Theodor Kallifatides tem 88 anos e anda repetindo uma advertência que deveria provocar mais inquietação do que as declarações costumeiras de generais e chefes de governo: em toda a sua vida, jamais presenciou tamanho movimento de preparação para a guerra. O peso dessa frase vem do tempo vivido. Kallifatides nasceu numa Europa que ainda carregava as feridas da Primeira Guerra e logo mergulharia na Segunda. Agora vê o continente voltar a falar, com crescente naturalidade, em arsenais, recrutamento, munições, abrigos, dissuasão nuclear e conflitos prolongados.

Interessa-me especialmente o que ocorre antes de qualquer exército atravessar uma fronteira. Uma guerra precisa tornar-se pensável. Aos poucos, ganha palavras, argumentos, especialistas, orçamento e justificativas. Depois se instala no cotidiano. Governantes elevam o tom, militares reaparecem como personagens centrais do debate público e expressões antes reservadas aos quartéis passam a circular à mesa do jantar. Nesse percurso silencioso, uma sociedade pode começar a aceitar aquilo que, poucos anos antes, lhe pareceria absurdo.

Theodor Kallifatides nasceu na Grécia em 1938 e chegou à Suécia em 1964, trazendo consigo lembranças de uma infância atravessada pela ocupação alemã e pela guerra civil. Estudou Filosofia na Universidade de Estocolmo, onde também ensinou, e dirigiu uma revista literária. Sua obra cresceu justamente nesse atrito entre língua, deslocamento, memória, pertencimento e violência política do continente europeu.

Publicou mais de quarenta livros entre romances, ensaios, poesia e teatro, sempre voltando à experiência humana diante da perda, do exílio e da identidade. Uma frase sua permanece comigo: “abandonar a língua é abandonar a alma”. Leio nela uma advertência maior: povos também se desfiguram quando aceitam palavras que tornam a destruição administrável, aceitável e, depois, rotineira demais.

Essa reflexão ajuda a compreender o que está acontecendo diante de nós. Hiroshima e Nagasaki permaneceram durante décadas como nomes capazes de interromper uma conversa sobre guerra nuclear. Havia ali um limite psicológico. Hoje esse limite parece menos firme. Fala-se em armas nucleares “táticas”, respostas “proporcionais” e emprego “limitado”. O vocabulário técnico empresta asseio àquilo que continua sendo devastação humana.

Vejo outro perigo na forma como acompanhamos as guerras atuais. Drones transmitem ataques quase em tempo real. Câmeras mostram a trajetória de mísseis. Mapas coloridos transformam ofensivas em movimentos geométricos. Assistimos a uma explosão com definição extraordinária e raramente conhecemos o nome de quem estava dentro do prédio. A tecnologia melhorou nossa visão do ataque e, paradoxalmente, pode empobrecer nossa percepção de suas vítimas.

A essa distância visual soma-se uma antiga operação política: retirar a humanidade do adversário. Pessoas viram números, grupos, alvos, baixas previstas. Suas histórias desaparecem antes de seus corpos. É muito mais fácil consentir com uma morte depois que o morto perdeu nome, família, profissão, infância. A guerra encontra terreno fértil sempre que a imaginação deixa de alcançar a vida do outro.

Kallifatides desconfia da capacidade humana de aprender com suas tragédias. Prefiro pensar que nossa dificuldade maior está em conservar o aprendizado. Enquanto sobreviventes permanecem entre nós, a lembrança possui voz, rosto e hesitação. Depois vêm os monumentos, os aniversários oficiais, os capítulos dos livros escolares. A memória permanece documentada, mas sua temperatura baixa. E antigas tentações encontram espaço para regressar vestidas com palavras novas.

Daí minha resistência à velocidade com que o militarismo recupera respeitabilidade intelectual. Preparar a defesa de um país pode ser necessário; transformar a guerra em horizonte permanente produz outra sociedade. Recursos, talentos, universidades, indústrias e imaginação política começam a organizar-se em torno da possibilidade de matar e sobreviver. Chega um momento em que a preparação passa a alimentar a própria ameaça que pretendia conter.

Escuto Kallifatides como quem recebe o testemunho de uma geração que viu cidades destruídas e milhões de mortos se transformarem em estatísticas. A paz está sitiada muito antes do primeiro bombardeio. Ela perde espaço quando a violência adquire linguagem elegante, o medo se converte em instrumento político e a sociedade já consegue discutir uma próxima guerra sem sentir o peso da anterior. O sinal mais perigoso talvez seja justamente esse: começarmos a achar normal conversar sobre o fim do mundo.