247 – A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt abriu uma nova frente de pressão sobre o chanceler Friedrich Merz e sobre a União Democrata Cristã (CDU), que agora enfrenta um avanço sem precedentes da extrema direita no leste do país.
Segundo a Reuters, a AfD conquistou quase 44% dos votos e 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual. Apesar de não ter alcançado maioria absoluta, o partido passou a tentar atrair parlamentares conservadores individualmente para viabilizar um governo — algo que representaria a primeira chegada de uma legenda de extrema direita ao comando de um estado alemão desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Merz descartou nesta segunda-feira, 7, qualquer acordo com a AfD, mas reconheceu o tamanho do impacto provocado pelo resultado eleitoral.
“Isso abala nosso partido até os alicerces. Não podemos simplesmente continuar como antes, nem eu, nem o governo federal”, afirmou Merz, segundo o jornal Bild.
O chanceler acrescentou que o sistema partidário alemão atravessa uma transformação profunda.
“Temos uma Constituição forte; temos todos os instrumentos para defender a Constituição contra um governo estadual de extrema direita — mas nosso sistema partidário está passando por uma mudança tectônica”, disse.
AfD tenta romper barreira política
O resultado coloca sob pressão a política conhecida na Alemanha como “firewall”, a barreira adotada pelos principais partidos para impedir qualquer forma de cooperação institucional com a AfD.
A legenda de extrema direita considera essa política antidemocrática e passou a pressionar diretamente parlamentares da CDU.
Tino Chrupalla, copresidente nacional da AfD, pediu que deputados conservadores apoiem a formação do que chamou de uma “maioria conservadora de centro-direita” na Saxônia-Anhalt.
“Os jogos partidários realmente deveriam ser coisa do passado”, afirmou Chrupalla à rádio alemã, em referência à política de isolamento da AfD.
Ulrich Siegmund, principal candidato da legenda no estado, disse que pretende conversar com diferentes grupos parlamentares. Durante a campanha, ele citou o caso de um prefeito da CDU que havia feito uma doação à AfD e afirmou que aparentemente existe “um resto — um vestígio — de bom senso dentro daquele partido”.
A AfD defende políticas duras contra a imigração, o fim do apoio alemão à Ucrânia e a reconstrução das relações com Moscou.
BSW pode se aproximar
O único partido alemão que já sinalizou disposição para dialogar com a AfD é a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), legenda populista de esquerda que também critica a política de isolamento da extrema direita.
O BSW compartilha com a AfD a oposição à imigração em massa e também defende o fim do apoio alemão à Ucrânia e a retomada das relações econômicas com a Rússia.
As duas legendas sustentam ainda que as sanções contra Moscou prejudicam a própria economia alemã, ao limitar o acesso das empresas do país à energia russa de baixo custo.
De acordo com dados da emissora ARD citados pela Reuters, a “paz na Europa” foi o segundo fator mais importante para a decisão dos eleitores na Saxônia-Anhalt.
Durante a campanha, a AfD explorou a insatisfação com os partidos tradicionais e apresentou propostas de endurecimento na área de segurança, restrições migratórias e valorização do nacionalismo alemão.
Resultado expõe fragilidade de Merz
A eleição ocorre em um momento de elevada impopularidade de Friedrich Merz. Pesquisas citadas pela Reuters apontam o chanceler como o mais impopular da história moderna da Alemanha.
Merz ainda terá de enfrentar novas eleições estaduais nas próximas semanas e ao longo do próximo ano, enquanto tenta recuperar apoio com reformas econômicas e aumento de gastos em determinadas áreas.
A Saxônia-Anhalt é um estado relativamente pequeno e um dos mais pobres do antigo território da Alemanha Oriental, mas a direção nacional da AfD tratou o resultado como um marco.
Alice Weidel, copresidente da legenda, afirmou que o partido pretende alcançar pelo menos 40% dos votos nas próximas eleições federais, previstas para 2029.
A AfD é classificada como extremista de direita pelo escritório local do serviço de inteligência doméstica alemão. O partido rejeita a classificação e afirma que as acusações de extremismo são uma tentativa de assustar o eleitorado e desrespeitar seus apoiadores.
Preocupação cresce na Europa
O avanço da AfD provocou reações fora da Alemanha. Líderes de extrema direita europeus celebraram o resultado, e o bilionário estadunidense Elon Musk voltou a manifestar apoio ao partido.
Na França, o ministro das Finanças, Roland Lescure, disse à rádio RTL que o resultado “envia um sinal muito, muito preocupante”.
“Isso mostra que enfrentamos um grande desafio diante de uma onda populista que hoje se espalha pelo mundo e à qual devemos resistir”, afirmou.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, também reagiu, afirmando que a ameaça da extrema direita está “ganhando terreno na Europa e no mundo”.
A reação mais contundente veio de Eva Umlauf, sobrevivente do campo de concentração nazista de Auschwitz e presidente do Comitê Internacional de Auschwitz.
“Como sobreviventes do Holocausto, nunca teríamos imaginado ser possível que um partido de extrema direita voltasse a ocupar o posto de maior bancada parlamentar em um Parlamento estadual alemão”, declarou.
“Este resultado eleitoral nos assusta!”, acrescentou.






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