A Polícia Federal (PF) manifestou insatisfação com a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de realizar o depoimento de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, sem a participação de agentes da corporação. O caso, revelado nesta quarta-feira (2), aprofundou a crise entre delegados e o gabinete do ministro, relator das investigações envolvendo o banco. Integrantes da PF teriam classificado a atitude de Mendonça como uma interferência indevida, chegando a ironizar o ministro como o “primeiro juiz investigador” da história.
Segundo apurações, além da ausência de policiais federais na oitiva, a PF também não recebeu cópia do depoimento de Vorcaro. A corporação avalia que o ministro estaria excedendo os limites de sua função judicial ao buscar acesso direto tanto a dados brutos quanto a arquivos já indexados da investigação.
Justificativa do gabinete questionada pela PF
O gabinete de Mendonça defendeu a realização do depoimento alegando que a defesa de Vorcaro reportou “graves intimidações” e solicitou urgência na oitiva. Um representante do Ministério Público esteve presente, mas a PF foi excluída. O ministro justificou a ausência dos investigadores com base em normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que visam proteger a integridade física e psicológica de depoentes. O conteúdo da oitiva permanece em sigilo.
Entretanto, essa justificativa foi recebida com ceticismo pelos delegados da PF, que reagiram com incredulidade. Para membros da corporação, a atuação de Mendonça se aproxima das funções de um delegado, levantando questionamentos sobre o interesse do gabinete em acessar diretamente diferentes níveis de dados obtidos durante as diligências.
Histórico de tensão entre as partes
Este episódio é mais um capítulo de um conflito que já se manifestava entre a PF e o gabinete do ministro. Em julho, a PF acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) após alegar pressão para fornecer informações sigilosas da investigação ao gabinete de Mendonça. Houve tentativas de mediação por parte do advogado-geral da União e do ministro da Justiça, além de um pedido do presidente Lula para que o diretor-geral da PF procurasse Mendonça, embora o encontro não tenha ocorrido.
A relação entre o gabinete e a corporação já havia registrado outros momentos de atrito. Em fevereiro, ao assumir a relatoria do caso Master, Mendonça restringiu o acesso da cúpula da PF a informações do inquérito, alegando que a medida visava evitar vazamentos. Posteriormente, ele autorizou a retomada do fluxo normal das perícias eletrônicas e permitiu diligências sem autorização judicial prévia. Contudo, o depoimento de Vorcaro reacendeu a disputa, com o gabinete tratando-o como um ato processual regular e a PF vendo-o como uma nova interferência na condução da investigação.







Comentários
Seja o primeiro a comentar.