*Com J. Carlos de Assis
Desde o primeiro dia em que assumiu a Presidência da República em 2019, o objetivo de Jair Bolsonaro era manter-se no poder pela eleição seguinte, ou por um golpe de Estado ou por uma guerra civil. Isso ficaria claro ao longo de seu mandato, quando preparou seus seguidores fanáticos para um conflito extremo, liberando o povo para comprar armas de fogo, inclusive as de grosso calibre, sendo que a maioria delas foi parar nas mãos de traficantes e milicianos, aliados da família no Rio, através de Flávio.

Essa aliança, operada pelo primogênito dos Bolsonaro junto com Cláudio Castro, o bandido transformado em governador, firmou-se no Estado do Rio de Janeiro mediante o domínio absoluto do território fluminense pelo crime organizado, especialmente a capital e seu entorno. Esta foi a genealogia da absoluta desorganização estadual por um governador que sintetizou em si todos os crimes de seus antecessores, somando-se a eles para tornar-se o sétimo afastado por corrupção.

O projeto de eventual uso de força militar pela família para se manter no poder se ancorou na tolerância com traficantes, milicianos, políticos corruptos ou oportunistas e evangélicos fanáticos ou ingênuos. Isso ficou muito claro quando o Presidente passou a expedir, em sequência, seis decretos de liberação pelo Exército de importação em larga escala de armamento pesado para civis. Mas a sociedade, embora advertida por alguns jornais, não se deu conta disso como uma ameaça militar à democracia.

À vista do 8 de janeiro, e vendo as recentes apreensões de milhares de fuzis e armas de grosso calibre pela Polícia Federal e demais polícias em outras capitais, não tenho dúvida de que Bolsonaro se preparava para uma guerra civil com a intenção de perpetuar-se na Presidência. Isso só não se consumou diante da firme oposição a aderirem ao golpe do comandante do Exército, General Freire Gomes, e do comandante da Aeronáutica, Tenente Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior.

Já o comandante da Marinha, almirante de esquadra Almir Garnier Santos, foi o único dos três que reagiu à proposta de golpe de Bolsonaro com um comportamento que ele esperava de todas as Forças Armadas. O plano do Presidente era juntar milhares de cidadãs e cidadãos em manifestações de rua em frente aos quartéis para mobilizá-los para o golpe com cobertura militar. Deu errado. Se tivesse dado certo, qualquer eventual oposição seria esmagada pela união das Forças Armadas com o povo.

Minha convicção decorre da “política de armamentismo” do ex-presidente, facilitando amplamente a entrada no País, para civis, de armas capazes de abater até helicópteros, sem falar nos drones, e de sua retórica reiterada, mesmo enquanto deputado federal, de que o Brasil deveria passar por uma limpeza política radical mediante a eliminação física de comunistas e esquerdistas. Ele chegou a dar até mesmo o número dos que deveriam ser mortos: “uns 30 mil”. Não é fake. Ouvi isso da boca dele!

Uma importante razão para que o ex-presidente sonhasse com o golpe é que ele e a família estavam e continuam surfando na onda do extremismo de direita e de extrema direita que vem crescendo em todo o mundo, o que lhe daria uma base internacional de suporte para aventuras ditatoriais e de autoritarismo, mesmo com guerra. A expectativa de contar com o apoio de Trump, que acabou se confirmando, reforçou sua aposta numa solução violenta para as divisões políticas no Brasil.

Sem limites éticos ou morais, Bolsonaro não se questionou sobre o fato de que, armando o povo comum, inclusive com armas de guerra, e a um ritmo sem precedentes em nossa História, ele estava armando também bandidos, como o Peixão da comunidade da Maré, no Rio. Contudo, isso deveria ser a intenção dele, já que, na hipótese de uma guerra civil, poderia contar com o apoio das milícias, do tráfico e do crime organizado, que já se encontravam articulados com a classe política como constatado pela PF.

Creio que as investigações sobre o que aconteceu nos meios próximos de Bolsonaro “antes do 8 de janeiro” deveriam ser aprofundadas. Ao longo do julgamento dos principais golpistas, a ministra Carmen Lúcia, do STF, insistiu na necessidade de verificar esse ponto, pois “nenhum golpe de Estado é improvisado”, disse ela. Sempre há preparação. E talvez na busca dessa preparação se encontre a chave para descobrir a motivação dos golpistas para a eventualidade da guerra civil.

É importante destacar essa questão porque a condenação de Bolsonaro à cadeia não elimina o risco de golpe de Estado e de guerra civil no País. A Sociedade está muito dividida. As condições de vida objetivas para o povo, principalmente para os pobres e mais vulneráveis, é o campo fértil para que o nazismo e o fascismo sejam nele plantados, como aconteceu na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini. Aqui não é diferente, pois a política macroeconômica de Haddad piorou a vida de muitos.

Por aí se vê que as questões econômicas, políticas e militares estão profundamente interligadas através da influência recíproca na realidade social. Pessoas muito pobres são particularmente vulneráveis às pregações demagógicas do nazi fascismo. As classes médias não ficam muito atrás quando começam a perder renda. Só os ricos e muito ricos aproveitam a condição de “sócios” do Estado para manter e expandir seus privilégios, inclusive através da política de juros elevados.

O principal indicador da aliança espúria dos muito ricos com a tecnocracia estatal é a subordinação dessa última aos comandos da Faria Lima para que não se toque nas bases fiscais e monetárias da política macroeconômica. Com isso, mediante o estrangulamento do Estado Social, o Governo garante ao sistema financeiro o pagamento integral do serviço da Dívida Pública, atualmente de mais de R$ 1 trilhão por ano, que exige a virtual privatização do Estado Social por meio de OS.

Essa sangria ininterrupta, e aparentemente sem cura, continuará de forma crescente até exaurir completamente o sangue do povo pobre e desiludido, que inevitavelmente se colocará numa posição de revolta contra o Governo, instigado pelos fascistas do grupo de Bolsonaro. Esses deverão entrar em ação com ou sem a presença pessoal do ex-presidente, o qual, embora na cadeia, será ajudado pelas circunstâncias e pela traição ao Brasil do primogênito, candidato à Presidência.

Lembrem-se: o Aiatolá Khomeini comandou, da França, com as arcaicas fitas cassetes, uma revolução no Irã. Bolsonaro, mesmo condenado, mas contando com a cumplicidade do resto da família e os recursos das oligarquias internas e externos que o protegem, não precisará de sair do Brasil nem da cadeia para se apresentar à imaginação das populações empobrecidas como o salvador da Pátria, como mito, ou como vítima dos esquerdistas, dos comunistas e do Supremo Tribunal Federal!

É importante que a sociedade seja advertida para o fato de que o Poder da República não pode ser entregue a uma família de sanguinários. Também não a uma figura aparentemente tão inocente, como Augusto Cury, cujo discurso político é acabar com a polarização no Brasil. Isso é hipocrisia. Puro cinismo. Ao mesmo tempo em que fala em acabar com a polarização, ele se declara de direita. E de fato é de direita, de acordo com os principais conceitos que exprime em sua campanha.

Essa questão de conciliar coração e mente é pura enganação. Não existe isso nem em biologia, nem em política. Psiquiatras são gente esperta. Eles sabem como manipular pessoas. Este é o segredo da rápida ascensão de Cury na campanha eleitoral. Quando você espreme o que ele diz, não sai nada de substancial. Não passa de um aventureiro que viu na degradação política e social do País uma oportunidade de aparecer como salvador da Pátria. Só vai nessa onda quem quer se deixar enganar.