Há momentos em que uma metáfora literária deixa de ser apenas recurso de estilo e passa a funcionar como instrumento de diagnóstico. Gilead, a república teocrática imaginada por Margaret Atwood em O conto da aia, é uma dessas metáforas. No romance, a erosão democrática não acontece como um raio em céu azul. Ela se constrói pela exploração do medo, pela apropriação política da religião, pelo controle dos corpos, pela supressão da pluralidade e pela conversão de uma determinada interpretação da fé em fundamento absoluto do Estado. Não se trata de sugerir, de maneira simplista, que o Brasil já se tornou Gilead. Trata-se de perguntar quanto de Gilead já foi normalizado entre nós e quanto ainda pode avançar se a sociedade brasileira subestimar a eleição presidencial de 2026.

O título deste artigo parte de uma provocação/distinção deliberada. O Brasil é o país real, contraditório e popular, construído por povos indígenas, negros, trabalhadores, mulheres e a comunidade LGBTQIA+, lado a lado com católicos, evangélicos, adeptos de religiões de matriz africana, espíritas, judeus, muçulmanos, agnósticos e ateus. É o Brasil inscrito, ainda que de modo incompleto, no projeto constitucional de 1988: soberano, plural, democrático e comprometido com a dignidade humana.

O Brazil, por sua vez, é a caricatura colonial destinada à exportação, administrada por elites que confundem privilégio com mérito, submissão com diplomacia e fundamentalismo com moralidade. É o país que se pretende transformar em território subordinado aos interesses de Washington, em plataforma de acumulação para poucos e em laboratório político de uma teocracia de mercado. Como sintetiza a poética de Aldir Blanc na canção Querelas do Brasil, composta com Maurício Tapajós: “O Brasil não merece o Brazil. O Brazil tá matando o Brasil”. 

A eleição de 2026 não pode ser compreendida como disputa rotineira entre dois programas de governo equivalentes. O país chega às urnas depois de ter enfrentado uma campanha sistemática contra o sistema eleitoral, uma tentativa concreta de ruptura institucional e a condenação judicial de dirigentes envolvidos na trama golpista. O fascismo brasileiro não desapareceu com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, tampouco com sua responsabilização penal. Ele se reorganizou, preservou redes digitais, alianças empresariais, púlpitos, mandatos parlamentares e conexões internacionais. Agora procura transferir o capital político do patriarca para Flávio Bolsonaro e apresentar a continuidade dinástica como se fosse renovação democrática.

Essa operação encontra terreno fértil na polarização extrema. Prefiro falar em bipolaridade política não no sentido clínico, que seria inadequado e estigmatizante, mas como descrição de um sistema progressivamente organizado em dois polos que já não compartilham sequer um consenso mínimo sobre democracia, ciência, direitos fundamentais e soberania. De um lado, há um campo amplo, contraditório e por vezes excessivamente conciliador, mas comprometido com a preservação do regime constitucional. De outro, há uma força que aceita o voto enquanto acredita poder vencê-lo, contesta as urnas quando perde, pede anistia para golpistas, procura tutela estrangeira e trata adversários como inimigos a serem eliminados da vida pública.

As pesquisas mais recentes tornam qualquer complacência irresponsável. Levantamento Genial/Quaest divulgado em 7 de setembro de 2026 registrou empate numérico, com 41% para Lula e 41% para Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno. Pesquisa BTG/Nexus publicada no dia seguinte também apontou empate técnico, com 46% para Flávio e 45% para Lula. Pesquisas não são profecias, mas fotografias imperfeitas de um momento. Ainda assim, elas demonstram que a hipótese de retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto não pertence ao domínio da fantasia. O risco é imediato, mensurável e politicamente concreto.

Flávio Bolsonaro não é apenas um candidato conservador. Ele é o herdeiro político de um movimento que transformou a mentira em método, a crueldade em identidade e o ressentimento em programa. Sua candidatura procura normalizar o que deveria permanecer historicamente interditado: a volta ao poder de um grupo associado à tentativa de destruição da ordem democrática. O sobrenome funciona simultaneamente como marca eleitoral, garantia de fidelidade à base radicalizada e promessa de restauração. Por isso, a eleição em risco não é somente a eleição de Lula. Está em risco a própria possibilidade de que futuros conflitos políticos sejam resolvidos dentro das regras democráticas.

O cientista político estadunidense Robert Paxton observa que o fascismo deve ser reconhecido não por uma doutrina perfeitamente coerente, mas por suas práticas de mobilização: a exaltação de uma comunidade nacional supostamente humilhada, a fabricação de inimigos internos e a disposição de sacrificar liberdades democráticas em nome de uma redenção autoritária. Na mesma linha, o escritor italiano Umberto Eco, ao conceituar o “fascismo eterno”, destacou a coexistência entre culto à tradição, medo da diferença, obsessão conspiratória, militarização da linguagem e necessidade permanente de um inimigo comum (ECO, 2018).

No Brasil, esses elementos não se manifestam como mera reprodução mecânica do modelo europeu do século XX. Ao contrário, fundem-se com o racismo estrutural, o patriarcado, o legado escravista, o autoritarismo militar e a mercantilização neopentecostal da fé. O resultado é um fascismo adaptado à periferia do capitalismo: digitalizado, pseudomoralista e profundamente colonial.

O componente colonial dessa ofensiva tornou-se explícito na atuação de setores bolsonaristas junto ao governo dos Estados Unidos. Em 2025, Donald Trump vinculou tarifas extraordinárias contra produtos brasileiros ao julgamento de Jair Bolsonaro. A administração norte-americana também impôs restrições de visto e aplicou sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, posteriormente retiradas. Independentemente das críticas legítimas que possam ser dirigidas às decisões do ministro, utilizar instrumentos econômicos e diplomáticos de uma potência estrangeira para constranger o funcionamento das instituições brasileiras constitui interferência inadmissível na soberania nacional.

O episódio revelou algo maior do que a afinidade ideológica entre as extremas direitas brasileira e norte-americana. Revelou uma concepção de país. Para o bolsonarismo, soberania é palavra de palanque, não princípio. Seus dirigentes vestem a bandeira nacional enquanto negociam no exterior punições contra o próprio Brasil. Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF por coação relacionada às pressões exercidas nos Estados Unidos para interferir no julgamento de seu pai. Em setembro de 2026, voltou a declarar que ele e seus aliados pediram a reativação de sanções contra Moraes. A submissão é apresentada como patriotismo; a sabotagem econômica, como defesa da liberdade; o lobby estrangeiro, como resistência democrática.

É necessário recusar uma armadilha argumentativa. Defender a soberania brasileira não exige transformar o STF em instituição infalível nem interditar a crítica a seus ministros. Democracia sem controle do poder judicial é democracia incompleta. Decisões arbitrárias, conflitos de interesse e violações ao devido processo devem ser denunciados, venham de Alexandre de Moraes, André Mendonça ou de qualquer outro magistrado. Mas uma coisa é exigir responsabilização nos marcos da Constituição. Outra, inteiramente diferente, é convocar uma potência estrangeira para disciplinar o Judiciário brasileiro conforme os interesses eleitorais de uma família política.

A extrema direita internacional atua como rede. Circulam entre seus integrantes técnicas de desinformação, financiamento, consultorias, discursos contra direitos sexuais e reprodutivos, ataques às cortes constitucionais e estratégias para desacreditar eleições. O nacionalismo de seus líderes é, paradoxalmente, transnacional: cada um proclama “seu país acima de tudo”, mas todos se subordinam aos mesmos centros de poder econômico, às mesmas plataformas digitais e à mesma agenda ultraconservadora. A bandeira nacional serve para esconder a internacional do autoritarismo.

Antonio Gramsci descreveu a “guerra de posições” como disputa prolongada pela direção política e cultural da sociedade, travada no interior das instituições e da sociedade civil antes da conquista aberta do poder de Estado. Pode-se afirmar que no Brasil de 2026, essa guerra deixou de ser subterrânea. Ela atravessa o Congresso, os meios de comunicação, as igrejas, as plataformas digitais, as corporações jurídicas e, de maneira cada vez mais explícita, o Supremo Tribunal Federal.

O conflito entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, inflamado pelo afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, extrapolou os limites de uma divergência jurídica convencional.

Ao acolher uma representação do Partido Novo, legenda sem legitimidade processual, conforme bem apontou o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, Mendonça determinou medidas de profundo impacto institucional. A decisão foi prontamente celebrada por Flávio Bolsonaro, Silas Malafaia e outras lideranças da extrema direita. Segundo a agência Reuters, o ato aprofundou a crise no Supremo e já passou a ser explorado como munição eleitoral contra o presidente Lula.

O problema não está em blindar Moraes de qualquer investigação. Se existirem irregularidades, elas devem ser apuradas com independência, transparência e estrita observância do devido processo legal. O que não se pode naturalizar é a conversão do STF em campo de batalha político, no qual decisões judiciais funcionem como jogadas táticas eleitorais. Quando um ministro indicado por Bolsonaro, celebrado desde a nomeação como “terrivelmente evangélico”, adota uma medida processualmente controversa que atinge a cúpula da Polícia Federal e fornece munição imediata à oposição, a sociedade tem o direito e o dever de questionar sua imparcialidade, sua competência e sua finalidade.

O adjetivo usado por Jair Bolsonaro ao anunciar André Mendonça nunca foi ingênuo. A Constituição não prevê cadeiras confessionais no Supremo Tribunal Federal: ministros não representam igrejas, partidos, presidentes que os indicaram nem segmentos eleitorais, devendo lealdade exclusiva à Carta Magna.

A indicação fundada no atributo de ser “terrivelmente evangélico” tentou converter a identidade religiosa em critério de jurisdição constitucional, enviando às bases fundamentalistas a mensagem de que teriam um representante direto na Corte. Essa origem não condena antecipadamente cada decisão do ministro, mas torna imperioso que sua atuação seja exemplarmente laica, técnica e imparcial. Quando ocorre o oposto, a promessa de representação confessional reaparece como uma sombra sobre a toga.

Também seria um erro responder à instrumentalização de Mendonça com adesão acrítica a Moraes. A democracia não será salva por um homem providencial, seja ele magistrado, militar, pastor ou presidente. A hipertrofia individual de ministros, o uso prolongado de inquéritos de desenho excepcional, a opacidade e a personalização das decisões contribuíram para vulnerabilizar institucionalmente o STF. O bolsonarismo agora explora essas vulnerabilidades e tenta substituir a crítica democrática por uma cruzada de destruição. Defender a Corte significa exigir que ela volte a falar por meio de colegialidade, fundamentação, autocontenção e respeito ao sistema acusatório, não por meio de guerras pessoais.

Há, contudo, uma assimetria que não pode ser ocultada pelo confortável discurso de que “os dois lados são iguais”. Moraes pode e deve ser criticado por atos concretos. Já o campo bolsonarista atacou o sistema eleitoral, promoveu acampamentos diante de quartéis, estimulou uma tentativa de golpe, pediu intervenção externa e continua ameaçando as instituições responsáveis por sua responsabilização. Equidistância diante dessa diferença não é imparcialidade. É cegueira política.

Em O conto da aia, Atwood não construiu uma distopia contra a religião. Construiu uma advertência contra a apropriação totalitária da religião. Gilead seleciona trechos bíblicos, reorganiza-os como lei e utiliza a linguagem sagrada para legitimar hierarquia, vigilância e violência. A autora insistiu que não incluiu em sua ficção nenhuma prática sem precedente histórico. Essa é precisamente a força incômoda do romance: o horror não vem de um planeta distante, mas da montagem política de elementos que as sociedades já produziram.

O Brasil é um Estado constitucionalmente laico. A Carta Magna assegura, em seu artigo 5º, inciso VI, a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença; e proíbe, no artigo 19, inciso I, que o Poder Público estabeleça cultos, subvencione igrejas ou mantenha com elas relações de dependência ou aliança, ressalvada a colaboração de interesse público.

A laicidade, contudo, não significa hostilidade à fé. Pelo contrário: é a garantia fundamental que permite a convivência pacífica entre diferentes crenças, assim como assegura o direito de não crer. Em suma, o Estado laico cumpre uma dupla salvaguarda: protege o templo contra a perseguição estatal e preserva o Estado contra a captura pelo templo

É fundamental fazer outra distinção. Os evangélicos não constituem bloco homogêneo. Existem comunidades comprometidas com direitos humanos, justiça social, acolhimento, democracia e combate à fome. Há evangélicos de esquerda, progressistas, antirracistas e defensores da laicidade. A crítica necessária dirige-se ao fundamentalismo político e, em especial, às máquinas de poder que instrumentalizam a fé para produzir obediência eleitoral, acumulação econômica e guerra cultural. Confundir milhões de fiéis com seus empresários religiosos seria intelectualmente falso e politicamente desastroso.

O neopentecostalismo político, contudo, tornou-se um dos aparelhos privados de hegemonia mais eficientes do país. Sua força não decorre apenas do púlpito. Ela envolve redes de rádio e televisão, canais digitais, editoras, gravadoras, empreendimentos, assistência comunitária, bancadas parlamentares e presença territorial cotidiana. Aonde o Estado chega de maneira precária, a igreja frequentemente oferece pertencimento, linguagem, apoio e disciplina. Essa capilaridade responde a necessidades reais. Justamente por isso, sua instrumentalização eleitoral tem poder tão grande. A teologia da prosperidade desempenha papel central nessa engrenagem. Ao associar bênção à vitória material e converter fé em investimento individual, ela traduz para o campo religioso a racionalidade neoliberal. A desigualdade deixa de aparecer como produto de estruturas econômicas e passa a ser interpretada como insuficiência de fé, iniciativa ou mérito. O trabalhador precarizado é convidado a pensar como empresário de si mesmo; o enriquecimento do líder religioso torna-se sinal de eleição divina; a política social é desqualificada como dependência; a solidariedade coletiva cede lugar à promessa individual de ascensão.

Pesquisadores mostram que o crescimento neopentecostal se relaciona tanto com a expansão da sociedade de consumo quanto com a incapacidade do Estado e de organizações civis de enfrentar a marginalização e oferecer capitais simbólicos democráticos aos setores vulneráveis. Outros estudos destacam que o refluxo das Comunidades Eclesiais de Base e do cristianismo de libertação abriu espaço para formas religiosas associadas à teologia da prosperidade e a um ethos empresarial. Isso não autoriza tratar fiéis como massa manipulada e destituída de consciência. Obriga-nos, ao contrário, a compreender por que a extrema-direita foi capaz de oferecer comunidade, narrativa e esperança em territórios que a esquerda institucional muitas vezes passou a visitar apenas durante campanhas.

Gilead começa a ganhar materialidade quando uma interpretação religiosa procura definir quais famílias merecem reconhecimento, quais mulheres podem decidir sobre o próprio corpo, quais identidades devem ser silenciadas, quais livros podem circular e quais religiões são toleradas. Para as tradições de matriz africana, essa ameaça nunca foi abstrata. Terreiros incendiados, símbolos destruídos e praticantes perseguidos demonstram que a teocracia não precisa controlar formalmente todo o Estado para produzir terror localizado. Ela avança por leis municipais, currículos escolares, conselhos tutelares, políticas de saúde, delegacias, redes digitais e constrangimentos cotidianos.

O fundamentalismo brasileiro também se articula ao fascismo porque ambos necessitam fabricar inimigos. A mulher feminista, as pessoas trans, o professor, o artista, o militante negro, o indígena, o adepto do candomblé e o comunista imaginário são reunidos sob o rótulo de ameaça à família e à nação. Essa operação simplifica conflitos sociais complexos, desloca a indignação contra a desigualdade para grupos vulneráveis e preserva os verdadeiros beneficiários da concentração de renda. Enquanto o fiel luta contra um fantasma moral, o grande capital continua acumulando patrimônio e capturando o orçamento público.

A defesa da democracia não pode se limitar à denúncia do horror. O medo mobiliza por algum tempo, mas não constrói sozinho maioria social. É preciso demonstrar, em linguagem concreta, porque a democracia melhora a vida e porque um governo de esquerda deve ser julgado também pela capacidade de ampliar direitos, renda, trabalho, alimentação, educação, saúde e esperança.

O governo Lula possui contradições, limites e concessões que precisam ser discutidos sem parcialidade. A política fiscal restringe investimentos; os juros continuam asfixiando famílias, pequenos negócios e a capacidade de desenvolvimento; a violência policial permanece estrutural; a reforma agrária avança abaixo da necessidade histórica; e a composição conservadora do Congresso impõe negociações que frequentemente desidratam políticas transformadoras. Uma esquerda responsável não troca crítica por culto à personalidade.

Mas tampouco pode permitir que o debate público apague resultados concretos. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da FAO, mantendo abaixo de 2,5% a proporção de pessoas em situação de subalimentação no triênio de 2022 a 2024. O PIB cresceu 2,3% em 2025, depois de altas registradas nos anos anteriores, e chegou a R$ 12,7 trilhões. Esses indicadores não eliminam a desigualdade nem o sofrimento cotidiano, mas demonstram que políticas públicas, emprego, valorização da renda e proteção social produzem efeitos reais.

O desafio político é traduzir números em experiência. Sair do Mapa da Fome significa uma criança que volta a aprender porque comeu. Aumento da renda significa uma família que consegue comprar gás sem retirar alimento da mesa. Emprego significa alguma possibilidade de planejamento em meio à precariedade. Investimento em universidades significa que o filho da trabalhadora pode imaginar um futuro antes reservado aos herdeiros. Democracia precisa ser narrada a partir dessas vidas, não apenas de abstrações institucionais.

Lula compreende como poucos essa linguagem, mas seu governo nem sempre consegue organizá-la em uma pedagogia política coerente. A extrema direita ocupa o cotidiano com vídeos curtos, pastores, influenciadores e afetos negativos. O campo democrático frequentemente responde com notas técnicas, discursos defensivos e a expectativa de que a verdade se imponha sozinha. Não se imporá. A mentira organizada só é derrotada por presença territorial, comunicação permanente, credibilidade e participação popular.

O retorno do fascismo não se anuncia necessariamente com tanques nas ruas. Pode chegar pelo voto, carregando uma Bíblia numa mão, um celular na outra e um programa econômico escrito pelos mesmos interesses que sempre lucraram com a desigualdade. Pode manter eleições enquanto esvazia direitos, preservar tribunais enquanto os captura, invocar liberdade enquanto persegue professores e jornalistas, exaltar a família enquanto submete mulheres, crianças e minorias à violência. Regimes autoritários contemporâneos aprenderam a utilizar as instituições contra a própria democracia.

Por isso, afirmar que “Gilead é aqui” deve funcionar como pergunta mobilizadora, não como sentença de derrota. Ainda há tempo, instituições, organizações sociais, universidades, sindicatos, movimentos de mulheres, coletivos negros, comunidades quilombolas, povos tradicionais, comunidades religiosas democráticas e milhões de cidadãos dispostos a impedir a regressão. A Constituição de 1988 continua sendo trincheira, mas nenhuma Constituição se defende sozinha. Direitos escritos morrem quando deixam de ser sustentados por forças sociais vivas.

A tarefa da esquerda é mais ampla do que vencer uma eleição, embora vencê-la seja condição imediata. É preciso reconstruir vínculos com os trabalhadores precarizados, disputar valores, organizar solidariedade e enfrentar o monopólio moral que o fundamentalismo tenta reivindicar. Justiça social também é valor moral. Alimentar quem tem fome, proteger quem sofre violência, acolher quem foi excluído, respeitar a liberdade religiosa e impedir que crianças sejam abandonadas ao mercado são compromissos éticos muito mais profundos do que a ostentação performática de versículos em palanques.

Também é indispensável defender a soberania sem xenofobia, o STF sem idolatria, Lula sem adesão acrítica e a democracia sem ingenuidade. A interferência estadunidense deve ser denunciada e repelida; os abusos judiciais, apurados; a guerra interna no Supremo, contida pela institucionalidade; e a captura religiosa da política, enfrentada com laicidade, diálogo e presença social. Não existe atalho providencial. Existe disputa, organização e responsabilidade histórica.

A eleição de 2026 decidirá se o Brasil continuará tentando cumprir a promessa democrática de 1988 ou se entregará o Estado a uma coalizão formada por oligarquia familiar, fundamentalismo religioso, autoritarismo digital, neoliberalismo predatório e subordinação externa. Não há garantia de vitória. As pesquisas demonstram um país dividido e um risco real de restauração bolsonarista. A urgência começa pelo abandono da ilusão de que a sociedade aprendeu definitivamente com o desastre recente.

Gilead não surge quando todos se tornam fanáticos. Surge quando fanáticos organizados encontram democratas cansados ou pretensiosos, instituições desmoralizadas, “elites” oportunistas e maiorias convencidas de que nada muito grave poderá acontecer. A ficção de Atwood nos ensinou que a liberdade pode desaparecer aos poucos, sob justificativas de segurança, moralidade e ordem. A história brasileira ensina que conciliações com o autoritarismo quase sempre preservam as estruturas que permitem seu retorno.

O Brasil real, popular, negro, indígena, feminino, plural e trabalhador não merece ser reduzido ao Brazil dos que beijam a bandeira dos Estados Unidos, comercializam a fé e transformam a Presidência numa herança familiar. Não merece que a toga seja convertida em palanque, que o púlpito funcione como curral eleitoral ou que a soberania seja trocada por “proteção” estrangeira. Não merece viver sob a ameaça de uma Gilead tropical.

É preciso dizer isso agora, com todas as letras, antes que a advertência literária se converta em programa de governo. O futuro permanece aberto, mas não permanecerá assim por inércia. Democracia exige escolha, coragem e luta. “O Brasil não merece o Brazil”. E impedir que Gilead se instale aqui é a tarefa política mais urgente do nosso tempo.