247 – Após auxiliar as autoridades americanas nos meses que antecederam a captura do presidente Nicolás Maduro, o bilionário venezuelano Alejandro Betancourt tornou-se o principal parceiro de Washington em um acordo petrolífero incomum com Caracas. O empresário, que até recentemente era alvo de investigações por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo recursos desviados da PDVSA, passou a ocupar uma posição central na estratégia dos Estados Unidos para ampliar o acesso ao petróleo venezuelano.

Segundo reportagem da Reuters publicada neste sábado (5), Betancourt ajudou na articulação da política americana para a Venezuela antes da operação de 3 de janeiro, que sequestrou Maduro do poder e o levou a Nova York para responder a acusações de tráfico de drogas, negadas pelo ex-presidente venezuelano. Depois disso, o bilionário assumiu papel decisivo como intermediário entre Washington e Caracas e como sócio estratégico no novo arranjo energético firmado pelo governo Donald Trump.

O acordo anunciado na semana passada garante aos Estados Unidos acesso, por décadas, a cerca de um quinto das reservas de petróleo bruto da Venezuela. Pelo entendimento, o Escritório de Capital Estratégico do Pentágono terá participação de 35% na North American Blue Energy Partners (NABEP), empresa de Betancourt com atuação na produção de petróleo venezuelano. O Departamento de Estado também terá o direito de comprar 20% do petróleo produzido pela companhia a preço de custo, além de acesso preferencial aos 80% restantes da produção.

A ascensão de Betancourt no centro da política energética americana para a Venezuela contrasta com seu histórico recente de investigações nos Estados Unidos, na Espanha e na Suíça. Apesar de nunca ter sido formalmente acusado, ele foi investigado por suspeitas ligadas à lavagem de dinheiro e ao desvio de recursos da estatal PDVSA.

Questionado sobre as apurações envolvendo o empresário, um funcionário americano afirmou à Reuters, sob condição de anonimato, que a maior parte dos processos judiciais tem quase uma década e que Betancourt não enfrenta atualmente problemas legais nos Estados Unidos. Segundo essa autoridade, a experiência da NABEP na extração de petróleo na Venezuela tornou o empresário o parceiro mais adequado para impulsionar a produção no âmbito do acordo.

A Reuters informou que não conseguiu determinar exatamente quando promotores federais americanos suspenderam a investigação contra Betancourt nem se a decisão teve relação com sua cooperação com o governo Trump.

A advogada da NABEP, Sarah Chouraqui, afirmou que Betancourt possui experiência em mercados energéticos complexos. “As alegações em questão foram examinadas extensivamente por autoridades em múltiplas jurisdições, e nenhuma acusação foi apresentada contra ele”, disse em e-mail à Reuters. Chouraqui não respondeu às perguntas sobre a ajuda prestada ao governo Trump nem sobre os casos legais envolvendo o empresário.

Ajuda no bloqueio naval americano

Nos meses anteriores à captura de Maduro, Betancourt forneceu informações que ajudaram os Estados Unidos a aplicar um bloqueio naval contra navios petroleiros sancionados que operavam na Venezuela, segundo quatro pessoas ouvidas pela Reuters sob condição de anonimato. A operação levou à apreensão ou interdição de mais de uma dezena de embarcações.

O empresário também facilitou negociações com autoridades venezuelanas, incluindo Delcy Rodríguez, que assumiu como presidente interina depois da captura de Maduro. O governo venezuelano não respondeu aos pedidos de comentário feitos pela agência.

Após a saída de Maduro, Betancourt continuou atuando como intermediário de peso. De acordo com sete fontes ouvidas pela Reuters, ele ajudou a negociar acordos de petróleo e outras parcerias e manteve canais de comunicação entre Washington e Caracas para tentar reativar a economia venezuelana.

Em janeiro, o empresário auxiliou na articulação de um acordo comercial de petróleo que resultou, até agora, na exportação de mais de 135 milhões de barris de petróleo bruto e combustíveis para Estados Unidos, Europa, Índia e Caribe, segundo dados de monitoramento de embarcações e seis pessoas com conhecimento das tratativas. O volume corresponde a cerca de metade de todas as exportações de petróleo venezuelano até o fim de agosto. A Reuters afirmou que não conseguiu determinar com precisão o papel de Betancourt nessas conversas.

Betancourt também apareceu em reuniões no Palácio de Miraflores, sede do governo venezuelano, segundo duas pessoas familiarizadas com o assunto. Ele estava no local durante a visita do secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, nesta semana, conforme o próprio Wright disse a jornalistas. O empresário, no entanto, não apareceu ao lado de Wright e Delcy Rodríguez na cerimônia de assinatura dos acordos petrolíferos.

Investigação paralisada na Flórida

No início deste ano, promotores federais da Flórida suspenderam uma investigação contra Betancourt relacionada a um suposto esquema de desvio de mais de US$ 1 bilhão da PDVSA e lavagem desses recursos por meio de imóveis em Miami e contas bancárias em Malta e na Suíça.

Duas fontes disseram à Reuters que promotores americanos foram posteriormente desencorajados por superiores a continuar investigando o bilionário. Quatro pessoas familiarizadas com o caso afirmaram que os responsáveis pela apuração não receberam uma justificativa para a decisão.

Depois que a investigação nos Estados Unidos ficou paralisada, autoridades americanas pressionaram o governo suíço a aliviar suas apurações sobre Betancourt, segundo quatro pessoas ouvidas pela agência. A Suíça, que também investigava o empresário por lavagem de dinheiro, retirou em maio um pedido de extradição feito ao Reino Unido.

O Ministério Público de Zurique não comentou se os Estados Unidos influenciaram a retirada do pedido de extradição, mas afirmou que o processo criminal contra Betancourt continua em andamento. “O pedido de extradição foi retirado por causa de aspectos específicos da lei de extradição do Reino Unido, que não podemos discutir em detalhes”, disse o órgão. “Essa medida diz respeito apenas ao processo de extradição no Reino Unido. O processo criminal contra o acusado permanece, de resto, inalterado e continuará.”

Para Mark Pieth, jurista suíço e especialista em combate à corrupção, a retirada do pedido foi incomum. “Você não faria isso se o caso estivesse continuando”, afirmou à Reuters. O Ministério do Interior do Reino Unido não comentou.

Dos bolichicos ao centro do acordo com Washington

Betancourt é um dos empresários conhecidos como “bolichicos”, geração que acumulou grandes fortunas durante o governo do ex-presidente Hugo Chávez. Sua empresa Derwick Associates obteve cerca de US$ 2 bilhões em contratos públicos para construir usinas elétricas durante a crise energética venezuelana dos anos 2010. Alguns contratos foram fechados sem licitação competitiva, apesar da pouca experiência da companhia no setor de construção.

Dados oficiais mostraram posteriormente que muitas dessas usinas operaram muito abaixo da capacidade prevista ou sequer funcionaram, enquanto a rede elétrica venezuelana continuava sujeita a apagões em larga escala. Betancourt e a Derwick negaram repetidamente irregularidades e afirmaram que as instalações foram concluídas, atribuindo falhas posteriores à má gestão de autoridades estatais.

Delcy Rodríguez afirmou em entrevista coletiva na quarta-feira que todos os processos legais contra empresas de Betancourt na Venezuela foram arquivados anos atrás.

Em 2012, Betancourt firmou parceria com a PDVSA para operar campos maduros no oeste da Venezuela. Essas áreas se tornariam depois a base da produção da NABEP, fundada pelo empresário em abril de 2024 ao lado do bilionário da Flórida Harry Sargeant. Sargeant vendeu sua participação na companhia no mês passado.

Mauricio Claver-Carone, empresário de Miami e ex-assessor do governo Trump que atuou de forma não oficial na política americana para Caracas, disse à Reuters no mês passado que Betancourt é um intermediário útil entre o governo Trump e Delcy Rodríguez por conhecer o setor de petróleo nos dois países. Segundo ele, o empresário também ajudou o primeiro governo Trump.

Ainda assim, ex-integrantes da inteligência americana, promotores e diplomatas manifestaram preocupação com a influência de Betancourt sobre a política dos Estados Unidos para a Venezuela. As reservas envolvem a investigação anterior nos EUA, a apuração ainda em curso na Suíça e a proximidade do empresário com autoridades de alto escalão dos governos Chávez e Maduro.

Promotores federais estão “coçando a cabeça”, disse à Reuters um ex-promotor com conhecimento da situação.

Antes de a investigação em Miami ser colocada em espera, seis fontes afirmaram que Betancourt havia sido identificado como coconspirador não acusado em um suposto esquema envolvendo ex-autoridades venezuelanas de energia e associados para lavar mais de US$ 1 bilhão desviados da PDVSA. Dez pessoas foram acusadas desde 2018.

Na Espanha, autoridades abriram no ano passado uma nova investigação contra Betancourt por lavagem de dinheiro envolvendo US$ 4 bilhões supostamente desviados da PDVSA, segundo o jornal El País. A Reuters informou que não conseguiu determinar se ele ainda segue sob investigação no país. A Audiência Nacional espanhola e a estatal venezuelana não responderam aos pedidos de comentário.

Depois de ficar livre para deixar o Reino Unido, Betancourt viajou à Venezuela no fim de junho e novamente em julho, partindo nas duas ocasiões de West Palm Beach, na Flórida, segundo registros de voo vistos pela Reuters. A advogada do empresário não comentou as viagens.