unidos fizeram uma espécie de atualização da Doutrina Monroe… No documento da Segurança Estratégica Nacional, que o governo Trump promulgou, fala-se do Hemisfério Ocidental – quer dizer, América Latina e Caribe – como a área de influência deles. Trata-se de uma interferência sem precedentes.

A Doutrina Monroe agora chamada de Donroe, por Donald Trump

Vaca Narvaja: A Doutrina Monroe dizia: América para os norte-americanos. Pela primeira vez, neste documento do governo Trump, mas que vai além do governo Trump porque é uma política de Estado norte-americana, fala-se em expulsar a China e a Rússia da região. E Trump começou este segundo mandato aplicando tarifas enormes contra as exportações do Brasil, um país com o qual tem complementaridade econômica. Os EUA têm superávit comercial na relação com o Brasil e, ainda assim, aplicam tarifas… E os EUA também ampliaram tarifas contra a Índia, aliado estratégico do país, e contra a África do Sul…

  • BRICS

Vaca Narvaja: Ou seja, há um claro ataque aos países do BRICS porque esses países começaram a planejar negociar em suas próprias moedas. E acho que, nesta etapa de Trump, há um ataque para que o dólar não perca essa hegemonia de moeda de troca internacional. E acredito que essa é a verdadeira disputa desta etapa. E vemos, agora, quando ocorreram novas sanções contra o Brasil, que fica claro também seu ataque ao Pix, que é um instrumento muito positivo. Estamos diante, então, da defesa dos EUA às empresas norte-americanas.

  • No caso da Argentina…

Vaca Narvaja: A decisão de Milei de sair do BRICS ignora a importância também da Índia e o que é hoje o centro mundial, que está na Ásia. A verdade é que, na Argentina, nós temos um presidente que decidiu subordinar o país a outro Estado. Quer dizer, os Estados Unidos. Ele (Milei) abraçou todas as políticas que os EUA propõem, e isto é uma relação inédita na política argentina. A Argentina vinha adotando políticas ligadas às Nações Unidas, em direitos humanos, em política ambiental… Os presidentes mudavam, mas a Argentina mantinha uma política de Estado, como a que existe a partir do Itamaraty. Em muitas situações, Milei diz que é contra o Estado, mas, em suas decisões, acaba ajudando o Estado dos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, Milei acabou renovando com a China o acordo (acordo financeiro, chamado swap). Ou seja, Milei disse que vai dolarizar a Argentina, avançando nessa perda de soberania, mas abraça um mecanismo que é o que a China usa para internacionalizar sua moeda. É uma contradição de Milei. E o swap representa quase 20 bilhões de dólares. Então, Milei acaba sendo salvo pela China, que tem um Estado comunista, e pelos Estados Unidos, capitalista. Para mim, é uma total perda de soberania.

  • Ao mesmo tempo, o Brasil é o principal sócio comercial da Argentina.

Vaca Narvaja: E especialmente no setor automotivo. Mas Milei tem essa atitude de se subordinar automaticamente aos Estados Unidos, como se ele, Milei, fosse um funcionário de Trump. Essa atitude de Milei prejudica a relação da Argentina com seus principais sócios comerciais. E até além deles.

  • O Brasil é o maior país da América Latina.

Vaca Narvaja: Eu sempre cito o Brasil como exemplo. O Brasil teve uma postura mais firme: “tenho relação com a China, tenho relação com os EUA, com todos os países do sistema mundial, incluindo a Europa”. E essa postura do Brasil (governo Lula) visa ao interesse brasileiro. E, na Argentina, está faltando uma postura (de Milei) que seja de interesse nacional.

  • Você diz que Milei decidiu representar os Estados Unidos.

Vaca Narvaja: Nós sabemos o que os Estados Unidos e a China querem. Mas nós, argentinos, não sabemos o que a Argentina quer, porque temos um presidente que decidiu representar os Estados Unidos. Com Milei, a Argentina está quase numa situação colonial (em relação aos Estados Unidos). Ele representa a política de segurança nacional de outro país. Essa é a triste situação que a Argentina vive hoje.

  • Em poucos dias, em 4 de outubro, o Brasil realizará o primeiro turno da eleição presidencial.

Vaca Narvaja: É uma eleição muito importante porque estamos vendo as ingerências dos EUA. O Brasil está sendo um exemplo de soberania. Além disso, para mim, os governos de direita desenvolveram a estratégia do caos. O Brasil (no governo Lula) é diferente dos princípios da direita. O Brasil coloca o foco na educação, na transferência de tecnologia, na inclusão social… E, enquanto o Brasil busca valor agregado (na relação com a China), Milei opta por tarifa zero. E a Argentina tem lítio, tem cobre e terras raras. Poderíamos começar a trabalhar conjuntamente com o Brasil, por exemplo, na fabricação de baterias, entre outros itens. Teríamos uma complementação regional que melhoraria o intercâmbio comercial com a China.

China, Brasil, Argentina…

Vaca Narvaja: O Brasil é o maior exportador mundial de carne; a Argentina é o segundo. E a China é também o principal destino da soja dos nossos países, e da China importamos manufatura e tecnologia. Nós, na Argentina, poderíamos buscar, por meio de uma maior aliança com o Brasil, exportar, inclusive para a China, com maior valor agregado. Vejam o exemplo do governo Lula trabalhando com a China em computação quântica. A área espacial da China também tem um desenvolvimento muito grande… Ou seja, uma relação madura e autônoma permite maior desenvolvimento integral dos países.

  • No caso da relação da Argentina com os EUA, a preferência de Milei é clara.

Vaca Narvaja: Assessores da embaixada dos EUA aqui pressionaram uma empresa da Patagônia para que não contratasse os serviços da Huawei. Foi notícia em todos os veículos de comunicação da Argentina. E, para nossa surpresa, o embaixador dos EUA na Argentina, Peter Lamelas, escalou o conflito alegando a segurança nacional dos argentinos. E ninguém no governo Milei disse nada. Não desmentiram. Isso é grave. Além disso, internamente, com Milei, trinta mil pequenas e médias empresas fecharam as portas, e o trabalho está sofrendo deterioração na Argentina. A direita prefere promover o caos, o que significa a fragmentação, e não a geração de oportunidades para as populações.

  • Qual a sua visão sobre o Sul Global no atual xadrez, na geopolítica hoje?

Vaca Narvaja: Estamos diante de uma oportunidade histórica para o Sul Global. Há uma revolução produtiva na China. O mundo está assistindo a um novo momento de revolução tecnológica, que é o “momento Shenzhen”. Chamo assim porque Shenzhen é uma das capitais tecnológicas do mundo. Inclui a inteligência artificial, a produtividade compartilhada… Mas está claro que, se não tivermos uma rota do que queremos, fica mais difícil. O programa de Xi Jinping tem um olhar importante para o Sul Global. Há uma tendência mais orientada ao desenvolvimento compartilhado e à transferência de tecnologia e, ao mesmo tempo, temos os Estados Unidos, do outro lado, que implementam bloqueios tecnológicos, sanções tarifárias. Políticas que colocam um freio no desenvolvimento. É preciso entender que os EUA competem com a gente. Além disso, o BRICS inclui a África do Sul, e a África hoje é um exemplo do que está ocorrendo… A África está crescendo, em média, 4% ou 5%. Um crescimento inédito.

  • O BRICS hoje conta com onze países, incluindo a China e a Índia, que têm as maiores populações do planeta.

Vaca Narvaja: Às vezes, olhamos para o Ocidente como se fosse o farol. Mas a maioria no mundo não tem conceitos ocidentais, não tem sistemas políticos ocidentais, e 74% da população (mundial) não vive sob normas ocidentais. É importante lembrar tudo isso para sabermos que não somos o centro do mundo. E existe a diversidade, e existe a história de cada nação; devemos compreender isso para ter uma convivência mais multilateral. É importante lembrar que a China tirou 800 milhões de pessoas da pobreza a partir de 1949. Possui 400 milhões de pessoas na classe média. Trata-se do maior processo de inclusão social da humanidade. E a China quer chegar a 800 milhões de pessoas na classe média em cerca de oito anos. Ou seja, já são o equivalente a dois EUA de setores médios e quer chegar ao equivalente a duas Europas de setores médios. A China já não é só a fábrica do mundo, mas o centro de produção e consumo do mundo. E não é só a China, mas a Índia. Países que estão retomando seus posicionamentos naturais…

  • Quais seriam hoje os principais desafios do Sul Global?

Vaca Narvaja: O primeiro é a desigualdade social. Mas temos grandes pensadores latino-americanos com propostas interessantes para que possamos encarar os desafios. Acho também que parte desse esquema da direita de promover o caos também leva o Sul Global a se organizar e planejar negociar em nossas próprias moedas. O BRICS ampliado é hoje muito mais importante que o G7 e conta com recursos minerais, estratégicos, hidrocarbonetos, alimentos, população. Ou seja, o grupo mais determinante no mundo.