A cúpula dos BRICS que será realizada nos dias 12 e 13 de setembro, em Nova Déli, tem todas as condições de se tornar uma das mais importantes da história do agrupamento. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará no País em plena campanha eleitoral. Mas o que realmente torna este encontro especial é a mudança de etapa que se desenha para os BRICS: depois de um extraordinário processo de expansão, chegou a hora da consolidação.
Durante muito tempo, os BRICS foram essencialmente uma articulação entre cinco grandes países — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — que compartilhavam a percepção de que a arquitetura internacional construída sob liderança ocidental já não refletia adequadamente a distribuição do poder econômico, político e demográfico no planeta. A expansão iniciada nos últimos anos mudou radicalmente essa realidade. O agrupamento incorporou novos membros e parceiros, ampliou sua presença no Oriente Médio, na África e na Ásia e passou a representar uma parcela ainda mais expressiva da população, da produção, do comércio, da energia e dos recursos naturais do mundo.
Essa expansão foi, por si só, uma demonstração de força. Países com histórias, culturas, sistemas políticos e interesses muito diferentes manifestaram o desejo de participar de uma plataforma que oferece algo cada vez mais valorizado no sistema internacional: espaço para cooperação sem exigência de alinhamento automático. Agora surge um desafio mais complexo. Não basta crescer. É preciso integrar os novos membros, criar confiança, identificar interesses comuns e transformar o peso agregado do BRICS ampliado em capacidade concreta de ação.
É por isso que Nova Déli poderá representar uma mudança de paradigma. A prioridade tende a deixar de ser a incorporação permanente de novos integrantes para se concentrar na construção de mecanismos que deem densidade ao agrupamento. Financiamento do desenvolvimento, comércio, pagamentos em moedas nacionais, integração de sistemas financeiros, inteligência artificial, ciência, tecnologia, energia, segurança alimentar e infraestrutura são alguns dos terrenos em que os BRICS podem deixar de ser apenas uma expressão política da multipolaridade para se transformar também em uma de suas principais infraestruturas.
O personagem central desse processo será Narendra Modi. A Índia ocupa uma posição singular no mundo contemporâneo. É uma potência econômica e demográfica em ascensão, mantém uma relação histórica e estratégica com a Rússia, busca normalizar e aprofundar sua interlocução com a China e, simultaneamente, possui vínculos muito importantes com Estados Unidos e Europa. Nova Déli não deseja trocar uma dependência por outra. Sua política externa procura ampliar permanentemente a autonomia do país.
Esse conceito de autonomia estratégica talvez seja a principal contribuição que Índia e Brasil podem oferecer ao futuro dos BRICS. Os dois são, entre os grandes integrantes do agrupamento, os que apresentam algumas das maiores semelhanças em sua inserção internacional. São potências do Sul Global, mantêm relações sólidas e sem conflitos estruturais com os países ocidentais e defendem uma ordem multipolar sem que isso implique aderir automaticamente a um campo geopolítico contra outro.
Para os BRICS ampliados, essa característica é fundamental. O grupo reúne hoje países que possuem relações muito distintas com Washington, Bruxelas, Moscou e Pequim. Há integrantes profundamente conectados às economias ocidentais, grandes produtores de energia, potências asiáticas, países africanos e nações que enfrentam sanções. Transformar essa diversidade em capacidade de cooperação exigirá justamente uma arquitetura flexível, baseada mais em interesses convergentes do que em uniformidade ideológica.
Nesse contexto, a presença de Xi Jinping em Nova Déli assume enorme significado. O líder chinês chegará acompanhado por uma comitiva de cerca de 400 pessoas, uma dimensão que revela a importância estratégica atribuída por Pequim ao encontro. Mais relevante ainda é o momento das relações entre China e Índia. Depois de anos de tensões e desconfianças, inclusive na fronteira entre os dois países, Pequim e Nova Déli vêm emitindo sinais importantes de aproximação.
Não se trata de imaginar que desapareceram as rivalidades entre os dois gigantes asiáticos. Elas continuarão existindo. Mas a multipolaridade não depende da eliminação das divergências. Depende da capacidade de administrá-las. Se China e Índia conseguirem construir uma relação suficientemente estável para cooperar dentro dos BRICS, apesar de suas disputas em outras áreas, terão demonstrado na prática uma das ideias centrais que podem sustentar o agrupamento: países não precisam concordar sobre tudo para construir juntos aquilo que lhes interessa.
Há ainda uma circunstância particularmente importante. A Índia passará a presidência dos BRICS para a China. Isso significa que Modi e Xi não estarão discutindo apenas a agenda da cúpula de Nova Déli, mas potencialmente a continuidade do trabalho do agrupamento entre 2026 e 2027. Uma transição coordenada entre as duas maiores potências asiáticas poderia produzir um ciclo de consolidação extremamente relevante para o bloco.
A presença de Vladimir Putin completa o núcleo político da cúpula. A Rússia atribui aos BRICS uma importância crescente em sua estratégia internacional e aprofundou de maneira acelerada suas relações econômicas com a Ásia e o Sul Global. Ao mesmo tempo, Moscou mantém uma relação histórica com Nova Déli e uma parceria estratégica cada vez mais profunda com Pequim. A reunião de Modi, Xi e Putin, portanto, será uma das imagens geopolíticas mais poderosas do encontro.
Mas seria equivocado interpretar essa imagem como a formação de uma aliança antiocidental. Se os BRICS se transformassem apenas numa coalizão contra Estados Unidos e Europa, perderiam justamente uma de suas maiores virtudes. O grupo é muito mais interessante como instrumento de construção de autonomia do que como mecanismo de confrontação. Brasil e Índia têm papel decisivo na preservação desse equilíbrio.
A consolidação dos novos membros torna essa característica ainda mais necessária. Quanto maior e mais diverso o agrupamento, menos sentido faz tentar impor uma identidade geopolítica rígida. O que pode unir os BRICS é uma agenda concreta: reforma das instituições internacionais, maior participação do Sul Global nas decisões mundiais, financiamento do desenvolvimento, redução de vulnerabilidades financeiras, cooperação tecnológica e ampliação das possibilidades de comércio e investimento.
O Novo Banco de Desenvolvimento, presidido por Dilma Rousseff, oferece um exemplo do caminho possível. Trata-se de uma instituição criada pelos BRICS que transformou uma ideia política em instrumento concreto de financiamento. A maturidade do agrupamento dependerá cada vez mais da capacidade de produzir outras iniciativas com esse grau de materialidade. A multipolaridade se tornará efetiva quando estiver apoiada em bancos, sistemas de pagamentos, infraestrutura, tecnologia, cadeias produtivas, conhecimento e instituições.
O Brasil participa dessa construção mesmo sem Lula em Nova Déli. Mauro Vieira levará à cúpula uma tradição diplomática baseada no multilateralismo, na autonomia e na busca de relações equilibradas com os diferentes centros de poder. A presença brasileira será particularmente importante para ajudar a preservar a identidade original dos BRICS como espaço de cooperação entre países que querem ampliar sua soberania internacional, e não simplesmente substituir uma hegemonia por outra.
Nova Déli poderá, portanto, ser lembrada como a cúpula em que os BRICS começaram a deixar para trás a pergunta sobre quantos países ainda podem entrar no agrupamento e passaram a enfrentar uma questão muito mais importante: o que fazer com a extraordinária força econômica, demográfica, energética e política que já reuniram.
Depois da expansão, vem a consolidação. Integrar os novos membros, aprofundar os mecanismos de cooperação, fortalecer o Novo Banco de Desenvolvimento, criar novas conexões econômicas e tecnológicas e administrar as diferenças internas serão tarefas muito mais difíceis do que simplesmente aumentar o número de bandeiras ao redor da mesa. Mas serão justamente elas que determinarão se os BRICS ampliados conseguirão transformar seu enorme peso estatístico em poder político real.
Se Modi conseguir conduzir esse processo, se a aproximação entre Índia e China produzir uma transição construtiva para a presidência chinesa, se Putin contribuir para fortalecer o agrupamento sem convertê-lo numa aliança de confrontação e se países como o Brasil ajudarem a preservar o princípio da autonomia estratégica, Nova Déli poderá marcar o início de uma nova fase.
Os BRICS já provaram que conseguem crescer. Agora precisam provar que conseguem funcionar como um agrupamento ampliado, diverso e capaz de produzir resultados concretos. É por isso que a cúpula de Nova Déli, mesmo sem a presença de Lula, poderá ser uma das mais importantes da história do bloco.






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