Se você achou que estava chovendo demais, não era impressão. Londrina ultrapassou em 13 dias a média histórica de outubro, acumulando 220,6 milímetros quando o esperado para o mês inteiro seria 171,6 milímetros. Só na terça-feira passada caíram 88 milímetros de uma vez. Para quem não fala meteorologês: foi muita água do céu de uma vez só, e o resultado está aí para quem quiser ver — ou melhor, para quem não tem como não ver.
A chuva que enche o Lago Igapó também enche bueiro, derruba árvore, arranca telhado e deixa rua intransitável. Em Jataizinho, o rio Tibagi subiu dois metros, enquanto em Ibiporã a Estrada da Jacutinga ficou interditada por alagamento. Aqui em Londrina, a Defesa Civil registrou 368 ocorrências entre agosto e o início deste mês — um salto de 525% em relação ao ano passado. Foram 150 destelhamentos e 214 quedas de árvores. Não é pouca coisa.
O El Niño não perdoa, mas a prefeitura precisa se planejar
A explicação técnica está no El Niño, que esquenta o Pacífico e joga umidade para cá. Tudo bem, a gente entende. Mas setembro já tinha sido o mês mais chuvoso desde 1997, com 255 milímetros — 150% acima da média. Ou seja: isso não pegou ninguém de surpresa. A prefeitura até montou um grupo para planejar ações contra os efeitos do fenômeno climático, mas na prática o que se vê é obra atrasada, rua esburacada e gente esperando o temporal passar para poder sair de casa.
Não dá para culpar só o tempo. Dá para cobrar manutenção preventiva, limpeza de bueiro, poda de árvore, drenagem que funcione. A chuva vai continuar caindo — e se a cidade não estiver preparada, quem paga a conta somos nós, com prejuízo, atraso e risco.
Enquanto isso, a vida segue (ou tenta)
No meio do dilúvio, a rotina segue. Tem gente sendo presa por dirigir bêbada na PR-445 — três só num fim de semana, dois sem CNH. Tem pai furtando chocolate no supermercado para dar de presente para os filhos, mesmo tendo dinheiro no bolso. Tem padrasto agredindo criança de quatro anos. Tem gente se preparando para Finados, correndo para reformar túmulo antes do prazo da Acesf.
E tem gestante deixando de tomar vacina contra gripe e covid, mesmo com os números mostrando que a hesitação vacinal mata: 25 mortes por gripe e 21 por covid entre grávidas e puérperas desde 2022. A cobertura está em 55% para covid e 76% para gripe, longe dos 90% de meta. É desinformação, é medo infundado, é descaso — e o resultado é tragédia evitável.
Londrina é resiliente, todo mundo sabe. Mas resiliência não pode virar desculpa para falta de planejamento. A chuva de outubro deixou claro: ou a gente se prepara melhor, ou vai continuar correndo atrás do prejuízo — literalmente, com a água batendo no joelho.
A coluna Pé Vermelho sai todo domingo na seção Londrina do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.







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