A cafeicultura do Paraná, que foi um pilar econômico do estado entre 1920 e 1970, ressurgiu após a geada de 1975 e os programas de revitalização dos anos 1990. Atualmente, o café paranaense tem um modelo focado na qualidade e no mercado premium, onde as mulheres assumem um papel cada vez mais relevante.

De acordo com dados da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), mais de 80% das cerca de 5 mil famílias envolvidas no cultivo do café são agricultores familiares. Lucian Sousa, técnico e integrante da Comissão Técnica de Cafeicultura do Sistema Faep, ressalta que o café é uma atividade que envolve toda a família, e muitas delas são chefiadas por mulheres.

Em 2025, o Paraná produziu 745 mil sacas de 60 quilos de café beneficiado. Desse total, aproximadamente 20% (cerca de 150 mil sacas) foram de café especial, gerando um Valor Bruto da Produção (VBP) cafeeiro de R$ 1,4 bilhão no estado. Embora a Faep não tenha dados segmentados por gênero para a produção de café especial, o crescimento da participação feminina é evidente nas premiações anuais.

Reconhecimento em Concursos e Inovação

A última edição do Concurso Café Qualidade Paraná, em 2025, contou com 108 participantes, sendo 48 mulheres (quase 45%). Entre os 15 premiados, nove eram mulheres, o que representa 60% dos prêmios. Esse resultado demonstra a crescente contribuição feminina para a qualidade do café paranaense e o aumento da sua participação ano a ano.

Sirlene Soares Santos Souza, cafeicultora de Pinhalão, no Norte Pioneiro, uma das principais regiões produtoras, foi premiada na categoria Cereja Descascado no concurso Café Qualidade Paraná. Ela já havia sido reconhecida em 2022 e 2024, além de obter prêmios no Norte Pioneiro. Sirlene administra sua propriedade de 12 hectares, que produz café especial, agregando valor e garantindo uma boa renda. Parte de sua produção é exportada, e o restante é vendido para cafeterias no Paraná e em São Paulo, valorizando o terroir frutado e achocolatado da região.

A cafeicultora Flávia Guimarães da Silva Rosa, de Pirapó (Apucarana), é outro exemplo de sucesso. Após anos trabalhando como costureira, ela se inspirou na sogra e ingressou na cafeicultura. A partir de 2018, dedicou parte da produção ao café especial, buscando conhecimento e vendendo diretamente ao consumidor final. Em 2024, sua família alcançou o terceiro lugar no Concurso Café de Qualidade Paraná, e em 2025, o primeiro lugar, fortalecendo parcerias e abrindo novas oportunidades no mercado de cafés especiais. Atualmente, 30% de sua produção é destinada a esse segmento, com planos de expansão.

Sensibilidade e Dedicação como Diferenciais

Sirlene Souza atribui o destaque das mulheres na cafeicultura à sensibilidade e dedicação. Segundo ela, o amor pela lavoura e o cuidado no preparo da terra e na seleção dos grãos resultam em um café de alta qualidade. Flávia Rosa, por sua vez, ressalta a importância do sistema radicular e o uso de braquiárias para a captação de carbono, que contribuem para a redução de defensivos químicos. Ambas as produtoras veem o café especial como uma forma de valorizar o trabalho, aumentar a renda e mudar a percepção sobre a cafeicultura.

A experiência bem-sucedida dessas mulheres não apenas as impulsiona a aumentar a produção e aprimorar suas técnicas, mas também inspira outras a buscarem o reconhecimento e a valorização do café paranaense no mercado nacional e internacional. O café da região do Vale do Ivaí, por exemplo, recebeu recentemente a Denominação de Origem, certificação que atesta suas características únicas.