O presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou forte desaprovação à pressão de entidades e dirigentes esportivos do Brasil, afirmando que os clubes de futebol não devem sustentar-se financeiramente com o endividamento de torcedores de baixa renda. A declaração foi feita em um comício realizado na sexta-feira (25) no Recife, Pernambuco, onde o presidente revelou ter recebido uma manifestação formal das agremiações esportivas, preocupadas com a possível perda de patrocínios caso as plataformas de apostas online, conhecidas como “bets”, sejam banidas. Lula reiterou que a prioridade do governo é a proteção social da população, descartando qualquer recuo na decisão.

Rejeição aos apelos dos clubes de futebol

Lula relatou ter sido alertado por dirigentes esportivos sobre o impacto financeiro que o término das atividades das plataformas de apostas causaria nas contas dos clubes brasileiros. O presidente criticou a postura das entidades diante dos impactos sociais provocados pela proliferação dos jogos. “Sabe o que falaram para mim? Os times de futebol mandaram uma carta para mim, que se eu acabar com as bets eu vou acabar com os times de futebol. É importante lembrar: primeiro, os times de futebol não têm direito de querer sobreviver às custas das dívidas do povo pobre que torce para o time. O torcedor já compra a camisa, já vai ao estádio, compra camisa para a mulher, para o filho, obriga até o filho a torcer para o time que ele torce”, afirmou.

Ao abordar a sustentabilidade financeira das equipes, o presidente recordou a aprovação da legislação que permitiu a criação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), com o objetivo de profissionalizar a gestão esportiva. Ele cobrou maior responsabilidade orçamentária dos dirigentes e mencionou os altos valores repassados pelas empresas de apostas aos maiores clubes do país para ilustrar a dimensão do dinheiro envolvido no setor. “Nós aprovamos a lei, a SAF, para que os times virem empresas. E ninguém virou empresa, porque eles querem mamar… Sabe quanto o Flamengo recebe? R$ 240 milhões. O Corinthians? R$ 150 milhões. Vão ter que arrumar outro jeito de arrumar dinheiro, porque a bet vai acabar”, declarou.

Impactos na saúde pública e no orçamento das famílias

O presidente reiterou os motivos que fundamentam a decisão do governo federal de proibir a atuação dessas empresas no Brasil, citando o aumento do endividamento das famílias, os transtornos de saúde mental e os graves casos de vulnerabilidade associados à ludopatia. “Eu sei que tem muita gente devendo, que pega dinheiro emprestado, do leite da criança e vai jogar. Tem muita gente doente por causa do jogo. Eu vou acabar com as bets. O dinheiro do jogo é para comprar comida para as crianças. Se tiver vontade de jogar, compra um litro de leite para sua casa, um pão. Compre mais comida. Não é correto a gente gastar o que não tem para tentar ganhar o que não existe”, discursou.

Lula também citou episódios dramáticos de perda patrimonial, falências e casos de violência autoimposta causados pelas dívidas de jogo para ilustrar a dimensão do problema enfrentado no país. “Eu não acho correto o povo brasileiro estar devendo e se matando, e ficando doente, com uma doença chamada ludopatia, por causa do jogo”, concluiu o presidente.