Dez anos após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o cenário político e econômico brasileiro ainda reflete uma estrutura de controle que, embora renove seus personagens, mantém sua essência, conforme análise do jurista e filósofo do direito Alysson Mascaro. Em uma entrevista, Mascaro traçou um panorama histórico do país, destacando que fenômenos como o crescimento de narrativas de autoajuda e a atuação do Poder Judiciário não são acasos, mas sim manifestações da crise do capitalismo e do acirramento das tensões geopolíticas mundiais.

A ideologia da autoajuda e a "privatização do sofrimento"

Um dos pontos centrais da análise de Mascaro é a disseminação dos discursos de autoajuda, coaching e pensamento mágico no âmbito eleitoral e cultural. Segundo o jurista, a popularidade de figuras como Augusto Cury serve como uma forma de desviar a atenção das contradições materiais enfrentadas pelas camadas populares. Ele argumenta que essa moralidade de autoajuda é uma estratégia para adiar o enfrentamento do sofrimento e da luta por mudanças. Para Mascaro, o capitalismo, diante da precarização do trabalho e da falência do modelo neoliberal em oferecer perspectivas reais, comercializa soluções individualizadas para problemas que são, na verdade, coletivos.

Essa abordagem transforma o sofrimento de uma consequência da exploração econômica em uma falha pessoal, seja moral ou psicológica. Tal crença em soluções mágicas e em uma redenção puramente subjetiva enfraquece a capacidade de mobilização política, impede a compreensão crítica da realidade e abre caminho para saídas demagógicas.

Dez anos do "golpe": da baioneta à caneta

Ao abordar os dez anos do impeachment de 2016, Mascaro reiterou que a lógica do poder de exceção permanece ativa, apesar das mudanças nos líderes políticos. Enquanto em 2016 o foco da intervenção política estava na força-tarefa da Lava Jato, atualmente, o epicentro se deslocou para o Supremo Tribunal Federal (STF). O jurista enfatizou que, na sociedade capitalista contemporânea, o papel de intervenção, antes associado aos militares, agora é desempenhado por juristas e membros do Ministério Público, trocando o poder da força militar pelo da decisão judicial.

Mascaro discorda da visão liberal de que os excessos e as conexões entre o poder econômico e o Judiciário seriam uma "anomalia institucional". Ele argumenta que não se trata de anomalia, pois o capital sempre exerceu controle sobre a política em qualquer sistema capitalista. Segundo ele, classificar essas ocorrências como anomalias parte de uma leitura idealizada das instituições que ignora a verdadeira forma política do Estado burguês.

Multipolaridade e o futuro dos BRICS

Ampliando a perspectiva, Alysson Mascaro contextualiza a instabilidade brasileira dentro do quadro global de declínio relativo da hegemonia dos Estados Unidos e da transição para uma ordem mundial multipolar. Ele ressaltou que, com a perda de influência em regiões como Ásia, Oriente Médio e Eurásia, o imperialismo norte-americano intensifica sua pressão sobre o Sul Global, especialmente a América Latina e os recursos estratégicos do Brasil. Para Mascaro, a soberania é o principal desafio do Brasil na próxima década, que precisa se libertar das influências imperialistas para construir um projeto nacional autônomo.

Nesse cenário, o fortalecimento dos BRICS, com a liderança de Dilma Rousseff no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), surge como um fator crucial para o desenvolvimento nacional. Mascaro conclui que o Brasil possui todas as condições materiais e diplomáticas para se consolidar como uma potência na nova ordem internacional, desde que supere o moralismo e as falsas soluções oferecidas pelo mercado da autoajuda, buscando, assim, ser uma nação soberana e grandiosa.