Quando a direita percebe que seu nome ficou contaminado, troca a farda, tira ou bota a gravata, suaviza o vocabulário e aparece dizendo que não é de direita nem de esquerda. Não fala em luta de classes. Fala em pacificação. Não fala em conflito entre capital e trabalho. Fala em empreendedorismo. Não promete exatamente desmontar o Estado. Promete torná-lo mais “eficiente”. Não anuncia submissão internacional. Fala em “boas relações” com todos.

É nesse terreno pantanoso que surge Augusto Cury. Ele apresenta-se como a alternativa à polarização, como se a política pudesse ser retirada da história, da economia e dos conflitos sociais e transformada numa espécie de sessão coletiva de terapia: vamos todos respirar fundo, abandonar os extremos e administrar o país com inteligência. Só que governar não é fazer terapia de grupo.

Não existe neutralidade quando se discute Estado, trabalho, tributação, capital, propriedade, juros, infraestrutura, BNDES, relações internacionais e distribuição de renda.

Quando Cury fala em reduzir ministérios, cortar estruturas administrativas, aumentar a eficiência do funcionalismo, estimular maciçamente o empreendedorismo e criar uma rede nacional de escolas voltadas à formação empresarial, ele está fazendo escolhas políticas. Seu programa coloca empreendedorismo e inclusão produtiva no centro da resposta à pobreza.

Transformar o trabalhador em empreendedor não é libertá-lo. É simplesmente mudar o nome da precarização. O entregador deixa de ser trabalhador e passa a ser “empreendedor”. O motorista deixa de ser trabalhador e passa a ser “parceiro”. O sujeito que trabalha dez ou doze horas por dia sem férias, sem estabilidade e sem proteção previdenciária recebe um CNPJ e ganha uma palestra sobre inteligência emocional.

É a velha operação ideológica do capitalismo contemporâneo: ele diz ao trabalhador que ele é empresário. Cury defende a jornada 5×2 e rejeita uma nova reforma da Previdência e se apresenta como uma direita econômica civilizada, terapêutica, tecnológica e sem gritos. A terceira via brasileira nunca chega dizendo: “sou a direita”. Ela chega dizendo: “sou a alternativa à esquerda e à direita.” E esse truque semântico merece ser desmontado.

Veja-se a política externa. Cury afirma que pretende manter boas relações tanto com Estados Unidos quanto com China e rejeita uma relação “subserviente” com Washington. Isso é diferente do alinhamento automático aos EUA. Mas sua formulação também revela uma visão essencialmente pragmática e comercial das relações internacionais: ampliar relações, vender o Brasil, atrair oportunidades e negociar com todos. Nada de errado em negociar com Washington. Nada de errado em negociar com Pequim. A questão é outra: negociar com todos significa ter projeto próprio ou simplesmente escolher os melhores compradores para o Brasil?

Uma política externa soberana não pode ser apenas uma política comercial com boas maneiras. Ela precisa dizer o que o Brasil quer ser no mundo.

Queremos uma economia subordinada às cadeias internacionais de valor ou queremos dominar tecnologias estratégicas? Queremos apenas vender soja, minério, petróleo e alimentos ou queremos agregar valor? Queremos importar tecnologia ou desenvolver tecnologia? Queremos ser mercado consumidor das grandes potências ou potência industrial, científica e tecnológica? É aí que a palavra “neutralidade” começa a revelar sua pobreza. Porque entre um Brasil soberano e um Brasil subordinado existe uma escolha política. E entre capital e trabalho também.

Cury fala em empreendedorismo, produtividade, inteligência artificial, robótica e modernização. Defende inclusive a utilização de tecnologia para elevar a produtividade das empresas e enfrentar os efeitos do envelhecimento populacional. Mas existe uma pergunta que ninguém deveria permitir que desaparecesse atrás da palavra “inovação”: quem fica com o aumento da produtividade? Se uma fábrica dobra sua produtividade com inteligência artificial, quem recebe o ganho? O trabalhador? O consumidor? O Estado? Ou somente o acionista?

Essa é a pergunta que separa uma política econômica progressista de uma simples administração moderna do capitalismo.

É preciso prestar atenção no discurso de Cury. Ele está alinhado com demandas atuais, embora não apresse te respostas viáveis. O jovem quer emprego. Quer dinheiro. Quer casa. Quer viajar. Quer consumir. Quer segurança. Quer autonomia. Quer tecnologia. Quer tempo livre. Quer perspectiva. Não podemos responder a isso apenas dizendo que criamos o Bolsa Família, o ProUni e o Luz para Todos. Embora estejamos dizendo coisas verdadeiras, ainda assim, poderemos perder a disputa pelo futuro por estar alinhando a nossa comunicação a realizações passadas. É preciso apresentar uma visão concreta de futuro para uma juventude submetida à precarização.

É aí que Augusto Cury cresce com seu discurso: “Vocês estão cansados da briga. Eu não sou da esquerda. Não sou da direita. Sou equilibrado. Sou médico. Sou escritor. Entendo de comportamento humano. Entendo de educação. Entendo de tecnologia. Vou pacificar o país.”

É uma narrativa que não é neutra porque, quando chega à economia, aparece uma concepção muito clara: empreendedorismo, eficiência administrativa, modernização tecnológica, redução de estruturas estatais, parcerias com o setor privado e crédito empresarial.

Cury propõe inclusive dividir o BNDES, criando estruturas diferenciadas para grandes empresas e microempresas. O problema não é existir crédito para empresas. O problema é imaginar que o desenvolvimento nacional nasce espontaneamente da soma de empreendedores individuais, sem a indução do Estado, como se desenvolvimento fosse simplesmente uma questão de transformar milhões de brasileiros em pequenos empresários. Não é.

País desenvolvido não chegou lá porque ensinou todo mundo a abrir uma empresa. Chegou lá porque construiu indústria, ciência, infraestrutura, universidades, bancos públicos, empresas nacionais, tecnologia, mercado interno e capacidade estratégica.

Cury não é Flávio, mas existem áreas em que os dois se aproximam muito mais do que a embalagem política de Cury deixa perceber: ambos valorizam a “eficiência fiscal”, o empreendedorismo, a participação privada e mecanismos de parceria entre Estado e mercado. No caso de Flávio, seu plano econômico é explicitamente estruturado em torno de corte de gastos e uma agenda liberal de reorganização do Estado.

A diferença fundamental está também no método e no discurso. Flávio chega com a identidade da extrema-direita. Cury chega dizendo que não existe direita nem esquerda suficientemente boas para ele. E essa talvez seja sua maior força eleitoral. A “terceira via” não precisa abolir a direita. Ela precisa apenas esconder a direita dentro de uma linguagem socialmente mais aceitável. É a direita sem Bolsonaro. A direita sem camiseta verde-amarela. A direita sem palavrão. A direita sem guerra cultural permanente. A direita que fala em saúde mental. A direita que fala em inteligência artificial. A direita que fala em pacificação. A direita que fala em empreendedorismo. A direita que fala em produtividade. A direita que fala em eficiência. Uma direita que não precisa dizer “privatização” o tempo inteiro porque aprendeu que o mercado pode entrar no Estado pela porta elegante das PPPs, concessões, contratos, terceirizações, fundos e parcerias.

A terceira via costuma aparecer justamente quando a direita percebe que precisa se desideologizar para voltar a vencer. Então ela troca a ideologia pelo vocabulário técnico. Troca o conflito social pela gestão. Troca a política pela psicologia. Troca a classe pelo indivíduo. Troca o trabalhador pelo empreendedor. Troca o Estado pelo gestor. E troca a soberania nacional por “boas relações comerciais”, ou seja, por subserviência e alinhamento automático.

Cury, e figuras como ele, se apresentam como uma forma mais palatável, menos agressiva e socialmente mais aceitável de centro-direita. E talvez seja exatamente por isso que a esquerda deveria levá-lo mais a sério. Porque o maior erro seria deixar Cury ocupar sozinho o território da esperança, da modernidade, da inteligência artificial, da inovação, da juventude e do futuro.

Se existe inteligência artificial, a pergunta progressista deve ser: IA para enriquecer quem? Se existe robótica: robótica para libertar o trabalhador ou para substituí-lo e concentrar renda? Se existe empreendedorismo: empreendedorismo como autonomia ou como substituição de direitos trabalhistas? Se existe eficiência do Estado: eficiência para quem? Se existe parceria público-privada: quem assume o risco e quem fica com o lucro? Se existe política externa pragmática: pragmatismo a serviço de qual projeto nacional? Se existe modernização: modernização para distribuir riqueza ou para modernizar a concentração da riqueza?

Essas são as perguntas que deveriam estar sendo feitas. Porque o problema de Cury não é ser “neutro”. O problema é a própria ideia de neutralidade. Na sociedade capitalista, quem diz estar acima da disputa entre capital e trabalho está, consciente ou inconscientemente, administrando a sociedade tal como ela já está estruturada.

Quando alguém diz que está acima da esquerda e da direita, pergunte onde ele pretende colocar o trabalhador.

Depois da inteligência artificial, da pacificação, da saúde mental, da robótica, do empreendedorismo e de todas as palavras bonitas, sobra a pergunta que nenhuma terceira via consegue evitar: quem manda na economia e quem paga a conta?