O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, defendeu neste sábado (26) a regulação internacional da inteligência artificial em discurso na Assembleia Geral da ONU. Usando uma comparação provocativa, o chanceler alertou sobre os riscos de a tecnologia estar concentrada nas mãos de poucas empresas privadas.

Wadephul abriu seu discurso com um cenário hipotético para ilustrar o perigo. "Imaginem se as armas nucleares fossem desenvolvidas por empresas privadas, se os arsenais estivessem localizados nas instalações das empresas, e se os códigos de lançamento estivessem trancados em um cofre no escritório do diretor-executivo", disse o ministro. Ele destacou que apenas dois países detêm a maior parte das patentes de IA, caracterizando isso como "uma enorme quantidade de influência na mão de muito poucos".

Crítica indireta a potências mundiais

O chanceler questionou o papel das grandes potências na ordem internacional. "Existem grandes potências que acreditam que se saem melhor se ignorarem as regras consagradas na Carta das Nações Unidas", afirmou Wadephul, sem mencionar diretamente nenhum país. O ministro alertou que a maioria dos 193 países representados na Assembleia Geral sofrerá as consequências se o direito internacional for enfraquecido.

Wadephul enfatizou a urgência da adaptação institucional. "A IA não está esperando que nossas instituições se adaptem. São nossas instituições que precisam se adaptar à IA", disse, exortando os países-membros a estabelecerem requisitos comuns de segurança para os modelos mais avançados de tecnologia. O chanceler também reiterou a posição alemã sobre a necessidade de reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Antes de seu discurso, Wadephul teve um encontro de 20 minutos com seu homólogo russo, Sergei Lavrov. Foi o primeiro encontro em nível ministerial entre Alemanha e Rússia desde a invasão da Ucrânia em 2022. Segundo a imprensa alemã, o ministro alemão pediu à Rússia que abandonasse o "caminho perigoso da escalada contra a Alemanha, a Europa e a Otan". O encontro abordou o episódio de um drone com explosivos encontrado no aeroporto de Leipzig em agosto, que Berlim credita aos serviços de inteligência russos. No discurso, Wadephul reafirmou: "Hoje, a Alemanha é a maior apoiadora da Ucrânia em sua defesa contra a agressão russa".

A participação de Wadephul na Assembleia Geral ocorreu após o primeiro-ministro Friedrich Merz cancelar sua presença. Segundo a imprensa alemã, o cancelamento se deveu à crise de popularidade que o premiê enfrenta, agravada por derrotas de seu partido em eleições regionais na Alemanha.