247 – Quem trafega pelas rodovias brasileiras nos últimos meses pode estar pisando em um asfalto diferente do convencional no que diz respeito à sua composição. Desde o ano passado, a Petrobras deu início à produção de cimento asfáltico de petróleo (CAP) com conteúdo renovável, inserindo um subproduto proveniente das agroindústrias de milho no processo de fabricação. A novidade começou a ser implementada na refinaria de São José dos Campos (SP), a Revap, onde o resíduo passou a atuar como diluente na produção asfáltica, substituindo os derivados minerais de origem fóssil, informa reportagem do jornal O Globo.

O insumo utilizado pela estatal é o óleo técnico de milho, conhecido pela sigla TCO. O produto é um subproduto direto da fermentação e do processamento do cereal nas usinas voltadas à fabricação de etanol a partir do grão. Ao contrário do óleo de milho destinado ao consumo alimentício, o TCO possui um elevado índice de acidez. É exatamente essa característica química que possibilita a substituição dos diluentes fósseis na fabricação do asfalto.

A aplicação do componente é estratégica para a qualidade do material viário. Conforme explicou a gerente de Planejamento de Marketing e Inteligência de Mercado da Petrobras, Carolina Oliveira, os diluentes desempenham um papel fundamental na produção do cimento asfáltico, pois servem para reduzir a viscosidade e aumentar a capacidade de penetração do produto nas superfícies.

Até o momento, a Petrobras já produziu 95 mil toneladas do CAP renovável. Esse volume acumulado seria suficiente para pavimentar a extensão viária equivalente ao trajeto de ida e volta entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Embora o projeto represente um avanço na transição e sustentabilidade dos processos, a matéria-prima renovável ainda responde por uma fração modesta da produção total da empresa, oscilando atualmente entre 1% e 2% dos insumos utilizados.

A escolha do resíduo do milho deu-se pelo fato de o mercado do insumo oferecer garantias de oferta elevada e previsibilidade contínua. A disponibilidade do TCO tem crescido de forma expressiva acompanhando a rápida expansão do parque industrial de etanol de milho no Brasil. Impulsionada principalmente pela instalação de plantas no Centro-Oeste para aproveitar o excesso de oferta do grão, a capacidade da indústria de etanol de milho no país disparou 7.121% em dez anos, de acordo com dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem). Em termos de rendimento, cada tonelada de milho processada gera cerca de 18 quilos de TCO.

“O TCO está em um bom momento de oferta, complementar ao etanol de milho”, afirmou Carolina Oliveira, da Petrobras. Para viabilizar a operação, a estatal fechou contrato de fornecimento com a Inpasa, reconhecida como a maior produtora de etanol de milho do país. A maior oferta tornou o insumo altamente competitivo perante alternativas como o óleo de soja, sendo negociado em torno de R$ 6,5 mil por tonelada.

A garantia do suprimento em grande escala é o principal diferencial do produto. De acordo com Rafael Verruck, diretor de Negociações de Óleo e Grãos Secos de Destilaria da Inpasa, a empresa está construindo duas novas usinas e expandindo uma terceira unidade. Com os investimentos, a companhia projeta ampliar sua capacidade total de produção de TCO das atuais 340 mil toneladas para 450 mil toneladas até o ano de 2027. Além de servir para a produção de asfalto, o TCO possui demanda crescente em indústrias voltadas à fabricação de biodiesel, diesel verde e combustível sustentável de aviação.