Assim que o Allende ganhou as eleições, Henry Kissinger, no Salão Oval da Casa Branca, comentou com Richard Nixon: “É preciso salvar o Chile da loucura dos chilenos”.

A loucura era ter eleito como presidente do Chile a Salvador Allende, um socialista. Enquanto as ditaduras militares se estendiam na América Latina, o Chile se atrevia a eleger um presidente que prometia construir uma sociedade socialista pelos meios institucionais e democráticos.

Allende teve que apelar para o apoio dos democrata-cristãos do ex-presidente Eduardo Frei, para ser referendado pelo Congresso. A condição desse apoio foi que Allende não alterasse os ministros militares, o que lhes aparecia como uma garantia da continuidade institucional.

Nesse clima, desde o começo do governo de Salvador Allende, pairava no ar a possibilidade de um golpe militar, como tantos governos progressistas na América Latina tinham terminado.

Que veio exatamente em um 11 de setembro, um dia como hoje. Em junho de 1973 se havia dado uma primeira tentativa de golpe. Como ocorre em tantos casos, alguns militares mais radicalizados tinham tentado um golpe, que não deu certo.

Fomos todos à concentração em frente ao Palácio da Moneda. Allende fez seu discurso, mas, para decepção geral, manteve os ministros militares, que haviam evidentemente estado implicados naquele ensaio do golpe. O próprio Pinochet havia sido colocado por Allende no governo, com a esperança de comprometê-lo com a democracia, sem nenhum sucesso.

Saímos da manifestação mais preocupados ainda. Ao lado do Allende estava o general Prats, sempre fiel, a quem se atribui ter convencido os militares a não concretizar naquele momento o golpe.

Mais adiante, quando a situação tinha se deteriorado ainda mais, em uma concentração convocada pela Central Única dos Trabalhadores, Allende não falou. Apenas acenou para os manifestantes desde a janela da qual costumava falar.

Nós já havíamos sido despertados por preocupantes voos em julho. De repente, na madrugada de 11 de setembro, de novo fomos despertados por voos rasantes.

Saímos imediatamente da nossa casa, a duas quadras do Palácio da Moneda. Vimos a Allende sozinho, na janela de onde costumava discursar, com o capacete que os operários mineiros tinham dado para ele, disparando com o fuzil AK que Fidel tinha lhe dado de presente.

Estava cercado pelos militares golpistas, que lhe propuseram sair do Palácio, sua vida seria preservada, ele seria enviado para um outro país. Indignado, Allende respondeu com um palavrão e fez com que todas as pessoas, especialmente as mulheres, ficando com apenas 8 pessoas, entre elas Miriam Contreras, a Payita, sua companheira.

Foi possível ver os bombardeios ingleses disparando sobre o Palácio da Moneda, com a fumaça subindo. Se terminava assim a longa história contínua da democracia no Chile, desde os anos 1920.

A Payita, única mulher que estava no Palácio da Moneda, havia saído do gabinete dele um instante, quando ouviu um disparo, correu e o encontrou morto, com um disparo abaixo do queixo com o fuzil que tinha.

Payita conseguiu sair do Palácio fingindo-se de morta, junto com os cadáveres dos que haviam ficado no Palácio até o último momento. Foi à embaixada da Suécia, que havia recolhido as pessoas que estavam na embaixada de Cuba e dali foi a Cuba.

O grupo de brasileiros entre os quais eu me encontrava, alguns dias depois, conseguimos refugiar-nos na embaixada do Panamá e dali, passando pelo Panamá, cheguei à Argentina, para fazer trabalho político de apoio à Resistência chilena.

Desde então, o 11 de setembro ficou marcado pelo golpe militar no Chile.