“Não estamos alegres, é certo,/mas também por que razão/haveríamos de ficar tristes?/O mar da história/é agitado”

Os versos de Maiakovski, citados por Dilma Rousseff por ocasião do seu impeachment, por muito tempo ecoam em nossos ouvidos, repercutindo ainda hoje. Atualizam-se agora no limiar de nova tentativa de violação do sistema democrático em vigor, a partir das iniciativas de André Mendonça no seu esforço de desmoralizar o Supremo. Este, desde que se firmaram os ensinamentos de Montesquieu, em O espírito das leis, se ergue em nossa sociedade como o alicerce da estrutura legal; portanto, como guardião da ordem constituída. Arruiná-lo significa abrir espaço para golpes e medidas de força.

Graças ao STF e a Alexandre de Moraes derrotamos, em 8 de janeiro de 2023, as conspirações desencadeadas por Jair Bolsonaro e seus cúmplices, hoje, como se sabe, na cadeia. Não espanta que os saudosistas do antigo regime (aí se incluindo até a ditadura militar) permaneçam em alerta à espera de oportunidades de reunir adeptos e tentar novamente. Nas mãos de André Mendonça a trama consistiu no recurso de colocar o colega Moraes sob o foco de investigações por possíveis deslizes. Não deu certo. As suspeitas de negócios espúrios com Daniel Vorcaro ricochetearam e, como bumerangues, voltaram-se contra o denunciante. O terrivelmente evangélico, viemos a tomar conhecimento, além de antiético, possui empreendimento ligado a contratos sem licitação, além de encontros com o banqueiro para tratativas não confessáveis. Como adverte o ditado, quem tem telhado de vidro não joga pedra no do vizinho. O de Mendonça se desfez em mil pedaços.

O que se insinuava como grave, quase tragédia, rapidamente se transformou em farsa. O malicioso relator retinha processos, os do 01, e agilizava, a seu critério, os que o favoreciam. A opinião pública, de início atônita, recuperou o fôlego. De uma forma ou de outra, desde a proclamação da República, nos habituamos a sucessões de tentativas de golpe, umas consumadas, outras não. Cansamos de dormir num regime e despertar em outro, de bandidos e torturadores. Verificar que um dos candidatos se vende a potências estrangeiras e comemora quando a nação se prejudica já nos provoca náuseas.

Que o Supremo resista aos ataques da direita mostra-se tranquilizador. Prova que, em meio às ondas agitadas do mar da história, ainda nos equilibramos. Constitucionalistas reunidos em nossas instâncias de julgamento zelam por nós. Traidores, à espreita, não ignoram que as ações pagam um preço, o bastante para que ponham as barbas de molho. Se visavam nos enfraquecer nas eleições, não conseguiram. Continuamos vigilantes.