Por que votar em Lula?

A pergunta parece simples. E talvez seja justamente por isso que mereça uma resposta que não seja simplista.

Não voto em Lula porque acredito em homens providenciais e messiânicos. Não acredito em salvadores da pátria, nem naqueles que usam o nome de Deus em vão. Democracia não se constrói com salvadores da pátria, mas com instituições, escolhas, erros, acertos, limites e, sobretudo, com memória.

Voto em Lula porque vejo nele uma identidade que poucos políticos brasileiros conseguiram construir com o povo. E identidade não é apenas origem. É história.

Lula nasceu pobre, trabalhou como metalúrgico, tornou-se dirigente sindical, enfrentou a ditadura, participou das grandes mobilizações operárias do final dos anos 1970 e ajudou a fundar, ao lado de Jacó Bittar, o Partido dos Trabalhadores. Essa trajetória não é uma narrativa inventada depois da política: faz parte da história brasileira, apesar do vil esforço que um tal de Brasil Paralelo faz para reescrever a História.

Mas há algo além da biografia.

Há a maneira como Lula se reconhece – e é reconhecido – dentro de uma parte significativa do Brasil.

Um estudo publicado em 2024 na revista Policromias, da UFRJ, analisa justamente essa relação entre Lula e o povo brasileiro. O pesquisador Lucas Nascimento observa, a partir de imagens e discursos políticos, como o corpo de Lula aparece simbolicamente associado ao corpo do povo, às multidões, às lutas sociais e à memória democrática brasileira.

Trata-se, é verdade, de uma leitura acadêmica, mas basta olhar para algumas imagens para compreender o que ela procura dizer.

Em 1979, Lula está em cima de uma mesa, no meio de milhares de trabalhadores, usando um megafone. Não há palanque sofisticado. Não há cenário produzido por marqueteiro. Há um homem falando com outros homens e mulheres, seus iguais.

Décadas depois, em 1º de janeiro de 2023, ele sobe a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de representantes da diversidade brasileira.

Entre uma imagem e outra, passaram-se mais de quarenta anos. Mudaram o país, a política, a tecnologia, os partidos, os costumes. Mas permanece uma coisa: a presença do povo.

E talvez seja essa a razão mais profunda pela qual voto em Lula. Porque acredito que a política não deve ser feita apenas para o povo. Deve ser feita com o povo.

Lula conhece o Brasil não apenas pelos relatórios de governo, pelas planilhas econômicas ou pelos discursos preparados por assessores. Ele conhece o Brasil pela própria experiência; conhece o trabalho e o trabalhador que precisa do salário para sobreviver; conhece a família que espera pelo emprego; conhece a mãe que quer colocar comida na mesa; conhece o jovem que deseja estudar; conhece aquele brasileiro que, durante muito tempo, simplesmente não apareceu nas fotografias do poder.

Isso não significa que Lula tenha acertado sempre, seria infantil e não verdadeiro dizer isso.

Governos erram. Políticos erram. Presidentes erram. Pessoas erram.

Lula também errou, mas há uma diferença importante entre reconhecer erros e apagar uma trajetória inteira.

Eu não quero votar apenas no Lula que foi presidente três vezes; quero votar também no Lula que ajudou a reconstruir a democracia brasileira; no Lula que chegou à Presidência depois de ter sido operário e sindicalista e fundar um partido social-democrata; no Lula que, depois de perder eleições, voltou a disputar; no Lula que conheceu a derrota e não abandonou a política; no Lula que voltou ao poder pelo voto popular em 2022, numa eleição apertada, na qual recebeu 60.341.333 votos.

E há algo que considero ainda mais importante: voto em Lula porque acredito na ideia de que o Brasil pode ser um país para todos; soberano, um lugar de paz. 

Pode parecer uma frase repetida, mas não é.

Num país marcado por desigualdades profundas, dizer que o Estado deve enxergar todos não é retórica. É uma escolha política, é decidir que a pobreza não deve ser destino; que a fome não pode ser naturalizada; que o filho do trabalhador também deve poder chegar à universidade; que negros, mulheres, indígenas, pessoas com deficiência, trabalhadores, pequenos empresários e tantos outros brasileiros não podem ser tratados como cidadãos de segunda classe.

É nisso que penso quando leio a análise de Lucas Nascimento sobre Lula e a diversidade brasileira: a reconstrução aparece associada à memória democrática, aos direitos humanos, à inclusão e à ideia de que o Estado deve reconhecer a dignidade de diferentes grupos sociais.

Mas existe ainda uma razão pessoal, talvez a mais importante: eu voto em Lula porque acredito que política também é memória e quem perde a memória perde a capacidade de compreender o presente.

Eu me lembro do Brasil que saiu da ditadura, não tinha SUS, não tinha educação universalizada, não tinha: Fies; Pronatec; Prouni; Ciência sem Fronteiras; Mais Médicos; Farmácia Popular; Minha Casa, Minha Vida; Bolsa Família; Cisternas no sertão; Luz para Todos; Transposição do Rio São Francisco; Reativação do Transporte Ferroviário; Ferrovia Norte-Sul; Ferrovia Transnordestina; Aumento do salário mínimo acima da inflação; Água para todos; Brasil Sorridente; Pronaf; FAT; Programa Brasil Sem Miséria; Bolsa Atleta; Bolsa Estiagem; Bolsa Verde; Bolsa-escola; Brasil Carinhoso; Pontos de Cultura; Programa Biodiesel; SAMU/UPAS; Saúde da Família; FGEDUC (Seguro do FIES); Casa da Mulher Brasileira; Aprendiz na Micro e Pequena Empresa; MEI Microempreendedores Individuais; Pagamento da Dívida Externa ao FMI; Empréstimo ao FMI; BRICS; Retirada pela ONU do Brasil do Mapa da Fome; Reequipagem, Valorização e Autonomia da Polícia Federal; Liberdade para a PGR; Liberdade para o MP; Escolha para os órgãos da Justiça dos primeiros das listas das corporações; Jogos Pan-americanos; Copa do Mundo; Olimpíadas; 98 conferências nacionais de 43 áreas, como educação, juventude, saúde, cidades, mulheres, comunicação, direitos LGBT, entre outras; Orçamento para a Cultura cresceu de R$ 276,4 milhões em 2002 para R$ 3,27 bilhões em 2014; Vale-cultura; Programa Cultura Viva; Programa Mais Cultura nas Escolas; PND – Política Nacional de Defesa – Investimentos em defesa cresceram dez vezes: de R$ 900 milhões em 2003 para R$ 8,9 bilhões em 2013; Participação das FFAA em 11 missões militares de paz da ONU; Projeto Submarino Nuclear; Modernização da frota de aeronaves da FAB com transferência da tecnologia; Pré-sal; Redução de 79% do desmatamento da Amazônia brasileira; Aumento em mais de 50% da extensão total de área florestal protegida; Liderança mundial em redução de emissão de gases de efeito estufa (GEE). Entre 2010 e 2013, o Brasil deixou de lançar na atmosfera uma média de 650 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano; Valorização do polo naval; Refinaria Abreu e Lima; Novas usinas hidrelétricas: Teles Pires, Belo Monte, São Manoel, Santo Antônio, Jirau, São Luiz do Tapajós; Conferência Mundial Rio+20; PPP; PAC; Aumento exponencial do parque eólico brasileiro; Polos de desenvolvimento NE: Suape PE, Pecém CE e Camaçari BA: Investimentos somam cerca de R$ 100 bilhões; Faculdades em muitos municípios do Brasil; UNILAB; construção e contratação de 8.787 creches e pré-escolas, com investimentos de R$ 10 bilhões, beneficiando 4.178 municípios; Implantou o FUNDEB aprovado sem veto; Aprovou o PNE sem veto; criou 18 novas universidades federais e 173 campus universitários; Financiou o Projeto Leitura e Escrita na Educação Infantil; Isenção do imposto de renda a quem ganha até 5 mil/mês.

E nem vou citar os excelentes indicadores macroeconômicos. 

Lembro-me de como era difícil falar em democracia quando democracia ainda era uma promessa.

Lembro-me de trabalhadores organizados, de estudantes, de intelectuais, de sindicalistas, de gente comum ocupando as ruas para dizer que o país precisava voltar a pertencer aos brasileiros.

E vejo Lula como parte dessa história, não como dono dela ou o principal protagonista, um dos protagonistas e nem como dono dela, mas parte dela.

É por isso que, para mim, votar em Lula não é apenas escolher um candidato, é fazer uma escolha sobre o país que desejo deixar para minhas netas, Isabela, a Lalá, e a Clarice, segundo a Lalá a Claricinha.

Quero um país democrático, um país em que adversário político não seja inimigo, um país em que a divergência seja normal, com instituições fortes, com liberdade e desenvolvimento com inclusão.

Quero que meus filhos e minhas netas encontrem um Brasil melhor do que aquele que recebemos.

E acredito que Lula, com todos os seus limites e contradições – porque nenhum homem público está acima delas – representa hoje uma determinada concepção de Brasil com a qual me identifico.

Um Brasil que não tenha vergonha do seu povo; que que não considere pobreza uma culpa; que não trate trabalhador como estatística e que compreenda que democracia não é apenas votar, é também garantir dignidade.

Talvez seja isso que explique a força da relação entre Lula e parte do povo brasileiro.

Não se trata apenas de política, há memória, identificação, afeto, reconhecimento. Uma história compartilhada.

E é justamente por isso que, quando me perguntam por que votar em Lula, minha resposta é menos complicada do que parece:

Voto pela sua identidade com o povo brasileiro.

Voto pela sua história pessoal.

Voto pela sua história de defesa da redemocratização.

Voto porque conhece o Brasil de dentro — e não apenas pelos mapas dos gabinetes.

Voto porque acredito no seu compromisso com a democracia.

E, sobretudo, voto porque ainda acredito que podemos oferecer às próximas gerações um projeto de nação que não seja de poucos.

Um projeto de país para todos.

No fundo, é isso: eu não voto apenas em Lula.

Voto na possibilidade de um Brasil em que o povo brasileiro finalmente se reconheça no espelho do poder.

Essas são as reflexões e o convite.