247 – A Anthropic, uma das principais empresas de inteligência artificial do mundo, criou um laboratório físico de biologia no Vale do Silício para ampliar sua atuação científica para além das simulações realizadas em computadores. A informação é da Reuters, com base em fontes familiarizadas com os planos da companhia.

A iniciativa representa um novo passo na aproximação entre inteligência artificial e ciências da vida. A Anthropic pretende utilizar seu modelo Claude para orientar robôs na realização de experimentos biológicos, mantendo supervisão humana por razões de segurança.

Um dos objetivos é explorar como a IA pode contribuir para pesquisas relacionadas a doenças raras e negligenciadas, inclusive condições para as quais atualmente existem poucas ou nenhuma alternativa terapêutica.

Claude no laboratório

A ambição da Anthropic é fazer com que sua inteligência artificial deixe de atuar apenas na análise de dados e em simulações digitais e passe a interagir com experimentos realizados no mundo físico.

Nesse modelo, o Claude poderá orientar sistemas robóticos na execução de determinadas tarefas laboratoriais. Pesquisadores humanos permanecerão envolvidos no processo para acompanhar os experimentos e estabelecer controles de segurança.

A Anthropic confirmou a existência do laboratório, mas ressaltou que a instalação não foi criada especificamente como uma unidade de descoberta de medicamentos. O objetivo é desenvolver trabalhos biológicos mais amplos e testar novas aplicações da inteligência artificial na ciência.

Doenças hoje consideradas difíceis de tratar

Entre as possibilidades estudadas está o uso de IA para acelerar o desenvolvimento de moléculas biologicamente complexas.

A tecnologia poderá, por exemplo, auxiliar pesquisas envolvendo anticorpos biespecíficos, capazes de se ligar simultaneamente a dois alvos diferentes e que vêm sendo investigados para diferentes aplicações terapêuticas.

A aposta é que sistemas avançados de inteligência artificial possam reduzir o tempo necessário para algumas etapas da pesquisa e permitir a exploração de caminhos que seriam muito mais lentos por métodos tradicionais.

O interesse está especialmente em doenças raras ou negligenciadas e em condições consideradas particularmente difíceis de tratar.

Anthropic comprou startup de biotecnologia

A expansão para a biologia também vem sendo acompanhada de investimentos e aquisições.

Segundo a Reuters, a Anthropic adquiriu a startup Coefficient Bio por aproximadamente US$ 400 milhões, além de ampliar sua equipe de pesquisadores especializados em biologia.

A operação reforça uma estratégia na qual a empresa pretende transformar a inteligência artificial em uma ferramenta cada vez mais presente na pesquisa científica.

A Anthropic, no entanto, procura estabelecer uma fronteira clara entre suas atividades e as das empresas farmacêuticas.

Parcerias com Roche, Bristol Myers Squibb e Novo Nordisk

A empresa já fornece ferramentas e serviços de inteligência artificial para grandes grupos farmacêuticos, entre eles Roche, Bristol Myers Squibb e Novo Nordisk.

Por essa razão, a Anthropic procura evitar uma situação em que passe a competir diretamente com seus próprios clientes.

A companhia não pretende realizar ensaios clínicos de medicamentos. Além de exigir uma estrutura muito diferente daquela de uma empresa de inteligência artificial, a entrada nessa etapa poderia criar conflitos comerciais e aumentar as preocupações de clientes sobre a proteção de informações confidenciais.

A estratégia é permanecer como fornecedora de tecnologia e infraestrutura de IA capaz de acelerar determinadas etapas da pesquisa, deixando o desenvolvimento clínico e a comercialização dos medicamentos para as empresas farmacêuticas.

Segurança biológica é desafio

A entrada de grandes empresas de inteligência artificial na biologia também amplia preocupações sobre segurança.

A própria Anthropic reconhece que sistemas avançados de IA podem apresentar riscos quando aplicados a conhecimentos biológicos sensíveis, inclusive pela possibilidade de utilização indevida para o desenvolvimento de armas biológicas.

A empresa afirma buscar mecanismos para equilibrar o potencial científico da tecnologia com medidas destinadas a impedir aplicações perigosas.

A supervisão humana dos experimentos conduzidos com auxílio de robôs faz parte dessas precauções.

De olho em um IPO bilionário

A expansão para as ciências da vida acontece enquanto a Anthropic se prepara para uma possível abertura de capital.

Segundo informações citadas pela Reuters, a companhia trabalha com a perspectiva de um IPO que poderia atribuir à empresa uma avaliação de até US$ 2 trilhões.

Uma operação dessa dimensão permitiria captar recursos para sustentar os investimentos necessários ao desenvolvimento de novos modelos de inteligência artificial e à expansão para áreas científicas intensivas em capital.

O laboratório de biologia mostra até onde essa estratégia pode chegar. Depois de modelos capazes de produzir textos, códigos, análises e pesquisas digitais, a próxima fronteira da inteligência artificial poderá estar na conexão direta entre modelos como o Claude, equipamentos robóticos e experimentos realizados no mundo físico.