247 – A pressão da União Europeia para que a China apresente medidas destinadas a reduzir o desequilíbrio comercial entre as duas economias elevou o grau de tensão entre Pequim e Bruxelas. Em editorial, o jornal chinês Global Times rejeitou a imposição de prazos e afirmou que uma escalada tarifária prejudicaria oportunidades de cooperação em áreas como inteligência artificial, clima e governança global.

O editorial responde às declarações do comissário europeu para Comércio e Segurança Econômica, Maros Sefcovic. O representante da UE disse esperar “ações iniciais” chinesas antes do começo de outubro e indicou que a falta de resultados nas negociações aumentaria a pressão política por “outras soluções”.

O Global Times interpreta a manifestação como uma espécie de ultimato e acusa o bloco europeu de recorrer à possibilidade de restringir o mercado para obter concessões de Pequim. Segundo o jornal, a China mantém os canais diplomáticos abertos e defende que as divergências sejam tratadas por meio de consultas em condições de igualdade.

“A China não quer uma guerra comercial, porque não há vencedores em uma guerra comercial. Mas a China nunca teve medo de uma guerra comercial, nem aceitará uma abordagem de negociação que busque usar a ameaça de uma guerra comercial como moeda de troca”, afirma o texto.

A publicação acrescenta que Pequim não aceitará um entendimento que transfira unilateralmente para o país asiático o custo dos problemas econômicos europeus. “Se o lado europeu espera impor algum tipo de acordo comercial desigual que force a China a ‘se sacrificar’ incondicionalmente para ajudar a Europa a ‘preencher a lacuna’, isso é simplesmente impossível”, sustenta.

Divergência sobre o déficit comercial

Um dos principais pontos de atrito é o déficit europeu no comércio de bens com a China. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem citado um saldo desfavorável equivalente a cerca de € 1 bilhão por dia para destacar a dimensão do desequilíbrio.

O Global Times contesta essa interpretação. O editorial argumenta que o cálculo não incorpora o superávit europeu no comércio de serviços nem considera os resultados de companhias da UE que fabricam mercadorias em território chinês e posteriormente as vendem no mercado europeu.

Na avaliação do jornal, parte do saldo contabilizado em favor da China está associada a operações de multinacionais europeias, cujos lucros retornam ao continente. Por isso, o veículo considera incompleta uma análise baseada exclusivamente no fluxo comercial de bens.

O texto também rejeita a caracterização dos produtos chineses apenas como mercadorias de baixo preço. Conforme o editorial, a combinação entre qualidade e competitividade tornou a indústria chinesa mais atraente, enquanto as empresas europeias enfrentam dificuldades estruturais para preservar sua posição no mercado mundial.

Competitividade europeia no centro da disputa

Para o Global Times, o avanço das exportações chinesas não seria a causa central da perda de competitividade da UE. O jornal atribui o problema a fatores internos do bloco, entre eles custos elevados de energia, investimentos insuficientes, lentidão na transformação de pesquisas em produtos comerciais e fragmentação do mercado único.

O editorial relaciona essas limitações ao baixo crescimento econômico, à polarização política e às divergências sociais dentro da Europa. Também menciona as tensões estratégicas do bloco com a Rússia e os atritos comerciais e diplomáticos com os Estados Unidos.

A publicação questiona, nesse contexto, a capacidade europeia de abrir uma nova frente de confronto econômico. “Na realidade, a UE não tem capacidade para travar uma guerra comercial contra a China. Se estiver realmente determinada a fazê-lo, que tente”, diz o editorial.

Apesar do tom incisivo, o jornal sustenta que Pequim prefere evitar uma escalada. O texto apresenta a disposição chinesa para negociar como uma tentativa de preservar uma parceria comercial considerada estratégica, mas ressalta que o país não pretende responder a ameaças com concessões unilaterais.

China é tratada como problema, diz editorial

Na avaliação do Global Times, Bruxelas comete um erro estratégico ao tratar a China como fonte das dificuldades europeias. “A China deveria ter sido uma parceira estratégica, ajudando a UE a resolver seus problemas, mas erroneamente foi tratada como o próprio problema”, afirma.

O jornal atribui essa postura à falta de conhecimento aprofundado sobre a economia e o sistema político chineses entre autoridades, especialistas e formuladores de políticas da Europa. Também acusa parte da imprensa e das lideranças europeias de privilegiar uma narrativa de confronto e ignorar experiências positivas de cooperação empresarial.

Como exemplo, o editorial menciona o mecanismo de negociação de preços adotado pela Volkswagen Anhui, operação da montadora alemã na China. O caso é apresentado como demonstração de que empresas dos dois mercados podem construir acordos em bases consideradas equilibradas e mutuamente vantajosas.

A Alemanha aparece no texto como um país que, embora tenha defendido posições mais rigorosas em relação a Pequim, preserva vínculos industriais profundos com o mercado chinês. Esses laços tornam uma eventual escalada comercial particularmente sensível para setores como automóveis, máquinas, produtos químicos e tecnologia.

Cooperação em inteligência artificial e clima

O editorial afirma que as economias chinesa e europeia continuam complementares e podem alcançar um equilíbrio comercial conforme mudam suas estruturas produtivas. Para o jornal, o volume do intercâmbio bilateral oferece espaço para diversificar investimentos e criar novas frentes de desenvolvimento conjunto.

Entre as áreas citadas estão inteligência artificial, tecnologias voltadas à redução de emissões, políticas climáticas e mecanismos internacionais de governança. O texto também defende uma atuação coordenada de China e UE em instituições multilaterais, especialmente na Organização Mundial do Comércio.

Para o Global Times, a adoção de medidas protecionistas não resolveria as deficiências de competitividade apontadas por Bruxelas. Ao contrário, poderia elevar custos para empresas e consumidores europeus, provocar retaliações e reduzir o acesso a oportunidades abertas pela transição energética e digital.

O jornal conclui que a União Europeia precisa rever sua estratégia para a China e substituir a política de pressão por negociações baseadas em reciprocidade. Caso mantenha o rumo atual, afirma o editorial, o bloco corre o risco de aprofundar as tensões comerciais sem enfrentar os problemas internos que limitam o desempenho de sua economia.