Os envolvidos político-empresariais no caso Master comemoram o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa, por decisão de André Mendonça.

Esta decisão estranha invade a competência presidencial, vulnerabiliza a Polícia Federal, cria insegurança nas equipes de investigação, compromete o trabalho profissional de inteligência, gera o adiamento de operações, provoca a desmobilização de recursos policiais, quebra a cooperação entre os órgãos policiais e da Justiça, coloca sob suspeita a produção de provas, escancara a politização do STF e a manipulação de procedimentos legais em favor de candidaturas eleitorais.

Seria um atentado à República e à democracia vindo justamente de dentro de quem tem o papel de guardião da Constituição?

Este desastre favorece todos os investigados e dá um golpe na confiança do eleitor. Em plena campanha eleitoral, interfere nas condições institucionais para que investigações de enorme interesse público prossigam profissionalmente e para que o eleitor conheça os fatos antes de decidir seu voto.

A jogada é mais que duvidosa e soa parcial: cria um grave problema político-institucional ainda maior e tem como efeito deslocar o foco e abafar as suspeitas que pesam sobre o comportamento de dois ministros no caso Master: André e Alexandre.

De um lado, estão sob escrutínio as supostas relações perigosas de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, reveladas por mensagens e encontros que passaram a integrar a crise aberta no STF.

De outro, está a atuação de André Mendonça, questionada por possível uso particularista e politicamente orientado de procedimentos judiciais, inclusive por produzir efeitos favoráveis a cálculos e candidaturas eleitorais, como esta decisão de afastamento deixa no ar.

A lógica particularista e personalista se revela acima até mesmo da blindagem do próprio STF. Neste caso, fica exposto algo ainda mais crítico: a instituição e sua autoridade parecem colocadas a serviço de cálculos político-pessoais de alguns de seus ministros e parecem atravessadas por fidelidades a pessoas e grupos alheios aos autos.

Instaura-se uma percepção de desconfiança generalizada de todos os lados, indicando uma polarização judiciária perversa: até a senhora, Justiça, polarizada? Se as espadas e a pena da lei são manobradas para propósitos político-partidários, arrisca-se substituir o Estado de Direito por um Estado autocrático.

Isto nos faz ver que o engodo eleitoral não está no sistema da urna eletrônica brasileira, à prova de sabotagens. Está nas manobras que distorcem a percepção dos eleitores por meio de golpes e contragolpes institucionais vindos de cima.

A sobreposição de interesses, disputas e conveniências individuais à preservação institucional da Corte faz com que o problema vá além do comportamento deste ou daquele ministro. Passa a atingir a credibilidade do próprio STF e sua condição de guardião da Constituição e garantidor de uma Justiça imparcial e transparente.

Já faz algum tempo que a tentativa de usar a Polícia Federal como mercadoria política ronda o STF por meio de alguns de seus ministros. Agora, essa ambição atinge diretamente o comando e a inteligência da instituição.

Quem ganha com isso são os investigados, em especial Vorcaro e sua rede de poder e influência. Quem perde é o STF, o sistema de Justiça, a Polícia Federal, a República, a democracia e, sobretudo, a nossa cidadania, expressa pelo voto.

Magistrados que passam a agir como atores políticos, subordinando a legalidade a convicções pessoais, interesses corporativos ou projetos de poder, deixam de proteger a sociedade e passam a submetê-la à insegurança, à arbitrariedade e à manipulação institucional. É dessa forma que o cidadão perde o direito de confiar na Justiça, e o eleitor perde as condições de formar sua decisão com base em informações e investigações conduzidas de maneira independente.