O renomado artista Juarez Machado, que teve suas obras expostas em nível global e até mesmo no cenário do filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", faleceu nesta terça-feira (6), aos 83 anos, em Vassouras, Rio de Janeiro. Nascido em Joinville (SC), Machado construiu uma carreira multifacetada ao longo de mais de seis décadas, atuando como pintor, escultor, desenhista, ilustrador e cartunista.
Sua trajetória artística teve início em Curitiba, onde realizou sua primeira exposição individual e concretizou a venda de seu primeiro quadro. O reconhecimento internacional de sua obra ganhou um capítulo especial quando o cineasta Jean-Pierre Jeunet descobriu suas telas em uma exposição em Paris, no início dos anos 2000. As cores vibrantes dos trabalhos de Machado inspiraram a paleta de cores de "Amélie Poulain", tornando-se um elemento estético marcante do filme. Duas obras do artista, inclusive, podem ser vistas no quarto da protagonista, ao lado de sua cama.
Reconhecimento e inspiração cinematográfica
O jornalista José Carlos Fernandes, que entrevistou Juarez Machado em diversas ocasiões, relatou que o artista expressava sua emoção pelo reconhecimento trazido pelo filme. Segundo Fernandes, Machado viveu na França por um longo tempo sem se sentir plenamente valorizado como artista. A inspiração estética para um longa-metragem representou uma mudança significativa nessa percepção, especialmente porque, em pesquisas de paleta para filmes, é comum a busca por artistas clássicos, já consolidados em suas cores.
Em Curitiba, na década de 1960, a Galeria Cocaco foi palco da primeira exposição individual de Juarez. O espaço, fundado em 1957, era um ponto de encontro para intelectuais, artistas e jovens que se interessavam pelo modernismo. Eugenia Petriu, proprietária da galeria, recorda que a presença de Juarez Machado atraía não apenas os amantes da arte, mas também jovens da cidade. Segundo ela, as moças visitavam a galeria para ver o artista, que era descrito por seus conhecidos como um verdadeiro "gentleman" e um sucesso na Cocaco.
Um artista de traço marcante e humor perspicaz
A galerista também menciona que, na época, Juarez Machado rabiscava constantemente, sendo o desenho sua principal forma de expressão antes de se aprofundar na pintura a óleo. Em 1971, uma nova exposição na Cocaco apresentou seus desenhos de humor, que, apesar do sucesso e da casa cheia, não geraram vendas. "O público só sentiu o humor, mas não a força gráfica do trabalho", relembrou Petriu.
Juarez Machado também foi um dos primeiros artistas a integrar o elenco da Simões de Assis, hoje uma das mais importantes galerias de arte moderna e contemporânea da América Latina. Após uma temporada na França, ele trouxe uma série de pinturas que retratavam mulheres sensuais e misteriosas, sentadas em mesas de bares, imersas em uma atmosfera de magia e nostalgia. Waldir Simões de Assis Filho, proprietário da galeria, descreve que as obras revelavam uma linguagem própria e a capacidade de criar um universo reconhecível, com uma mescla de sensualidade, humor e mistério.
O artista Teca Martins, que conheceu Juarez na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), destacou o humor e a criatividade como características marcantes do colega. "O Juarez é uma pessoa interessantíssima, amigo, parceiro e de uma potencialidade criativa muito grande", afirmou Martins, que inclusive intermediou a venda de uma das primeiras obras de Juarez para sua tia.
Em 2022, Juarez Machado celebrou seus 80 anos com a exposição "Juarez Machado – Volta ao Mundo em 80 Anos" no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba. A mostra reuniu 166 obras, abrangendo desde o início de sua carreira na capital paranaense até sua fase internacional, em Paris. Em 2014, o artista inaugurou o Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM) em Joinville, uma instituição sem fins lucrativos dedicada à difusão da arte.







Comentários
Seja o primeiro a comentar.