A expansão da inteligência artificial (IA) impõe uma profunda reestruturação ao sistema educacional brasileiro, indo além da simples introdução de novas ferramentas em sala de aula. Para César Callegari, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), o desafio central é evitar que a tecnologia substitua a formação humana, transformando as escolas em ambientes que preparem os estudantes para controlar essas ferramentas, e não apenas consumir o que elas produzem. Em entrevista, Callegari destacou que a disseminação da IA exige uma educação focada no pensamento crítico, na criatividade, na capacidade de interpretação e na formulação de perguntas inteligentes.

Simultaneamente, o presidente do CNE manifestou preocupação com a crescente “plataformização” do ensino. Este processo, segundo ele, consiste na padronização de conteúdos, aulas gravadas e sistemas digitais que gradualmente assumem funções antes exercidas diretamente pelos professores. Callegari defende que a educação deve formar indivíduos aptos a criar 'prompts' inteligentes, capazes de comandar a IA. Ele ressalta que, em um cenário onde sistemas de inteligência artificial podem gerar textos e organizar informações rapidamente, o papel da escola não pode mais se limitar à transmissão de conteúdos, mas sim focar em ensinar crianças e jovens a interpretar, questionar e contextualizar.

Impacto da IA na avaliação e a ameaça da “plataformização”

O Conselho Nacional de Educação tem debatido diretrizes para o uso da IA em todas as etapas de ensino, desde a educação básica até a pós-graduação. Um exemplo claro é a produção acadêmica: ferramentas generativas que criam textos extensos desafiam os métodos tradicionais de avaliação, como dissertações e teses. Callegari argumenta que a resposta não é proibir essas ferramentas, mas repensar o que se espera dos estudantes ao fim de sua formação, valorizando a capacidade de formular problemas, avaliar fontes e assumir responsabilidade pelo conhecimento produzido. O CNE busca implementar protocolos para garantir a “prevalência do humano” nesse processo.

Callegari também identifica como problemático a transformação da educação em um sistema automatizado de distribuição de conteúdo, o que ele chama de “plataformização”. Esse modelo oferece “pacotes prontos” de aulas e avaliações que, segundo ele, podem reduzir a autonomia dos professores e padronizar excessivamente o aprendizado. Ele criticou a adoção intensiva de plataformas digitais, citando o exemplo da rede estadual de São Paulo, por considerar que isso pode levar a uma visão simplista de que educação se resume a disponibilizar conteúdo, uma abordagem incompatível com as competências exigidas pelo avanço tecnológico.

O novo papel do professor e a importância do pensamento crítico

Apesar do avanço da tecnologia, Callegari argumenta que a importância do professor aumenta. Quanto mais as máquinas processam informações, menos sentido faz organizar a escola apenas em torno da transmissão delas. O docente, nesse cenário, assume um papel de mediador, contextualizador e promotor da autonomia intelectual. Para ele, a educação deve ser um processo de experimentação, ousadia e aprendizado com o erro, contrastando com modelos de conteúdos e avaliações padronizadas.

O CNE defende que a escola precisa fomentar a capacidade de questionamento e a formulação de perguntas, preparando “rebeldes com causa”. Diante da IA, onde uma ferramenta pode responder rapidamente, a qualidade da aprendizagem dependerá da habilidade humana de saber o que perguntar, avaliar a resposta e compreender seus limites. Callegari enfatiza que a competência mais crucial a ser desenvolvida, desde a educação infantil à pós-graduação, é a capacidade de ter uma visão contextualizada, com pensamento crítico e habilidade para questionar.

Riscos da “plataformização” e a soberania educacional

Callegari aborda a questão da responsabilidade, afirmando que sistemas tecnológicos não podem assumir decisões que pertencem a profissionais e instituições educacionais, defendendo a “prevalência do humano”. Ele alerta que a tecnologia não deve ser usada para reduzir custos ou diminuir a presença de profissionais, mas para ampliar as possibilidades do professor. A crítica se estende ao modelo econômico que transforma a educação em um produto, impulsionado por grandes grupos privados, onde critérios financeiros predominam.

Para o presidente do CNE, a educação não pode ser vista como uma mercadoria. Embora plataformas possam oferecer recursos pedagógicos, a fronteira é ultrapassada quando elas definem o currículo e a dinâmica da sala de aula, transformando o professor em mero executor de atividades predeterminadas. Callegari ainda relaciona a educação e a tecnologia à soberania nacional, destacando que grande parte da produção científica brasileira está concentrada em universidades e instituições públicas de pesquisa, enfatizando a importância de políticas de educação superior, ciência e tecnologia.