Um site de criptomoedas lançou um esquema que oferece tokens digitais a usuários que divulgarem a mensagem “B22” e vídeos que promovem o voto em Flávio Bolsonaro (PL). A iniciativa tem sido amplamente divulgada em um perfil do Instagram com 12,9 milhões de seguidores, dedicado a arrecadar fundos para crianças em Kampala, Uganda. Em um dos vídeos, crianças ugandenses aparecem dançando com camisetas amarelas com a marca “B22 token” e cantando frases de apoio a Bolsonaro. A publicação já registrou mais de 1,2 milhão de visualizações.

De acordo com a página oficial do projeto, parte da venda da criptomoeda “B22” será destinada ao financiamento de ações sociais na África. Nas gravações, as crianças pedem apoio direto aos eleitores, mencionando nomes como Nikolas Ferreira e Pablo Marçal, e afirmam que o propósito do novo token é “ajudar o Brasil”. A plataforma de criptoativos indica que os participantes podem receber tokens, que prometem valorização no mercado, ao compartilharem o projeto nas redes sociais.

Suspeita de irregularidade eleitoral

O advogado eleitoral Hélio Silveira, que atuou na equipe jurídica da campanha de Tabata Amaral (PSB) em 2024, comparou a manobra ao modus operandi dos campeonatos de cortes de vídeo promovidos por Pablo Marçal. Silveira avalia que se trata da mesma lógica de oferecer incentivos financeiros para a divulgação de campanhas e candidatos. O especialista também ressalta que a operação pode configurar doação empresarial proibida, uma vez que a empresa de criptomoedas estaria usando sua estrutura e incentivos financeiros para promover o voto no número 22, referente ao senador.

A Justiça Eleitoral já se manifestou sobre casos semelhantes. Pablo Marçal teve sua inelegibilidade confirmada em segunda instância pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) em dezembro de 2025, por abuso de poder econômico na realização de concursos de vídeos. Na ocasião, o TRE-SP entendeu que a concessão de recompensas financeiras para engajar a divulgação de propaganda eleitoral na internet violava a legislação vigente.

Defesa e questionamentos

A assessoria da campanha de Flávio Bolsonaro informou que enviaria uma manifestação oficial sobre o caso. O movimento B22, em sua defesa institucional, alega ser um “movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala”. O texto da empresa afirma ainda que o “Brasil 22 Token defende o voto 22 por acreditar nessa proposta para um Brasil melhor”, ressalvando que a distribuição dos ativos digitais ocorreria de forma “independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral” e que o projeto “não é oficial, não é endossado nem tem vínculo com nenhum político, partido, candidatura ou campanha eleitoral, e não é forma de doação eleitoral”.

Apesar das alegações, a propriedade do domínio do site permanece sob sigilo nos registros públicos. Nas redes sociais X e Instagram, o usuário Kevim Flores tem divulgado o lançamento do ativo, associando o token à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e à causa humanitária na África, sem assumir abertamente a titularidade do site. Flores, em suas publicações, utiliza imagens de urnas eletrônicas com o número 22 e a marca do B22 token, projetando lucros expressivos vinculados ao pleito presidencial.

Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, adverte que a articulação expõe graves irregularidades, descrevendo-a como uma “operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral. É um esquema extremamente complexo e ilegal”.

A pesquisadora enfatiza o descumprimento das normas eleitorais brasileiras, apontando que uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral. Além disso, ela destaca que a operação, ao atrelar um suposto auxílio a crianças africanas a um aumento da visibilidade de materiais que pedem votos a um candidato, cria um sistema onde quanto mais o vídeo é compartilhado e a moeda vendida, mais dinheiro as crianças supostamente recebem, configurando uma forma de propaganda política.