O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma Medida Provisória (MP) direcionada ao combate às apostas eletrônicas no Brasil. A iniciativa busca frear o que é considerado um problema social, com o vício em jogos afetando principalmente famílias de baixa renda e comprometendo recursos destinados a despesas essenciais como alimentação, aluguel e medicamentos.

Apesar do objetivo social da MP, clubes de futebol, a exemplo do Flamengo, expressaram publicamente sua preocupação. O clube carioca divulgou uma nota mencionando prejuízos de milhões e a necessidade de “segurança jurídica”, defendendo seu contrato de patrocínio com a Betano, considerado o maior do futebol brasileiro. A postura do presidente do clube, para alguns, assemelha-se à de um advogado das empresas de apostas.

O silêncio das empresas e o lucro que vai para o exterior

Curiosamente, nenhuma empresa de apostas assinou ou se manifestou sobre a nota do Flamengo. A ausência de posicionamento das “bets” levanta questionamentos sobre a bilateralidade dos contratos, já que apenas os clubes parecem se sentir lesados. Essas empresas frequentemente operam de forma discreta, com sedes no exterior, complexas estruturas de holdings e proprietários muitas vezes ocultos, utilizando a visibilidade dos clubes como forma de legitimação.

A maior parte do lucro gerado por essas apostas é enviada para fora do país, enquanto o impacto social negativo recai sobre o Brasil, especialmente sobre os trabalhadores. Estimativas apontam que mais da metade dos apostadores ganha até dois salários mínimos, evidenciando que o dinheiro do povo está sendo drenado. A MP, portanto, é vista como uma medida de proteção social, não um ataque ao futebol.

A necessidade de transparência no setor

Se as empresas de apostas são tão legítimas quanto afirmam, a expectativa é que elas se apresentem publicamente, revelando seus rostos, nomes e endereços, e os verdadeiros proprietários. A falta de transparência e o uso dos clubes como 'escudos' sugerem uma relutância em operar sob a luz do escrutínio público.

A sociedade e as autoridades esperam que, se os contratos são justos e sólidos, essas empresas venham a público para explicar, sem intermediários, por que o vício em jogos deveria continuar sendo financiado pela população brasileira. Entende-se que nenhum contrato é irrevogável a ponto de se sobrepor à harmonia familiar e à saúde mental de milhões de cidadãos. A defesa, por parte de alguns torcedores e dirigentes, é vista como uma falta de compreensão do verdadeiro impacto social desse mercado.