247 – As eleições gerais de 2026 ocorrem em um cenário nacional e global dramático, marcado por extremos climáticos como enchentes e ciclones nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, ameaças de seca severa no Norte e recordes de temperatura e tragédias ambientais no Hemisfério Norte, Nepal e Tibete. Apesar da gravidade do panorama, a pauta ambiental desapareceu do debate eleitoral a poucas semanas do pleito, segundo reportagem da Folha de São Paulo.
O esvaziamento da discussão sobre o clima é evidenciado nos planos de governo apresentados pelos concorrentes ao Palácio do Planalto. Dos seis principais presidenciáveis, apenas o presidente Lula (PT) traz propostas condizentes com a dimensão do desafio socioambiental. Em contrapartida, os programas dos demais cinco concorrentes — Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) — abordam o tema de maneira vaga, omitindo diretrizes sobre pontos centrais, como as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa.
Paralelamente, o debate público e a cobertura jornalística do país estão monopolizados pela crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). Contudo, a atenção desviada pela conjuntura política não reflete a percepção do eleitorado brasileiro sobre o problema.
Eleitores exigem compromisso com a pauta climática
Pesquisas de opinião e levantamentos acadêmicos indicam que os eleitores reconhecem o impacto das mudanças climáticas em seu cotidiano e atribuem peso ao tema no momento do voto.
De acordo com pesquisa realizada pelo instituto Ipsos a pedido do Observatório do Clima — rede que reúne quase 200 organizações socioambientais —, 91% dos brasileiros consideram “importante” que os candidatos apresentem propostas para o enfrentamento das mudanças do clima. Para 62% dos entrevistados, essa é uma pauta “muito importante”.
Além disso, 87% dos eleitores concordam que a crise climática é a causadora do aumento de secas, tempestades intensas e ondas de calor. Outros 79% defendem que o combate à crise deve ser tratado como prioridade pelo próximo governo, mesmo que isso implique custos econômicos.
Para a professora de sociologia ambiental da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Leila da Costa Ferreira, falta uma articulação política capaz de traduzir a urgência dos desastres ambientais para a realidade do cidadão. “O que está faltando para aumentar a convicção do voto ‘verde’ é esse candidato que incorporou a questão colocar a discussão no cotidiano das pessoas. As chuvas, os eventos extremos, etc., fazem parte do nosso cotidiano e isso tem que estar na boca dos candidatos a presidente do Brasil”, pontuou a professora.
Leila ressalta que o debate precisa perder o caráter abstrato. “Quando se fala disso, fica uma coisa que parece estratosférica, parece que é em outro planeta. Não é: é aqui no seu quintal, na sua cidade e no seu estado, no seu país — e é global”, afirmou. A especialista acrescenta que o desvio de foco motivado pelas sucessivas e atuais crises políticas é prejudicial, pois o debate ambiental “é político, é social e tem a ver com as questões da nossa vivência contemporânea”.
Análise dos programas e o risco negacionista
A análise detalhada promovida pelo Observatório do Clima nos planos de governo e no histórico parlamentar dos presidenciáveis revelou um quadro de omissão e até de atuação contrária à proteção do meio ambiente.
O secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, destaca que grande parte das candidaturas ligadas aos campos da direita e da extrema-direita adota posições que minimizam ou rejeitam a crise ambiental. “A maioria das candidaturas são ligadas ao campo da direita ou da extrema direita. Muitos candidatos acham que a crise climática, o furacão, a seca, a enchente, é uma questão ideológica, que eles podem negar e que, ao negar, não vai acontecer”, sublinhou Astrini.
Astrini adverte para as consequências concretas desse posicionamento para a população. “Quando o presidente da República vira as costas para a realidade, ele não toma medidas para proteger a população, que fica totalmente entregue às circunstâncias”, alertou.
A postura do senador Flávio Bolsonaro, principal nome da oposição no pleito, é apontada como emblemática do risco de retrocesso. Flávio não reconhece a existência da crise do clima e, em sabatina ao Jornal Nacional, da TV Globo, minimizou a interferência humana nos eventos climáticos extremos. O levantamento do Observatório do Clima identificou ao menos sete propostas de caráter antiambiental em seu programa de governo, incluindo a liberação da técnica de fraturamento hidráulico (fracking) para a extração de petróleo e gás.
A consolidação de um projeto focado na flexibilização de regras ambientais para favorecer a expansão desregrada da agropecuária e da mineração preocupa especialistas. “Não me surpreenderia se ele seguisse os passos do pai e que o Brasil amanhã se veja fora do Acordo de Paris, virando as costas para qualquer agenda de clima”, avaliou Astrini. “É extremamente preocupante: refazer o que o Bolsonaro exercitou durante o seu período presidencial é decretar que nós vamos, por exemplo, empurrar a Amazônia para uma situação de colapso.”
Metas internacionais e o papel do Congresso Nacional
O Executivo eleito em 2026 assumirá a responsabilidade de cumprir metas internacionais assumidas pelo Estado brasileiro no âmbito do Acordo de Paris. Entre as obrigações para esta década, o governo federal terá que garantir a redução de 1,2 bilhão de toneladas de emissões de gases de efeito estufa, atingir a meta de desmatamento zero em todos os biomas brasileiros e promover a restauração de no mínimo 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.
O sucesso desse compromisso dependerá também da composição do Congresso Nacional. Astrini adverte que o Poder Legislativo representa hoje um dos maiores obstáculos à agenda ambiental no país. “Não existe nenhum outro grupo de pessoas no Brasil hoje que trabalhe de forma tão intensa contra o meio ambiente do que o Congresso brasileiro. É dia e noite retrocessos sendo votados lá”, concluiu o executivo.






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