A prisão do procurador-geral da Bolívia, Róger Mariaca, configura um “golpe de Estado institucional”, conforme declaração do advogado Emilio Rodas, que atuou como vice-ministro em governos anteriores, incluindo o de Evo Morales e Luis Arce. Segundo Rodas, não há base legal para a captura do procurador-geral, e a ação faz parte de um plano maior para alinhar o Judiciário aos interesses de um governo “vassalo” e de potências externas, como os Estados Unidos. A detenção ocorreu em um contexto em que Mariaca investigava Fernando Cerimedo por crimes que incluem narcotráfico e enriquecimento ilícito, além de um atentado contra Nadia Beller, namorada de Cerimedo.
Prisão ilegal e violação da legalidade
Rodas afirma que a decisão do presidente Rodrigo Paz de intervir na Procuradoria-Geral viola a legalidade vigente. Ele enfatiza que o procurador-geral possui foro privilegiado, e denúncias contra ele deveriam ser processadas pela Câmara dos Deputados, não por meio de uma ação policial. A alegação governamental de uma “ação direta” não se aplica, pois não houve flagrante delito que justificasse a medida. Para Rodas, a prisão de Mariaca rompe a ordem constitucional do país, integrando uma estratégia de controle que ele compara ao “Escudo das Américas”, uma versão moderna do Plano Condor, com o objetivo de dominar as instituições de Justiça.
O ex-vice-ministro ressalta que o que antes era executado com força militar, agora é realizado por meio de perseguições judiciais, envolvendo policiais, juízes e promotores. A autonomia de Mariaca na condução das investigações contra Cerimedo, que incluíam acusações de narcotráfico e enriquecimento ilícito, teria gerado um atrito com o governo. A ação de apreensão de provas e a ruptura institucional são, na visão de Rodas, elementos desse esquema que visa a um controle total do Judiciário para beneficiar interesses específicos, inclusive a libertação de Cerimedo, descrito como um operador de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA.
Implicações políticas e econômicas
As ações em curso são vistas como parte de um esforço para controlar o Judiciário e usá-lo na perseguição de adversários políticos, em conluio com o narcotráfico e outros interesses. Além disso, há preocupação com a repressão a futuras mobilizações sociais, dado o cenário econômico do país. Rodas sugere que a Procuradoria, que historicamente amparou ações policiais repressivas, poderia não cooperar nesse contexto, motivando a intervenção governamental.
Ele também alerta para o risco de desaparecimento de provas cruciais. Segundo Rodas, a prisão de Mariaca e a intervenção em outras promotorias, realizadas sem ordem judicial, visam a recuperar informações que poderiam incriminar Cerimedo. A documentação inclui uma foto de Cerimedo com um filho de Donald Trump, relacionada à empresa Futura, envolvida em operações para exploração de recursos bolivianos. Rodas acredita que a prisão de Mariaca e a potencial detenção de Nadia Beller, vítima do atentado investigado, são movimentos para “limpar a ficha” de Cerimedo.
A postura da Assembleia Legislativa Plurinacional, que, segundo Rodas, apoia a destituição do procurador sem processo ou julgamento, consolida a ilegalidade. Ele conclui que “toda a estrutura institucional do Estado encontra-se hoje sob controle do Executivo, a serviço de um governo corrupto e ligado ao narcotráfico”, e que o Ministério Público, a última instituição com certa autonomia, foi “sequestrado institucionalmente”.







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