Meu saudoso primeiro patrão, dono do jornal Tribuna Regional – Capivari, do qual fui empregado nos idos de 79 a 83, costumava dizer que na família de um certo colunista do semanário “o único que bate bem é o carro”. Referia-se, por evidente, à quantidade de insanos que integravam o tal clã familiar.
Que boa parcela dos brasileiros não “bate bem”, todos sabemos, pelo menos desde que em 2018 um sofrível piloto de carrinho de pipocas (“popcorn seller”, na língua preferida dos patriotas da terra estrangeira) foi eleito para pilotar o supersônico chamado Brasil e nos levou ao desastre que deixou pelo menos setecentos mil mortos.
Aliás, assim tem sido desde que este país elegeu Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás que achou que todo brasileiro era marajá, lá nos idos de 1989, senão de muito antes (basta lembrar a marcha das senhoras católicas contra o fantasma do “comunismo”, em 1964…).
Era de se esperar, portanto, que uma parcela, digamos, lúcida desse contingente, ou de alguma forma consciente da própria insanidade, resolvesse de uma hora para outra depositar esperanças num psiquiatra para pilotar o avião gigantesco.
Eis que surge em Itaguaí – chamemos assim este nosso Brasil – o doutor Simão Bacamarte.
No conto “O Alienista”, de Machado de Assis, o médico Simão Bacamarte volta à terra natal, a fictícia Itaguaí, onde decide dedicar-se ao estudo da saúde mental.
Ele constrói um manicômio a que denomina Casa Verde (bem poderia ser Verde-Amarela), torna-se famoso na localidade e vira o queridinho dos habitantes. A Câmara de Vereadores lhe concede autonomia administrativa e financeira para tocar o hospício, para o qual leva pacientes em massa à internação até lá confinar toda a população.
Quem antes o venerava, todavia, começa a temer que não esteja a salvo de ser considerado louco. O descontentamento se generaliza entre o populacho e dele emerge Porfírio, o barbeiro, que enxerga na revolta uma chance de ganhar poder político. Porfírio lidera, então, a “Rebelião dos Canjicas”. Parte da população vacila entre apoiar o movimento e temer a ausência de autoridade, e a revolta acaba sufocada.
Transpondo a alegoria para o Brasil de hoje, Simão Bacamarte bem poderia chamar-se Augusto Cury.
Uma diferença, porém: enquanto o médico de Itaguaí revela desprezo por cargos públicos, eis que nosso vendedor de livros de autoajuda, num “insaite” (“insight”, naquela língua), ou seja, num lampejo da própria mente, resolve se candidatar a um cargo eletivo, e logo o de presidente da República!
O jornalista Mário Vitor Santos perguntou no Bom Dia 247, hoje pela manhã (1º de setembro), “que água essa gente bebeu”, indignado com a súbita ascensão do escritor que, de ridículos 2% de intenção de votos no início da campanha, em algumas horas alcançou a cifra de 12%.
Não é água, respondo eu. É sede. Sede de encontrar um psiquiatra que tire esses milhões de brasileiros do surto coletivo que os acometeu, numa espécie de “folie à deux” que, de pouco em pouco, já se transformou em “folie à plusieurs”, alcançando milhões de patriotas – com e sem aspas.
Perdoem-me o estrago: no final, o médico da obra machadiana percebe que o único habitante de Itaguaí digno de ficar internado na Casa Verde é ele mesmo, e no hospício ele morre solitário.
Se estiver certo o autor do clássico da literatura nacional, nosso visionário Joaquim Maria, também haverá de terminar sozinho o Bacamarte da realidade deste século XXI ao final da eleição presidencial.
Nada de novo na História: a cada eleição surge um pastel de vento que se infla ao limite, mas no final se esvazia por completo e dele não sobra nem o bafo quente.
Não é hora, porém, de bater na candidatura do psiquiatra da autoajuda (perceba, caro leitor, o duplo sentido…). Até aqui, tem tirado mais votos dos adversários de Lula do que deste, que os tem perdido na margem de erro, de acordo com pesquisas recentes. Havemos de confiar que, não sendo Cury adepto da extrema-direita, como de fato parece não ser, num eventual segundo turno opte pela sanidade e rechace o negacionismo dos avanços científicos. Um pouco de lucidez ao final da aventura não lhe fará mal.
Só espero que o pastel de vento não repita o exemplo do cearense de Pindamonhangaba, dono de idênticos 12% em 2018, e resolva medir forças com o croissant tomando champanhe às margens do Sena, junto à Maison de la Radio – maneira elegante como iniciava sua participação outro jornalista, o correspondente Reali Júnior, na rádio Jovem Pan dos bons tempos, que eu ouvia todas as manhãs enquanto me preparava para ir ao trabalho na Tribuna.






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