Teve semana que a gente abre o sistema, olha a lista de ocorrências e respira fundo antes de começar a escrever. Esta foi uma delas. Não pela quantidade de casos — sempre tem —, mas pelo tipo. Bebês de cinco meses oferecidos para abuso sexual no Rio de Janeiro, um pedreiro que esconde celular ligado no quarto da cliente em Goiás, dois homens mortos pela PM em Londrina em menos de 48 horas. E no meio disso tudo, o pai que furta chocolate para os filhos e acaba preso.
Vamos do pior: o funcionário público de 68 anos preso no Rio não estava improvisando. Ele agenciava crianças e adolescentes, usando aplicativos de mensagem, em troca de dinheiro, celular, financiamento de festa. As investigações apontam a participação de mães que entregaram as próprias filhas. Bebês. A Polícia Civil ainda apura quem pagou pelos abusos, quem facilitou, quem sabia e não denunciou. Esses crimes não acontecem da noite para o dia: há uma rede, há sinais, há gente em volta que viu e fingiu que não viu. E quando a polícia finalmente chega, é sempre tarde demais para as vítimas.
Violência sexual não está só nas manchetes
A prisão do pedreiro em Jaraguá mostra outra faceta do mesmo problema: o abuso que não se concretizou, mas estava ali, planejado, escondido atrás de um criado-mudo. A vítima confiava no homem — ele já tinha trabalhado na casa antes. O quarto era usado também pela filha dela, de dez anos. Quando foi pego, o sujeito confessou: disse que queria filmar a mulher nua e alegou "momento de fraqueza". Fraqueza é tropeçar, esquecer a carteira. Enfiar câmera escondida no quarto de alguém é crime premeditado. A perícia ainda vai confirmar se ele conseguiu produzir imagens, mas a intenção estava clara. E se a mulher não tivesse encontrado o celular?
Aqui em Londrina, a Guarda Municipal prendeu um padrasto que agrediu a companheira e o enteado de quatro anos, que foi encontrado com ferimento no rosto. E em Apucarana, a PM abordou um carro onde uma menina de dez anos estava sozinha com um homem de 58 anos, em local com pouca luz. O boletim não detalha o que aconteceu antes da chegada da polícia, mas a cena por si só já dispara todos os alertas.
Dois confrontos, duas mortes, zero resposta
Londrina registrou dois mortos em supostos confrontos com a PM esta semana: um na quarta, no Novo Amparo, outro na quinta, no Jardim Violim. Nos dois casos, a versão é a mesma: mandado de prisão em aberto, suspeito armado, tentativa de abordagem, reação, tiro. Um deles teria apontado arma; o outro teria tentado golpear agentes com faca. Os dois morreram. É assim que funciona: a polícia chega, o cara reage (ou não), alguém morre, a investigação fica por conta da própria PM, e a gente nunca sabe direito o que aconteceu.
Não estou dizendo que os policiais mentem — estou dizendo que esse modelo não funciona. Confronto não é estratégia, é fracasso da prevenção. E quando a única narrativa que sobra é a da corporação que atirou, a desconfiança vira regra. Câmeras corporais, perícia independente, protocolo claro de uso da força: isso não protege bandido, protege todo mundo — inclusive o policial que agiu certo e precisa provar.
Enquanto isso, a polícia prende três motoristas bêbados nas estradas da região num fim de semana, dois deles sem CNH, e todo mundo acha normal. É normal. Mas não deveria ser. Falta blitz educativa, falta transporte público que funcione à noite, falta campanha que convença antes de precisar prender. A gente prefere esperar o estrago para depois contar o corpo.
A semana trouxe ainda um pai que furtou R$ 98 em chocolate para os filhos num supermercado de Londrina e acabou preso. O detalhe que ninguém comenta: ele tinha dinheiro para pagar. Não justifica o furto, mas levanta a pergunta que incomoda: por que alguém com dinheiro no bolso escolhe roubar? Desespero? Humilhação? Não sei. Sei que a gente prende pai que furta Lacta e solta empresário que desvia milhão. Mas isso é assunto para outra coluna.
No fim, o que fica desta semana é a mesma certeza de sempre: a segurança pública brasileira continua reagindo em vez de prevenir. Chega depois do crime, prende depois do abuso, mata depois da ameaça. E enquanto a gente não investir em inteligência, em rede de proteção, em polícia comunitária e em política social, vai continuar abrindo o sistema toda segunda e respirando fundo antes de começar a escrever.
A coluna Plantão de Domingo sai todo domingo na seção Polícia do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.







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