247 – A escalada da tensão interna no Supremo Tribunal Federal (STF) colocou um novo obstáculo no caminho de Jorge Messias para chegar à Corte e levou aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a defenderem uma mudança de estratégia. Principal opção do presidente para a cadeira deixada por Luís Roberto Barroso, o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU) passou a enfrentar resistência no próprio campo governista.

Segundo O Globo, a divulgação de mensagens de Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes e a reação deste, com um pedido de investigação contra o colega André Mendonça, agravaram a crise no Supremo e alteraram os cálculos políticos em torno de uma nova tentativa de indicação de Messias.

Até então, Lula vinha afirmando a auxiliares e também publicamente que pretendia reapresentar o nome do chefe da AGU ao Senado. Messias foi rejeitado pela Casa em abril, depois de ter sido escolhido pelo presidente para substituir Barroso, aposentado há quase um ano.

A derrota ocorreu em meio a uma articulação conduzida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com o aval de ministros do Supremo, entre eles Moraes.

Aliados defendem “sacrificar” Messias

Cinco meses após a rejeição, a turbulência dentro do STF tornou o cenário ainda mais difícil para Messias. Integrantes do círculo próximo a Lula passaram a tentar convencer o presidente a desistir, ao menos temporariamente, de reapresentar seu nome.

Um interlocutor presidencial ouvido pela reportagem afirmou que seria necessário “sacrificar” Messias neste momento para ajudar a reduzir a crise e deixar uma eventual nova indicação do chefe da AGU para depois, caso Lula seja reeleito.

Nesse grupo, ganhou espaço a defesa do desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio de Janeiro. Lula não mantém uma relação próxima com Couto, mas já fez elogios públicos ao magistrado, que tem adotado uma postura de enfrentamento às ilegalidades e à corrupção no estado.

Procurado pela reportagem, Messias não se manifestou sobre o caso. .

Relação com Mendonça vira foco de resistência

A proximidade entre Messias e André Mendonça está no centro das críticas feitas por uma ala próxima ao presidente. O ministro do Supremo chegou a pedir votos em favor do chefe da AGU durante a tentativa anterior de aprovação de seu nome pelo Senado.

Mendonça, porém, integra no STF um bloco que se contrapõe ao grupo formado por Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, ministros com os quais Lula mantém maior interlocução.

O receio entre integrantes desta ala é que a chegada de Messias ao Supremo possa representar uma composição com o grupo oposto dentro da Corte.

A relação entre os dois também ganhou importância depois que um relatório de inteligência da Polícia Federal, utilizado por Moraes para questionar a conduta de Mendonça, mencionou a atuação do chefe da AGU.

PF apontou possível preocupação com “relação política”

Segundo o documento, Messias pode ter evitado atender a demandas da Polícia Federal para contestar decisões tomadas nos inquéritos sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e sobre suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva.

O relatório aponta como possível motivação a intenção de preservar a boa “relação política” com Mendonça.

Messias classificou a interlocutores a menção a seu nome no relatório como “vingança”.

Procurado, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, não se manifestou.

AGU alegou falta de fundamento para recurso

As divergências entre a Polícia Federal e a AGU haviam sido formalizadas em julho. Em documento encaminhado a Messias, a corporação apresentou dez pontos de discordância em relação a determinações de Mendonça.

Entre as questões levantadas estavam a exigência de comunicação prévia sobre alterações na equipe responsável pelas investigações e a determinação para delimitar o acesso judicial ao material produzido durante as apurações.

A PF queria que a Advocacia-Geral da União recorresse dessas medidas, o que não ocorreu.

Em nota divulgada na sexta-feira (4), Messias afirmou que atuou perante o Supremo para atender aos pleitos da Polícia Federal, mas sustentou que não havia embasamento jurídico para apresentar um recurso nos termos pretendidos pela corporação.

Segundo a manifestação, o chefe da AGU buscou interlocução com Mendonça e com o presidente do STF, Edson Fachin, para estabelecer um “ambiente de diálogo capaz de equacionar divergências e evitar o agravamento de uma situação institucional sensível”.

Investigações preocupam aliados de Lula

É justamente a interlocução com Mendonça que passou a provocar questionamentos entre integrantes do entorno de Lula. Esses aliados lembram que Messias defendeu uma aproximação com o ministro, enquanto investigações sob a relatoria dele vêm causando desgastes ao governo e ao presidente.

Entre os episódios mencionados estão a revelação de diálogos de Fábio Luís com uma lobista interessada em contratos com o governo e informações envolvendo o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.

Contas de Marcola teriam sido pagas pela mesma interlocutora. Ele afirmou que os valores correspondiam a um empréstimo posteriormente quitado.

Há no entorno da campanha a percepção de que esses episódios desgastam a imagem de Lula e acrescentam dificuldades à disputa eleitoral contra seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

Aliados de Messias apostam em Lula

Apesar da pressão, pessoas próximas a Messias sustentam que Lula continua disposto a insistir em sua indicação. Esse grupo destaca o histórico de dedicação do chefe da AGU ao PT e avalia que sua rejeição pelo Senado ocorreu principalmente em razão da conjuntura política desfavorável naquele momento.

Nessa avaliação, uma recomposição entre Lula e Davi Alcolumbre poderia abrir caminho para a aprovação de Messias em uma nova tentativa.