O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que conversou em três ocasiões com o ministro Edson Fachin, na época presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para questionar sua conduta diante dos conflitos internos na Corte. Em entrevista recente, Lula expressou a opinião de que Fachin deveria ter assumido a responsabilidade de gerenciar os desentendimentos públicos entre os ministros, afirmando que o ministro “não agiu corretamente” na gestão da crise, embora sem especificar qual medida considerou inadequada.

Lula relatou ter alertado Fachin sobre a imagem negativa que os confrontos poderiam causar entre a população, especialmente a parcela mais humilde. Segundo o presidente, a continuidade dos embates públicos estava comprometendo a credibilidade do STF. Anteriormente, em setembro, Lula já havia se manifestado publicamente, atribuindo a Fachin e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, a responsabilidade de trazer tranquilidade à situação, defendendo a transparência nas apurações.

Credibilidade da Corte em jogo e propostas de reforma

Na mesma entrevista, o presidente criticou como as divergências internas ganham destaque na TV Justiça, alegando que isso prejudica a percepção pública sobre o Supremo. Ele mencionou que a exibição dos debates, com discursos extensos, contribui para a perda de credibilidade. Essa preocupação já havia sido expressa por Lula em declarações anteriores, onde ele destacou o risco de a Justiça perder a confiança da sociedade caso a situação não fosse solucionada, mencionando a prática de “vazamentos seletivos”.

Além das críticas à gestão da crise, Lula reiterou propostas para uma possível reforma do Poder Judiciário. Entre as sugestões estão a implementação de mandatos com tempo limitado para os ministros do STF e a inclusão de um conselho da sociedade civil no processo de escolha dos membros da Corte. O presidente também enfatizou que qualquer comportamento inadequado por parte dos ministros deve ser passível de responsabilização, lembrando que a primeira reforma do judiciário ocorreu em seu governo, em 2004.

A crise do Banco Master e os confrontos no plenário

A crise no STF intensificou-se em setembro, em meio às investigações envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Parte da discórdia girou em torno da divulgação de procedimentos e documentos relacionados ao caso. Fachin defendeu a publicidade das investigações, mas ressalvando o sigilo de diligências que pudessem comprometer as apurações. A Procuradoria-Geral da República também solicitou a abertura integral dos procedimentos, com a mesma ressalva.

Informações de veículos de imprensa da época indicaram que Lula havia contatado Fachin para solicitar a retirada do sigilo das investigações sobre o Banco Master, na crença de que a transparência poderia ajudar a atenuar a crise. A tensão escalou após uma série de decisões envolvendo os ministros André Mendonça, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e a própria presidência do STF. Um dos episódios marcantes foi a retirada do sigilo de um relatório da Polícia Federal por Mendonça, que continha mensagens de Vorcaro mencionando Moraes.

Posteriormente, Fachin assumiu a supervisão de investigações que envolviam Moraes, e o plenário do STF começou a debater a possibilidade de julgar conjuntamente casos relacionados a Moraes e Mendonça, mas a discussão foi interrompida por um pedido de vista do ministro Flávio Dino.