Ciro Gomes, candidato ao Governo do Ceará em 2026, detalhou uma proposta para combater as facções criminosas no estado. Ele sugeriu pagar jovens que já estão em contato com essas organizações para que continuem em suas rotinas e forneçam informações à inteligência da polícia. A ideia, chamada por ele de “facção do bem”, busca identificar os líderes do crime, evitando focar apenas na prisão de integrantes de menor escalão. Gomes explicou a proposta em 18 de agosto, mencionando que o alvo são “garotos que estão na fronteira, quase indo pra bandidagem explícita”, e que já poderiam estar envolvidos em distribuição de drogas ou transporte de armas.
Segundo o candidato, a iniciativa criaria uma estrutura onde esses jovens, em vez de se tornarem criminosos, seriam remunerados para colaborar com o Estado. Eles permaneceriam em suas rotinas, mas indicariam caminhos para que as autoridades chegassem aos chefes das organizações. A expressão “facção do bem” visa diferenciar essa rede de colaboradores das próprias organizações criminosas. No entanto, a proposta levanta preocupações sobre a segurança desses jovens, que estariam em uma atividade sigilosa e perigosa. Caso suas colaborações fossem descobertas, eles e suas famílias poderiam sofrer represálias.
Controvérsias e o plano de governo
Ciro Gomes defende que esses jovens não seriam expostos e relacionou a iniciativa ao fortalecimento de programas de proteção a vítimas e testemunhas, incluindo mudança de local e preservação de identidade. Contudo, ele não detalhou como essas medidas seriam aplicadas a alguém que precisaria continuar no mesmo ambiente para obter informações. É importante notar que o plano de governo apresentado por Ciro à Justiça Eleitoral não menciona explicitamente a “facção do bem” nem o pagamento de jovens colaboradores. O documento propõe o fortalecimento da inteligência policial através de agentes especializados, tecnologia e análise de dados, além de uma “inteligência comunitária” baseada no diálogo com moradores e lideranças.
O plano também aborda crianças e jovens ameaçados ou recrutados por facções, prometendo uma “porta de saída” com proteção, educação e qualificação profissional. Há uma diferença, portanto, entre a formulação escrita e a explicação de Ciro na entrevista, onde o jovem continuaria na rotina para repassar informações. A proposta também não estabelece idade mínima para os colaboradores, nem esclarece como ocorreria a abordagem, quem autorizaria o pagamento ou qual instituição assumiria a responsabilidade em caso de descoberta.
Alertas de especialistas e riscos
O advogado Ariel de Castro Alves, membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB, considerou o uso de adolescentes e jovens como delatores uma “temeridade”. Segundo ele, isso poderia resultar em “chacinas e assassinatos em série”, pois os colaboradores seriam expostos a uma ameaça que os programas de proteção existentes talvez não conseguissem eliminar. Ariel alertou que as pessoas usadas pelo Estado poderiam ser “condenadas à morte, sem nenhuma garantia de proteção do Estado”, e que a necessidade de ocultar identidade e paradeiro impõe restrições de liberdade e perda de convívio familiar e social.
O especialista também destacou a presença da corrupção no crime organizado, que pode envolver agentes do Estado, advogados e membros do sistema de Justiça, fazendo com que vítimas e testemunhas não confiem nas autoridades. A identidade de um jovem colaborador chegando a um agente ligado à organização investigada poderia colocá-lo em perigo. Ariel ainda expressou preocupação de que a formação de grupos sociais para combater facções pudesse levar ao surgimento de milícias e à ampliação da violência nas periferias. Ele classificou a proposta de Ciro como “oportunista, eleitoreira e irresponsável”, reiterando que os jovens colaboradores, muitas vezes vulneráveis, seriam colocados em risco, em vez de serem protegidos pelo Estado.







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