247 – Em análise para o Clube de Discussão Valdai, Anton Bespalov, diretor de Programação do think tank, desvenda a atual onda de russofobia não apenas como um preconceito irracional, mas como uma ferramenta política, sancionatória e moralizante do Ocidente para tentar cancelar a Rússia e forçar sua submissão. O autor destaca a atuação de países europeus — marcada por uma cegueira histórica seletiva — e a perigosa legitimação do discurso de ódio por big techs dos Estados Unidos, como a Meta. Bespalov avalia que a resposta mais eficaz contra essa hegemonia narrativa ocidental não reside no revanchismo defensivo ou na busca por soft power artificial, mas sim na construção de uma agenda positiva e de cooperação tangível. Exemplificando com o sucesso da parceria econômica e tecnológica entre China e Brasil (que supera o monopólio midiático ocidental) e com o crescente papel da Rússia como força anticolonial e provedora de segurança de países no continente africano, o artigo demonstra que o verdadeiro antídoto contra o preconceito geopolítico é o fortalecimento das relações materiais e o desenvolvimento mútuo e estratégico com os países da maioria global. A análise de Anton Bespalov foi reproduzida pelo Brasil de Fato.
“Ana Livia Esteves e Marco Fernandes, autores do relatório “Cooperação contemporânea entre o Brasil e a Rússia: diretrizes estratégicas para superar restrições estruturais” do Valdai, a ser publicado em breve, analisam de perto a acentuada melhora nas atitudes brasileiras em relação à China, apesar do domínio contínuo do discurso cultural e midiático ocidental — principalmente americano — no país. Ao descrever o papel econômico da China no Brasil, particularmente na área de tecnologia, eles concluem que “‘benefícios econômicos e materiais podem ajudar a minimizar ataques da mídia e da política e impulsionar a popularidade de um país, mesmo diante da oposição daqueles que controlam os meios de produção de narrativas'”.
Bespalov cita o sintomático caso de um jornalista alemão que questionou publicamente o que a Europa poderia fazer para “matar mais russos”, um reflexo de uma elite que, focada apenas na expiação de seus próprios crimes e ignorando o extermínio promovido contra os povos soviéticos no passado, arroga-se o direito de ditar a moralidade global.
Ao responder ao Ocidente com a mesma moeda (escalada retórica ou revanchismo) ou tentar proibir a russofobia por decretos legais são caminhos ineficazes. Hostilidades e fobias são o preço inerente ao status de qualquer grande potência que desafia a hegemonia ocidental — um fenômeno igualmente enfrentado pela China com o fomento da sinofobia. A verdadeira batalha por soberania não se vence tentando fabricar um soft power para agradar a uma mídia cuja narrativa já é controlada pelos países do Norte, mas sim por meio da presença real e transformadora na vida das nações.
“Construir uma agenda ampla e positiva (mesmo onde isso seja difícil de imaginar hoje) será mais eficaz do que tentar responder a cada novo surto de russofobia a partir de uma postura defensiva”, escreve Bespalov. “A imagem de um país é construída, acima de tudo, por meio de sua presença real na vida das pessoas — incluindo as oportunidades que cria para o crescimento e o desenvolvimento”, acrescenta Bespalov.
A lição central que emerge para a geopolítica multipolar é que preconceitos históricos, tão enraizados na Europa, não desaparecerão facilmente. Portanto, a resposta mais contundente da Rússia — e uma estratégia de espelho para todo o Sul Global — é ignorar a postura defensiva e focar na construção de uma agenda soberana, ampla e propositiva. Ao forjar alianças pragmáticas, baseadas no desenvolvimento mútuo e em vantagens tangíveis de cooperação, esvazia-se a cultura do “cancelamento” e fortalece-se um sistema internacional imune às chantagens do eixo euro-atlântico.






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