O noticiário sobre o maior escândalo de corrupção da história do Brasil, o do banco Master, não para de trazer informações estarrecedoras. Uma das mais importantes é a afirmação de Daniel Vorcaro, em uma de suas muitas tentativas de delação premiada, de que é dinheiro de propina as doações no valor de R$ 5 milhões feitas por seu cunhado, Fabiano Zettel, às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, em 2022. O que Vorcaro ainda não disse é quais seriam as vantagens ou facilidades oferecidas em troca do dinheiro. 

O fato nos leva a um único lugar: é preciso aprofundar as apurações sobre as relações de Tarcísio com o dono do banco Master, pois elas não se limitam a doações de campanha.

A primeira privatização de Tarcísio, em 2024, a estatal paulista EMAE (Empresa Metropolitana de Água e Energia) foi vendida a um “grupo econômico” ligado ao Master. Grupo que reunia Nelson Tanure, apontado como sócio oculto de Vorcaro, além de Tércio Borlenghi e Carlos Piani, à época, respectivamente, controlador e presidente do conselho de administração da Ambipar. A “engenharia” de fundos que ficou celebrizada na Avenida Faria Lima como meio de ocultar patrimônio e lavar dinheiro foi amplamente utilizada nessa privatização.

Em março de 2024, um mês antes do leilão, Tanure e seus associados formaram o Fundo Phoenix, composto principalmente por ações da Ambipar. Entre março e setembro de 2024, os papéis dessa empresa dispararam 800% na bolsa. Uma alta astronômica, sem relação alguma com o desempenho da empresa, o que determinou a abertura de uma investigação na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) por suspeita de manipulação de mercado.  

Essa supervalorização engordou o valor patrimonial do Phoenix, dando lastro para a tomada de empréstimos para saldar o R$ 1 bilhão devido pela compra da EMAE. O leilão de privatização foi realizado em 19 de abril de 2024, e o contrato de transferência das ações para Tanure foi concluído em 2 de outubro do mesmo ano. 

Em junho e julho de 2024, várias reportagens da imprensa especializada em economia e informações corporativas já apontaram indícios de manipulação e fraude na explosão dos preços das ações Ambipar. Nesse mesmo período, o Fundo Phoenix prestou  informações financeiras à Secretaria de Participações e Investimentos do Estado de São Paulo, a quem coube a análise e a aprovação final da transação. Apesar do capital do fundo ser composto por ações da Ambipar, com todas as evidências de manipulação de mercado e uma apuração aberta na CVM, o governador Tarcísio de Freitas fechou os olhos e autorizou a venda da EMAE a essa quadrilha. 

Na engenharia de manipulação da Ambipar, participaram vários fundos geridos pela REAG, pelo Master, por Tercio Borlenghi e por Fabiano Zettel. Todos são personagens conhecidos e que aparecem em outros escândalos. Carlos Piani, na condição de presidente do Conselho de Administração, autorizou as operações de recompra das ações da Ambipar por seu controlador, o que deu início à escalada dos preços dos papéis dessa empresa

O desdobramento não poderia ser pior, pois o caixa da EMAE, com cerca de R$ 580 milhões, foi queimado em poucos meses com a compra de títulos do banco Master, de debêntures (papéis de dívidas) das empresas de Tanure e com a distribuição de dividendos. O fundo Phoenix ficou inadimplente, não honrou a primeira parcela do empréstimo e teve as ações da EMAE executadas pelo credor. De lá para cá, Vorcaro e Fabiano Zettel foram presos, Tanure está com os bens bloqueados devido suas relações com o Master, a Ambipar está em recuperação judicial com dívidas impagáveis e a EMAE, numa operação relâmpago, foi revendida à Sabesp em novembro de 2025.

E quem esteve à frente dessa transação? De novo Carlos Piani, agora como presidente da Sabesp, depois de ter acumulado a presidência dos conselhos de administração da Ambipar e da Equatorial, vencedora e única participante do leilão que entregou o patrimônio público da Sabesp a agentes privados. Portanto, as duas privatizações, da Sabesp e da EMAE, encontram-se na figura desse personagem por caminhos que envolvem conflitos de interesse, manipulação do mercado acionário e supervalorização dos ativos de fundos. 

Uma situação que só agora, mais de dois anos depois, levou à abertura de investigação do Ministério Público Estadual, em que pesem os sólidos questionamentos realizados pela oposição a Tarcísio na Assembleia Legislativa de São Paulo.

O governador Tarcísio foi conivente com essas práticas, ao ignorar os problemas do Master, entregar a EMAE a pessoas suspeitas e vendeu o controle da Sabesp por valores 20% abaixo dos preços praticados na bolsa. Além disso, Tarcísio aceitou que a presidência da companhia seja exercida por um executivo que atuou em todas as pontas do negócio: vendedor, intermediário e comprador. 

Todas essas relações precisam ser investigadas a fundo. Ao contrário do que diz Tarcísio, o Master estava na órbita de seu governo, movimentando centenas de milhões. Tarcísio tenta se apresentar como ícone da moralidade, mas deveria lembrar que transparência é requisito obrigatório a todos os agentes públicos. Não adianta tentar se esquivar na simpatia da imprensa, que o blinda. Tarcísio precisa responder, tanto aos órgãos de controle e fiscalização quanto à sociedade, qual sua verdadeira relação com Vorcaro e o banco Master.