247 – O impasse diplomático sobre o Estreito de Ormuz agravou o temor de desabastecimento mundial após o adiamento de uma reunião entre o Irã e países árabes do Golfo e uma nova sequência de ataques contra rotas estratégicas do petróleo no Oriente Médio.

Segundo a Reuters, o encontro previsto para esta segunda-feira (14) deveria discutir uma proposta negociada entre Irã e Omã para regulamentar a navegação pelo estreito. A passagem marítima concentrava cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo antes do início da guerra.

O ministro das Relações Exteriores de Omã, Sayyid Badr Albusaidi, informou que a reunião regional havia sido adiada “em prol do consenso”. A declaração reduziu a expectativa de uma saída diplomática imediata para a crise que restringe a circulação de navios e pressiona os mercados de energia.

A agência iraniana Fars, por sua vez, citou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Irã segundo o qual alguns países da região solicitaram o adiamento. A decisão teria sido tomada conjuntamente por Teerã e Mascate, que ainda deverão definir uma nova data para as negociações.

Apesar das conversas conduzidas por Omã, o governo iraniano indicou que não pretende liberar novamente o Estreito de Ormuz enquanto Washington não atender às condições apresentadas por Teerã.

Em entrevista ao veículo pan-árabe Al-Arabi Al-Jadeed, sediado em Londres, o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, afirmou que, independentemente de qualquer entendimento com Omã, o Irã não reabrirá a passagem antes de os Estados Unidos satisfazerem suas exigências.

Ataques elevam risco para o abastecimento

O adiamento das negociações coincidiu com o aumento da violência em torno do Estreito de Ormuz e do Bab el-Mandeb, duas das principais rotas marítimas para o transporte de petróleo e derivados no mundo.

Os preços do petróleo avançaram mais de 3% nesta segunda-feira. A alta ocorreu depois de ataques dos houthis contra a Arábia Saudita e de uma ofensiva separada que provocou o fechamento do principal oleoduto leste-oeste do país, com aproximadamente 1.200 quilômetros de extensão.

A estrutura é fundamental porque permite à Arábia Saudita transportar petróleo até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, sem utilizar o Estreito de Ormuz. A interrupção eliminou, ao menos temporariamente, a principal alternativa saudita à passagem controlada pelo Irã.

Imagens de satélite mostraram grandes colunas de fumaça em pontos ao longo do oleoduto. O governo saudita ainda não informou a dimensão total dos danos nem apresentou uma estimativa oficial para a retomada das operações.

Fontes ouvidas pela Reuters deram previsões divergentes para o reparo, que pode levar de alguns dias a várias semanas.

Compradores de petróleo saudita e operadores do mercado calculam que os estoques armazenados em Yanbu sejam suficientes para manter as exportações durante apenas cinco a sete dias caso o oleoduto permaneça fechado. Após esse período, até 4% da oferta mundial poderá ficar ameaçada, além dos milhões de barris diários já afetados pelas restrições em Ormuz.

Tráfego marítimo cai a níveis mínimos

A navegação pelo Estreito de Ormuz também permanece sob risco. A agência britânica de segurança marítima UKMTO informou que um navio foi atingido por um projétil no domingo enquanto atravessava a passagem.

O impacto provocou um incêndio e levou à retirada dos tripulantes. Separadamente, o Irã comunicou que uma pessoa morreu e quatro integrantes da tripulação ficaram feridos em um ataque contra uma embarcação comercial iraniana perto da costa do país.

Dados preliminares de monitoramento indicaram que o número diário de navios de carga cruzando o estreito caiu para menos de dez durante o fim de semana. A média dos dez dias anteriores era de 14 embarcações por dia.

Os números não incluem navios que possam ter desligado seus transponders do Sistema de Identificação Automática para evitar o rastreamento. Por isso, o movimento real pode ser ligeiramente superior, embora os dados confirmem a forte retração do tráfego comercial.

A redução da circulação ocorre depois de uma recuperação gradual registrada em agosto, período de menor intensidade dos confrontos e de retomada parcial do escoamento do petróleo produzido no Oriente Médio.

Petróleo acima de US$ 100 e diesel recorde nos EUA

A instabilidade levou o petróleo a superar US$ 100 por barril na semana passada pela primeira vez desde julho. Nos Estados Unidos, o preço médio do diesel no varejo ultrapassou US$ 6,20 por galão no domingo, estabelecendo um novo recorde.

O avanço dos combustíveis aumenta a pressão política sobre o presidente norte-americano, Donald Trump, às vésperas das eleições de meio de mandato, marcadas para novembro.

Durante uma viagem à Irlanda no fim de semana, na qual também participou do torneio de golfe Irish Open, Trump voltou a prever que a guerra contra o Irã terminaria ainda neste ano, possivelmente logo depois das eleições legislativas. Segundo ele, nesse cenário, o preço da gasolina iria “cair como uma pedra”.

O presidente dos Estados Unidos também declarou que o Irã está “pedindo constantemente” a abertura de negociações, mas afirmou que Washington somente aceitará um “acordo justo”.

A ofensiva lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã começou há seis meses. Até agora, Washington não alcançou os objetivos anunciados por Trump no início da chamada “Operação Fúria Épica”, em fevereiro: encerrar o programa nuclear iraniano, impedir ataques contra países vizinhos e criar condições para a derrubada do governo pelos próprios iranianos.

Avanço houthi amplia frente de conflito

A crise energética ganhou uma nova dimensão com a intensificação dos ataques dos houthis, grupo iemenita alinhado ao Irã. A imprensa estatal saudita divulgou imagens de danos causados a residências e a uma mesquita na província de Jazan, no sul do país, após uma ofensiva atribuída aos rebeldes.

Os houthis também reivindicaram um ataque contra uma base militar saudita em uma província vizinha. A ação ocorreu depois de o grupo capturar a ilha de Perim, localizada no Estreito de Bab el-Mandeb, conhecido como “Portão das Lágrimas”, na entrada do Mar Vermelho.

O avanço pela costa representa a maior escalada dos combates no Iêmen em vários anos. Além de ampliar a ameaça contra a Arábia Saudita, a ofensiva pode comprometer o transporte marítimo entre o Oceano Índico, o Mar Vermelho e o Canal de Suez.

Para Washington, a expansão do conflito cria o risco de abertura de outra frente militar. O governo norte-americano procura proteger a navegação comercial e apoiar a Arábia Saudita, mas evita um envolvimento direto de maior escala na guerra iemenita.

Três fontes disseram à Reuters que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de fato da Arábia Saudita, telefonou para Trump na quinta-feira para solicitar ajuda militar contra os houthis. Até o momento, os Estados Unidos teriam oferecido apenas apoio de inteligência.

Trump confirmou no sábado que conversou com o príncipe herdeiro. O presidente norte-americano disse ainda que os houthis também procuraram sua administração para pedir que Washington não participe da guerra no Iêmen.

Em 2025, os Estados Unidos bombardearam posições houthis durante dois meses. Trump interrompeu a campanha após anunciar que o grupo havia retirado a ameaça de atacar embarcações no Mar Vermelho. A retomada das ofensivas coloca agora os países do Golfo diante de uma escolha difícil entre suportar perdas econômicas crescentes ou ampliar a negociação com o Irã.