A região uigur concentra 92,8% do algodão chinês e cerca de um quarto da produção mundial. Enquanto acelera seu desenvolvimento econômico, Pequim aplica uma nova lei de unidade étnica e responde às acusações do Ocidente.

Em Xinjiang, o algodão cresce onde deveria crescer outra coisa — ou diretamente nada. Boa parte do extremo oeste chinês é ocupada por enormes desertos e cadeias montanhosas, que durante anos dificultaram qualquer tentativa de desenvolver uma agricultura minimamente adequada em termos industriais. No entanto, a região acabou se tornando o coração algodoeiro do país, graças a três décadas de fortes subsídios e investimentos. Somente em 2025, produziu 6,165 milhões de toneladas, 92,8% da colheita nacional, informou o Escritório Nacional de Estatísticas da China. Além disso, também se pode dizer que responde por um quarto do algodão produzido no planeta, segundo o cruzamento dos registros do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos com as estimativas do mercado mundial.

Em julho, entrou em vigor o Regulamento de Promoção da Qualidade do Algodão da Região Autônoma Uigur de Xinjiang, um nome interminável para uma regulamentação apresentada como histórica e que pretende abranger até o mais insignificante capítulo do processo produtivo — desde o plantio e a colheita até a compra, o processamento, a comercialização e o armazenamento.

“A regulamentação reveste-se de grande importância para melhorar a qualidade do algodão, salvaguardar a estabilidade da cadeia industrial têxtil e aumentar a renda dos grupos étnicos da região”, resumiu Mailiyan Simayi, subsecretária-geral e porta-voz do comitê permanente da Assembleia Popular de Xinjiang.

Durante décadas, a colheita do algodão dependeu do trabalho braçal nos campos de Xinjiang. Hoje, máquinas especializadas ocupam esse lugar, e a mecanização supera 97%, em uma transformação que diz muito sobre o modelo que Pequim busca implementar. Por trás desse salto tecnológico está o dinheiro do Estado. As empresas estatais sob controle do governo central injetaram cerca de 1,1 trilhão de yuans durante o XIV Plano Quinquenal (2021-2025), sustentando uma economia regional que encerrou o ano passado com um produto interno bruto de 2,146 trilhões de yuans e crescimento de 5,5%.

Na Comissão Nacional de Assuntos Étnicos, toda essa avalanche de recursos foi traduzida em dados concretos de engenharia social: 2,392 milhões de novos empregos urbanos em cinco anos e 16,1 milhões de deslocamentos de trabalhadores agrícolas para outros polos produtivos. No mesmo período, a renda disponível das famílias cresceu a uma média anual de 5,3% nas cidades e 8,1% no campo.

Nesse planejamento, a geografia também desempenhou seu papel. Xinjiang faz fronteira com oito países e funciona como uma das principais portas terrestres da China para a Ásia Central. Mais da metade dos trens de carga que percorreram o noroeste do país nos últimos cinco anos atravessou a região. O Aeroporto Internacional de Ürümqi, por sua vez, opera 37 rotas internacionais de carga. Nos últimos dias de 2025, foi inaugurado o túnel rodoviário Tianshan Shengli, de 22,13 quilômetros, considerado o mais longo do mundo. O trajeto, que antes podia levar várias horas, agora é percorrido em cerca de 20 minutos.

A abertura territorial teve seu correspondente no mapa do turismo: 323 milhões de viagens no ano passado e uma receita de US$ 53 bilhões (370 bilhões de yuans). Entre circuitos de fronteira, infraestrutura de transporte e a chamada indústria da hospitalidade, as estimativas do setor apontam para mais de um milhão de empregos diretos e indiretos.

O desenvolvimento econômico, no entanto, não silenciou o ruído de fundo da controvérsia internacional.

A frente étnica

Em 12 de março, a China aprovou a Lei de Promoção da Unidade e do Progresso Étnicos, em vigor desde 1º de julho. A norma institucionaliza o conceito de uma identidade nacional compartilhada e abrange desde educação e cultura até condições de emprego, moradia e deslocamentos territoriais. Também garante o respeito às línguas minoritárias, embora consolide o uso prioritário do mandarim padrão.

No Ocidente, questionou-se sobretudo a possibilidade de a jurisdição legal chinesa ser estendida ao exterior caso fossem identificados eventuais ataques à unidade étnica ou ações favoráveis ao separatismo. A resposta de Pequim foi imediata. Bayin Chaolu, titular da Comissão de Assuntos Étnicos da Assembleia Popular Nacional, afirmou que esse tipo de denúncia não tem fundamento e constitui uma interferência direta na política interna chinesa. Na mesma linha, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, atribuiu as críticas a “preconceitos ideológicos” destinados a desacreditar a China.

A isso se somou a recente decisão do governo Trump de incluir outras 43 empresas chinesas na lista da Lei de Prevenção do Trabalho Forçado Uigur. O Ministério do Comércio da China rejeitou a medida e respondeu que Washington costuma recorrer a esse tipo de manobra como represália contra aqueles que não estão dispostos a seguir suas ordens. Além do embate retórico, para as empresas vinculadas a Xinjiang a medida teve um efeito prático paradoxal: é verdade que enfrentam restrições de acesso ao mercado americano, mas continuam podendo fazer negócios com quase 200 países e territórios do mundo.

O algodão pode ser macio. A disputa em torno de Xinjiang, não.