Uma investigação da Agência Pública revelou uma rede coordenada de 60 canais no Telegram espalhando desinformação sobre as urnas eletrônicas brasileiras. Foram identificadas 418 publicações questionando a confiabilidade dos equipamentos, das quais 58 canais compartilham mensagens de apoio a Flávio Bolsonaro, candidato do segundo turno das eleições de 2026. O levantamento rastreou publicações desde 2022, mas a maior concentração ocorreu entre maio e outubro de 2026.

Entre a maior concentração de posts — 245 das 418 publicações — o destaque vai para as 91 publicações nas semanas anteriores e posteriores ao primeiro turno. A análise das conexões revelou 1.259 vínculos entre os canais, estabelecidos por 249.464 encaminhamentos internos, indicando coordenação deliberada na disseminação da desinformação.

Durante o primeiro turno, dez canais compartilharam, entre 20h11 e 20h46, mensagens afirmando que urnas modelos UE2013 e UE2015 geraram erro e travaram a contagem de votos. A alegação já havia sido desmentida pela Justiça Eleitoral, mas circulou nos canais mesmo após o desmentido oficial, inclusive seis dias depois no canal 'Eleições 2026 Memes'.

Um padrão documentado mostra 176 publicações com textos idênticos a pelo menos uma outra postagem, formando 53 grupos de conteúdo replicado. Alguns vídeos antigos — como um de 2017 do ex-delegado Protógenes Queiroz alegando fraude em 2014 — volta a circular periodicamente em 32 publicações de 18 canais, numa estratégia de revalidar mentiras já desmentidas inúmeras vezes.

Na sexta-feira, Eduardo Bolsonaro sugeriu em entrevista concedida nos EUA que poderia haver fraude nas urnas e que seu irmão teria de deixar o país se perdesse. A declaração reforça a narrativa mentirosa que circula entre os apoiadores bolsonaristas nesses canais do Telegram.

Moderação inadequada em plataforma que não implementa conformidade

O Telegram apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral um plano de conformidade em setembro de 2026, que inclui medidas de moderação de conteúdo e aplicação de avisos visíveis de fraude. Porém, entre as 418 publicações analisadas, apenas uma apresentava indicação de conteúdo potencialmente falso — resultado muito inferior ao previsto pela conformidade prometida. Pesquisadora ouvida pela Agência Pública apontou que o plano é apenas uma declaração de compromisso e não tem força de lei para obrigar a plataforma a fiscalizar adequadamente.

A análise identificou três eixos discursivos principais: alegações sobre falhas técnicas nos equipamentos, questionamentos sobre interferência externa no processo eleitoral e memes. Os canais rejeitam explicações técnicas do Tribunal Superior Eleitoral, mesmo quando técnicos demonstram o funcionamento das urnas. O padrão revela não apenas desinformação isolada, mas uma campanha coordenada para minar a confiança nas instituições eleitorais democráticas, em momento crítico do processo de votação.