247 – Uma análise de imagens e vídeos do ataque a um casamento no sul do Irã indica que o local foi atingido diretamente por uma munição provavelmente utilizada pelas forças dos Estados Unidos. O episódio, ocorrido em Kuhestak, na região costeira de Sirik, deixou ao menos cinco mortos e dezenas de feridos e voltou a colocar as vítimas civis no centro do debate sobre a guerra entre Washington e Teerã.

A conclusão consta de uma investigação da Reuters publicada nesta quinta-feira (3). A agência submeteu imagens e vídeos verificados do local a quatro especialistas militares em armamentos. Eles consideraram que os danos observados são compatíveis com o impacto direto de uma munição, e não com estilhaços ou o ricochete de uma arma destinada a outro alvo. Três dos especialistas avaliaram ainda que o artefato provavelmente era americano.

O ataque ocorreu na noite de terça-feira (1º), quando dezenas de pessoas estavam reunidas em uma casa para uma cerimônia de casamento. Imagens verificadas pela Reuters mostram um buraco no teto da residência, além de destruição no pátio e no interior do imóvel. Sapatos ensanguentados e objetos usados na decoração da festa aparecem espalhados entre os escombros.

Inicialmente, organizações iranianas de direitos humanos contabilizaram quatro mortos e 68 feridos. Na quinta-feira (3), a televisão estatal do Irã informou que uma mulher de 22 anos que estava hospitalizada morreu em consequência dos ferimentos, elevando para cinco o número de vítimas fatais informado pelas autoridades iranianas.

Entre os mortos identificados inicialmente estavam Kolsoom Mollahi Najhandania, de 43 anos, Zarkhatoon Taheri, de 50, e Amir Mohammad Karimi, de apenas quatro anos, que participavam da celebração. Mohammad Mallahi, de 16 anos, morreu enquanto passava de motocicleta pelas proximidades de uma torre de telecomunicações também atingida durante os bombardeios. Os nomes foram divulgados por organizações locais de direitos humanos e confirmados pela imprensa iraniana.

O Comando Central dos Estados Unidos havia informado que suas forças realizaram uma série de ataques no sul iraniano naquele dia. Segundo os militares norte-americanos, os alvos incluíam instalações de defesa aérea, radares e sistemas de comunicação ligados à Guarda Revolucionária do Irã. A ofensiva foi apresentada por Washington como uma resposta a ataques iranianos contra ativos militares americanos na região do Golfo.

Dois funcionários dos Estados Unidos disseram à Reuters, sob anonimato, que as forças americanas realizaram um ataque especificamente contra uma torre de telecomunicações em Kuhestak. Imagens de satélite analisadas pela agência mostram que a estrutura fica a cerca de 135 metros da casa onde acontecia o casamento.

A proximidade entre os dois locais levantou inicialmente diferentes hipóteses para explicar as mortes. Entre elas estavam a possibilidade de uma munição americana ter errado o alvo, de fragmentos terem atingido a residência depois do ataque à torre ou de um míssil de defesa aérea iraniano ter se desviado de sua trajetória.

A avaliação técnica feita a pedido da Reuters, porém, apontou em outra direção. Trevor Ball, ex-técnico de desativação de explosivos do Exército americano e analista da Armament Research Services, concluiu que a configuração dos danos indica que uma munição explodiu ao atingir o teto da residência ou imediatamente acima dele. Para ele, o padrão observado não poderia ter sido produzido apenas por fragmentos provenientes da explosão na torre de telecomunicações.

Gareth Collett, brigadeiro reformado do Exército britânico especializado em desativação de bombas e doutor em engenharia de explosivos, chegou a uma avaliação semelhante. Segundo sua análise, o conjunto das evidências favorece a hipótese de uma bomba americana lançada do ar, com cerca de 500 libras, em vez de um míssil de defesa antiaérea iraniano.

Sebastian Schutte, professor e pesquisador do Peace Research Institute Oslo, também analisou o material visual. Ele considerou que o ângulo do impacto não correspondia ao padrão esperado de um míssil de defesa aérea. Collett observou ainda que não apareciam nas imagens sinais da fragmentação normalmente produzida por ogivas desse tipo.

Imagens veiculadas pela imprensa iraniana mostraram também fragmentos atribuídos ao bombardeio. Ball identificou parte deles como possíveis componentes de uma Joint Standoff Weapon, ou JSOW, bomba planadora utilizada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos. A Reuters, entretanto, ressaltou que não conseguiu confirmar de forma independente se esses destroços foram encontrados especificamente na residência atingida durante o casamento.

A investigação não estabeleceu se a casa teria sido escolhida deliberadamente como alvo. Um dos especialistas consultados considerou possível que uma arma americana simplesmente tenha errado seu objetivo. Os Estados Unidos não assumiram responsabilidade pelo ataque à residência.

O vice-presidente americano, JD Vance, afirmou na quinta-feira que o governo investiga o episódio. Segundo ele, Washington ainda não tinha informações definitivas sobre a causa da explosão. As Forças Armadas dos EUA também disseram ter conhecimento dos relatos e reiteraram que civis não são escolhidos como alvos de operações militares.

O ataque ocorreu próximo ao estratégico Estreito de Ormuz, rota fundamental para o transporte mundial de petróleo e gás. Ao longo dos seis meses de conflito, os Estados Unidos atacaram repetidamente radares e instalações de comunicação iranianas nas proximidades da passagem marítima, sob a justificativa de reduzir a capacidade de Teerã de ameaçar navios mercantes e petroleiros.

A morte de civis em Kuhestak reacendeu questionamentos sobre as consequências humanitárias da campanha militar. O episódio ocorre cerca de seis meses depois da destruição de uma escola primária em Minab, no sul do Irã, em 28 de fevereiro, nas primeiras horas da ofensiva americana e israelense que iniciou a atual guerra. Autoridades iranianas afirmam que mais de 175 crianças e professores morreram naquele ataque.

O Pentágono ainda não divulgou publicamente o resultado completo da investigação sobre Minab. Em março, no entanto, a Reuters informou que uma apuração preliminar interna das Forças Armadas americanas indicava que tropas dos Estados Unidos provavelmente haviam sido responsáveis pelo ataque à escola.

Na quinta-feira, moradores da região participaram dos funerais das vítimas de Kuhestak. Em Sirik, uma multidão acompanhou o cortejo de Amir Mohammad Karimi. Imagens registraram mulheres lançando flores sobre o pequeno caixão da criança de quatro anos enquanto a procissão atravessava a cidade.

O episódio ocorre em meio a uma nova escalada militar entre Estados Unidos e Irã após um período de relativa redução dos combates. Em resposta aos bombardeios americanos, Teerã lançou mísseis e drones contra instalações utilizadas pelas forças dos EUA na região, incluindo uma base no Kuwait. A nova rodada de ataques representa uma das maiores intensificações do conflito desde julho.