247 – A tentativa da Índia de atuar como ponte entre BRICS e Ocidente estará no centro da cúpula de Nova Déli, enquanto o governo indiano procura priorizar comércio, tecnologia e desenvolvimento diante das divisões geopolíticas entre os integrantes do bloco.

A avaliação foi feita por ex-diplomatas indianos ouvidos pela agência ANI, em reportagem publicada pela Asianet Newsable. A reunião está prevista para 12 e 13 de setembro e coincidirá com os 20 anos da articulação criada inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China.

O encontro reunirá um BRICS ampliado e marcado por interesses distintos. Além das diferenças entre os sistemas políticos e das assimetrias econômicas, parte dos integrantes está envolvida diretamente em conflitos ou enfrenta os efeitos de guerras, sanções e interrupções nas cadeias internacionais de abastecimento.

Para o ex-diplomata Mahesh Sachdev, a passagem das duas primeiras décadas representa um momento de revisão do desempenho e dos objetivos do grupo.

“Historicamente, o BRICS foi fundado como BRIC em 2006 e completa 20 anos este ano. Ao longo de duas décadas, seu progresso tem sido irregular, e espera-se que, ao atingir a maturidade, aos 21 anos, o grupo se empenhe em ações mais substanciais e produtivas”, afirmou Sachdev.

Segundo ele, Nova Délhi ocupa uma posição particular por manter relações com os integrantes do BRICS e, simultaneamente, preservar canais políticos e econômicos com os Estados Unidos e países europeus.

“Uma parte muito importante da Cúpula do BRICS será a participação da Índia como ponte entre o BRICS e os países ocidentais”, declarou.

Temor de uma nova hegemonia

Sachdev também advertiu que a busca por uma ordem internacional multipolar não deve significar apenas a transferência do poder concentrado em Washington para Pequim. A dimensão da economia chinesa, segundo o ex-diplomata, dá ao país uma influência predominante nas decisões e iniciativas financeiras do bloco.

“Em qualquer caso, um mundo cansado da tentativa dos Estados Unidos de reimpor sua hegemonia e que anseia pela multipolaridade não vai substituir os Estados Unidos pela China. A China representa dois terços do PIB combinado dos BRICS atualmente, e muitas das inovações financeiras em curso têm origem chinesa. Isso cria um certo perigo de substituirmos uma potência hegemônica por outra”, disse.

A mesma preocupação se aplica às propostas destinadas a reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais. Para Sachdev, a simples adoção de outra moeda dominante não modificaria a estrutura de poder que o BRICS pretende reformar.

“Se reduzirmos a dependência do dólar, mas depois colocarmos o yuan na mesma posição, a arquitetura essencial continuará sendo conduzida pelos interesses de um único país”, acrescentou.

Guerras dificultam consenso político

Os conflitos internacionais deverão influenciar as discussões da cúpula. A Rússia tende a buscar respaldo para sua posição na guerra da Ucrânia, enquanto o Irã poderá tentar obter apoio político em meio às disputas no Estreito de Ormuz e aos confrontos com Estados Unidos e Israel.

“Dentro da conferência, isso provavelmente terá seu próprio impacto. A Rússia gostaria de obter apoio para sua posição em relação à guerra da Ucrânia. O Irã gostaria de ter respaldo para sua disputa, particularmente sobre o Estreito de Ormuz, e para a guerra com os Estados Unidos e Israel”, afirmou Sachdev.

A multiplicidade de interesses reduz a possibilidade de uma posição política uniforme. Nesse cenário, a diplomacia indiana deverá procurar declarações de consenso em temas econômicos e evitar que divergências sobre segurança internacional paralisem as negociações.

O ex-diplomata Surendra Kumar considera que a Índia deve conduzir o BRICS para uma agenda capaz de produzir resultados concretos, como ampliação do comércio, cooperação tecnológica, fortalecimento de pequenas e médias empresas e financiamento ao desenvolvimento.

“A Índia está tentando conduzi-lo para uma agenda mais econômica, com mais cooperação, mais compartilhamento de tecnologia e temas que realmente importam para as pessoas, em vez de ficar atolada em questões políticas”, afirmou.

“Sobre questões políticas, não pode haver unidade. Acredito que a ênfase da Índia em resiliência, inovação, sustentabilidade e cooperação seja um caminho muito lógico, e pode haver cooperação substancial nessas áreas”, acrescentou Kumar.

Infraestrutura digital entra na agenda

Uma das propostas que a Índia pretende promover é a expansão da infraestrutura pública digital. Kumar citou os acordos firmados por Nova Délhi e a presença internacional da Interface Unificada de Pagamentos, conhecida pela sigla UPI, como exemplos de iniciativas que podem ser reproduzidas ou compartilhadas.

“A Índia está oferecendo infraestrutura pública digital. Assinamos memorandos de entendimento com 20 países, e o UPI opera em 12 deles. Há muito que podemos fazer: ampliar o comércio, expandir a cooperação financeira, fortalecer as micro, pequenas e médias empresas e apoiar a Organização Mundial do Comércio. Existem muitas áreas práticas para as quais a Índia pode direcionar o grupo a fim de alcançar um sucesso real”, declarou.

De acordo com os dados mencionados por Kumar, o BRICS reúne quase metade da população mundial e responde por 40% do PIB global quando calculado pela paridade do poder de compra. O diplomata também citou participações de 40% e 26% no comércio, sem esclarecer no relato a diferença entre os dois indicadores.

“Agora, considere a maior força do BRICS: como sabemos, ele tem quase metade da população mundial, 40% do comércio, 26% do comércio e 40% do PIB com base na paridade do poder de compra. Se observarmos esses dados, ele é maior do que o G7. Mas permanece o fato de que se trata de uma organização com muitas divisões”, afirmou.

Kumar reforçou que o ambiente internacional, marcado pela guerra entre Rússia e Ucrânia, pela desorganização das cadeias de suprimentos e por outras crises, limita a construção de posições comuns.

“Também estamos em um momento em que o mundo está dividido: Ucrânia contra Rússia, muitas interrupções nas cadeias de abastecimento e todos os tipos de crises. A Índia está tentando conduzir o grupo para uma agenda mais econômica, com mais cooperação, mais compartilhamento de tecnologia e temas que realmente importam para as pessoas, em vez de ficar atolada em questões políticas. Sobre questões políticas, não pode haver unidade”, concluiu.