Seis em cada dez brasileiros detidos pela polícia de imigração dos Estados Unidos (ICE) são deportados. A maioria desses imigrantes, cerca de dois terços, não é acusada de nenhum crime, já que o status imigratório irregular é considerado uma infração civil, não penal, no país. O tempo médio entre a apreensão e a decisão judicial é de 37 dias.
As informações são de um levantamento inédito do Observatório das Deportações, projeto da Universidade Estadual de Montes Claros (MG). Os dados foram obtidos através de um pedido feito ao ICE pelo Deportation Data Project, utilizando a lei de acesso à informação americana.
A análise abrange os anos de 2023 e 2024, durante o governo de Joe Biden, e 2025 e 2026, nos primeiros anos do segundo mandato de Donald Trump. Até agosto de 2026, 3.650 brasileiros foram presos, com o maior número de apreensões registrado em julho passado, com 709 casos. O número de detenções nos dois primeiros anos da gestão republicana é mais que o dobro do período democrata.
As detenções estão concentradas na Costa Leste dos EUA, onde vive grande parte da comunidade brasileira. Os estados com maior número de casos são Massachusetts, Flórida, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York. A idade média dos brasileiros presos é de 34 anos. Aproximadamente 30% dos detidos neste ano são liberados sob liberdade condicional, muitos com monitoramento por tornozeleira eletrônica.
O perfil dos detidos mostra que 75% são homens, percentual que aumentou para 80% no governo Trump. Segundo o pesquisador Julio D'Angelo Davies, coordenador do projeto, essa priorização na deportação de homens adultos, frequentemente provedores do lar, pode levar mulheres e crianças a buscarem a autodeportação para se reunir com familiares no Brasil, devido à perda da fonte de renda nos EUA.
Apesar da maioria ser adulta, 569 crianças foram detidas nos dois primeiros anos do governo Trump, e 625 nos últimos dois anos de Biden. Essas crianças geralmente são apreendidas com os pais e liberadas em pouco tempo, sem serem levadas para prisões de longa permanência.
Crescimento das detenções e impactos
O aumento exponencial no número de detenções levou a uma maior agilidade do sistema judicial. O tempo médio para uma sentença judicial ou ordem de deportação caiu para 37 dias neste ano, em comparação com 161 dias em 2024. Imigrantes podem solicitar habeas corpus para responder em liberdade ou optar pelo retorno voluntário ao país de origem.
Setores consulares brasileiros, como o Consulado-Geral do Brasil em Boston, observaram um aumento nos casos de prisões, liberdade condicional com tornozeleira eletrônica e assistência a mulheres com crianças. O número de solicitações de certidões de nascimento para crianças brasileiras nascidas nos EUA também disparou, de 5.600 em 2024 para mais de 21 mil em 2025, indicando uma preocupação das famílias com a documentação em caso de autodeportação.
Os dados do Observatório das Deportações focam nas apreensões do ICE. No entanto, imigrantes também são detidos pelo CBP (agência de controle de fronteiras). De janeiro a maio deste ano, 176 brasileiros foram detidos pelo CBP na fronteira com o México, um número menor que os 10,7 mil registrados no mesmo período de 2024, refletindo a política restritiva de fronteira do governo Trump.







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