Doze entidades médicas lançaram uma carta conjunta pedindo à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a retirada de circulação dos implantes hormonais femininos, conhecidos como chips da beleza. O documento afirma que os dispositivos causam riscos, incluindo alterações cardiovasculares e metabólicas, problemas hepáticos, tromboembolismo, acidente vascular cerebral e possíveis efeitos sobre o risco de câncer. A carta foi divulgada durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa e é assinada por entidades como a Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes).

As entidades questionam a falta de estudos clínicos que comprovem a eficácia e a segurança dos implantes manipulados. Segundo o documento, eles são oferecidos para sintomas da menopausa, disfunção sexual, emagrecimento, ganho de massa muscular, aumento da disposição, melhora do desempenho físico e antienvelhecimento. Os implantes podem conter testosterona, gestrinona, estradiol e outras substâncias. Para essas finalidades, as organizações afirmam que não existem ensaios clínicos de qualidade que sustentem os benefícios anunciados.

Preocupações com a administração

Diferentemente de medicamentos que podem ter a dose ajustada ou ser suspensos, o hormônio liberado por um implante permanece no organismo por meses. Diante de concentrações elevadas ou de efeitos adversos, não é possível reduzir prontamente a dose ou interromper a administração. A retirada do dispositivo também pode ser difícil ou incompleta, especialmente no caso dos chamados pellets bioabsorvíveis.

As entidades também criticam o uso do termo "bioidêntico" na divulgação desses produtos. Para elas, a denominação é usada como estratégia de marketing e não garante eficácia, qualidade farmacêutica ou menor risco. A carta questiona ainda a forma como os implantes manipulados vêm sendo produzidos e comercializados, apontando expansão de práticas como produção em escala, formação de estoques e promoção nas redes sociais.

Dados da plataforma Vigicom Hormônios, da SBEM, registraram 2 óbitos e 257 relatos de complicações médicas associados ao uso dos implantes. As mulheres correspondem a 63% dos casos, e em 45,9% dos registros os hormônios foram utilizados para fins estéticos. Em outubro de 2024, a Anvisa determinou a suspensão da manipulação, comercialização, propaganda e uso de implantes hormonais manipulados.

As entidades pedem à Anvisa, com participação do Ministério da Saúde, conselhos de Medicina e Farmácia, Ministério Público e Legislativo, a adoção de medidas para proibir a manipulação, formação de estoques, comercialização, distribuição, publicidade e uso desses implantes. Também solicitam o fortalecimento da fiscalização, da farmacovigilância e da notificação obrigatória de eventos adversos.