A observação da conduta humana, em vez de suas convicções religiosas ou ausência delas, é fundamental para avaliar as pessoas. Independentemente da crença em forças espirituais, o que verdadeiramente importa são os propósitos e as ações que pautam o relacionamento entre indivíduos. Ao longo da vida, é possível encontrar tanto pessoas profundamente religiosas que buscam justiça e solidariedade, quanto indivíduos com ou sem fé que demonstram caráter questionável. A afinidade e a construção de um mundo melhor devem se basear nas contribuições de cada um, não em sua adesão a dogmas ou à ausência deles.
Jesus e a Distorção de Seus Ideais
A figura de Jesus, conforme os Evangelhos, emerge como um símbolo de união para crentes e não crentes na busca por um mundo mais justo, livre da miséria e da fome, onde a prosperidade seja universal. Contudo, a instrumentalização de seu nome por supostos líderes cristãos para respaldar interesses de classe de exploradores é vista como uma injúria. Os textos evangélicos, ao contrário, revelam um Jesus que combate ativamente tais práticas.
É igualmente perturbador ver a deturpação de sua constante opção preferencial pelos necessitados, transformando-o em defensor dos ricos e poderosos. Essa distorção, no entanto, não é falha do sentimento religioso, mas sim de sua manipulação. Historicamente, classes dominantes apropriam-se de figuras e conceitos populares para desvirtuar seus significados e perpetuar privilégios.
Neopentecostalismo e Capitalismo Neoliberal
No Brasil contemporâneo, é notável a convergência de igrejas com o apoio ao bolsonarismo, mesclando a imagem de Jesus, associada a ideais de solidariedade e justiça social, com uma visão de mundo de perversidade e egoísmo. Essa fusão de elementos contraditórios visa ludibriar, apelando à espiritualidade religiosa.
Além disso, o crescente número de “teóricos da autoajuda” e “psicologia positiva” também se apropria do nome de Jesus e de Deus para promover saídas individualistas e egoístas para dramas sociais, em sintonia com os fundamentos do capitalismo neoliberal. Apresentam o Nazareno como símbolo da busca desenfreada por acúmulo de riquezas, negligenciando o bem-estar coletivo.
Tanto o neopentecostalismo “neonazista-bolsonarista” quanto as teorias de autoajuda e psicologia positiva operam em simbiose com a etapa mais desumana do capitalismo, o neoliberalismo. Fomentam aspirações individualistas, levando à busca incessante por riqueza material e ao vil individualismo, onde cada trabalhador vê o outro como concorrente.
A pregação da união e do trabalho comunitário em benefício de todos está ausente dessas visões. Embora a busca por apoio divino no Velho Testamento possa ser compreensível para os adeptos dessa visão, estender tal atitude a Jesus é inadmissível, pois os Evangelhos não contêm exemplos que corroborem essa perspectiva. A crítica a essas pregações manipuladoras não visa atacar a religião, mas sim auxiliar aqueles que buscam seguir os ensinamentos de Jesus a se desvencilhar de manobras que os desviam de um caminho de solidariedade para um de egoísmo.







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