A Justiça de São Paulo prorrogou por 30 dias a prisão temporária do ex-vereador Milton Leite, que presidiu a Câmara Municipal por seis anos. A decisão atende a um pedido da Polícia Civil e do Ministério Público, que investigam a suposta infiltração da facção criminosa PCC no transporte público da capital paulista, na Operação Vectura Corrupta.
Milton Leite, que se entregou dois dias após a operação, está detido na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes. Além dele, outros 12 investigados também tiveram suas prisões prorrogadas. O juiz Nélson Augusto Bernardes de Souza, da Vara Estadual das Garantias de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores, justificou a medida para proteger as provas digitais de manipulação ou destruição.
A defesa de Milton Leite manifestou-se contra a prorrogação, alegando a ausência de novos fatos e a suficiência do material já coletado. A defesa também invocou as “condições pessoais e idade avançada” do ex-vereador. O espaço permanece aberto para outras manifestações da defesa.
Promotores e policiais da Vectura Corrupta apreenderam celulares e computadores com os investigados. O acesso completo a esses equipamentos ainda não foi finalizado, sendo este o motivo para o pedido de prorrogação da prisão, visando a perícia e a recuperação integral dos arquivos. A Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes informou que a análise do vasto material eletrônico apreendido, incluindo aparelhos bloqueados por senhas e criptografia, demanda mais tempo.
O juiz Nélson Augusto ressaltou que a libertação dos investigados antes da conclusão das extrações de dados poderia acarretar riscos como acionamento de comandos remotos de segurança, revogação de chaves criptográficas e eliminação de informações. Segundo o magistrado, a apreensão física dos aparelhos não elimina a possibilidade de comandos telemáticos externos, e a prorrogação da prisão é necessária para permitir os interrogatórios formais dos investigados, que dependem da análise prévia dos relatórios técnicos de extração de dados.
Investigação abrange outros suspeitos e conexões
Entre os outros alvos da investigação estão Paulo Korek, presidente do Esporte Clube Água Santa, e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato a deputado estadual e à prefeitura de Praia Grande. Morgado é suspeito de manter vínculos com integrantes do PCC e de ter tido sua campanha financiada pela facção. Carla de Paula Muller, esposa de Antônio José Muller Junior, conhecido como "Granada" e apontado como liderança do PCC, também é investigada por supostamente transmitir mensagens da facção e participar da exploração do transporte público.
Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, também está entre os investigados, suspeito de se encontrar periodicamente com um intermediário da facção para tratar de interesses relacionados a empresas de transporte. A Operação Vectura Corrupta é um desdobramento da Operação Dercúrio, que em agosto de 2024 desmantelou um esquema de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas operado pelo PCC, revelando uma complexa rede de comunicação e planos para lançar integrantes como candidatos em eleições municipais.
A prisão de Milton Leite foi determinada pela 8.ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ele é citado na investigação como “responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC”, o que ele nega. Policiais militares, em um procedimento no Tribunal de Justiça Militar, afirmaram que Leite seria o proprietário de fato da empresa Transwolff.
As defesas dos demais investigados apresentaram argumentos contrários à prorrogação, mencionando a ausência de diligências pendentes, demora na análise dos equipamentos e divergências nos lacres de apreensão. Alguns alegaram falta de individualização e contemporaneidade, apresentação espontânea, idade avançada e a necessidade de cuidados com filhos ou condições psiquiátricas, solicitando a revogação da prisão ou medidas cautelares alternativas.
Para o juiz Nélson Augusto Bernardes de Souza, a distribuição dos investigados em núcleos distintos e interdependentes, englobando atividades operacionais, financeiras, jurídicas, empresariais e políticas, “potencializa o risco contemporâneo de alinhamento e ajuste prévio de versões antes da formalização dos depoimentos”. A não localização inicial ou a apresentação tardia de alguns investigados confirmaria, segundo o juiz, a existência de canais de articulação interna e externa, exigindo a manutenção da custódia cautelar para garantir a coleta de provas e a conclusão das diligências.







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