Aprendi com minha mentora, a Professora Maria da Conceição Tavares, existirem dois requisitos para a soberania nacional: um é o monopólio da emissão da moeda nacional pelo Estado; o outro é o monopólio do controle das armas pelas Forças Armadas do Estado nacional.

Depois de o crime organizado ter quebrado este segundo monopólio, em algumas regiões do território nacional, e lavado dinheiro no exterior, inclusive nos Estados Unidos, seu governo declarou essas facções como “terroristas”. Agora, ataca o Pix. Deseja reter o monopólio dos meios de pagamentos por meio de cartões de débito de suas bandeiras (Visa e Mastercard) no Brasil!

No primeiro caso, o crime organizado deixou de ser um problema restrito a São Paulo e Rio de Janeiro, ramificando-se por rotas de tráfico fronteiriças, estados das regiões Norte e Nordeste, terras indígenas e áreas de garimpo ilegal. O governo dos EUA decretou essas facções serem “grupos terroristas” na expectativa de terem livre acesso ao território brasileiro, para as combater onde quiser, caso seja eleito alguém do clã Capachonaro.

O sistema de pagamentos instantâneos Pix tornou-se o ponto central de uma tensão comercial e diplomática entre o Brasil e o governo de Donald Trump, resultando em ameaças de sanções econômicas.

Esse processo ocorreu, primeiro, por meio de  “acusações de práticas injustas”. O Gabinete do Representante de Comércio dos EUA (USTR) abriu uma investigação acusando o Brasil de dar tratamento preferencial ao Pix, considerado uma inovação “campeã nacional” com grande aceitação popular, em detrimento de empresas de meios de pagamento americanas, como Visa e Mastercard. O relatório descreveu as políticas brasileiras como “injustas e discriminatórias”.

Como represália, Washington implementou, em julho de 2026, uma taxa de 25% sobre diversos produtos importados do Brasil. O argumento pseudo técnico é o governo brasileiro limitar as tarifas cobradas para encorajar o uso do Pix em vez dos sistemas concorrentes. Haveria um conflito de interesses, porque o Banco Central do Brasil atua simultaneamente como operador e regulador do sistema.

O Pix é visto como um “substituto do cartão de débito” e representa um desafio de longo prazo para as redes de cartões dos EUA, dado o seu baixo custo para empresas e a gratuidade para consumidores. Com sua tecnologia se globalizando, haveria impacto no mercado americano de cartões de débito – e de crédito quando for implantado o “Pix parcelado”.

Além da questão comercial, o governo Trump demonstra preocupação com a possível integração do Pix a sistemas financeiros de países não ocidentais. Isso é visto como um movimento em apoio às iniciativas de desdolarização do comércio internacional, uma pauta defendida pelo governo Lula. 

Daí o Imperador Donald usa a geopolítica em defesa da atual geoeconomia com a hegemonia do dólar. O “privilégio exorbitante” americano é a vantagem econômica e financeira possuída pelos Estados Unidos por terem o dólar como a principal moeda de reserva global. O termo foi cunhado, na década de 1960, por Valéry Giscard d’Estaing, então ministro das Finanças da França, para criticar o poder dos americanos sobre o sistema monetário internacional.

O tema da soberania virou argumento eleitoral no Brasil. Enquanto o presidente Lula utiliza o Pix como estandarte de “soberania nacional” e acusa o clã Capachonaro de estimular a interferência externa, o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro (aliado de Trump), se dispôs a impedir a integração do Pix a sistemas de pagamentos internacionais se evitarem o uso do dólar.

Seu irmão pressionou por todos os meios os Estados Unidos aplicarem um tarifaço às importações brasileiras. Este pedido de interferência em assuntos internos foi uma vã tentativa de impedir o julgamento e a prisão de seu pai pela comprovada trama golpista contra o Estado de Direito, inclusive com plano de assassinato dos eleitos (Lula e Alckimin) e de um juiz do STF (Alexandre de Moraes). 

Quinta-coluna é uma expressão usada para designar um grupo de pessoas ou um indivíduo ao atuar secretamente dentro de um país, organização ou grupo para favorecer um adversário ou inimigo, agindo por meio de sabotagem, espionagem ou traição. No caso, o sujeito sem menor decoro atuou como “vendilhão da pátria”.

Esta é uma expressão pejorativa, usada para designar alguém traidor, ao comprometer ou negociar os interesses, a soberania ou o patrimônio do próprio país em benefício próprio, de grupos políticos ou de potências estrangeiras. Ficou evidente, para todos os eleitores, essas figuras políticas buscarem apoio americano ao atuarem nos Estados Unidos de maneira prejudicial à economia brasileira ou à soberania nacional em troca de vantagens políticas locais.

O atual governo brasileiro defende o Pix ser uma infraestrutura pública aberta e não discriminatória. Argumenta também com o fato de empresas estrangeiras, como o Google Pay, também se beneficiarem do sistema de pagamentos brasileiro.

O temor do governo americano é o fim do seu “privilégio exorbitante”, por exemplo, o financiamento monetário de seu déficits. Os EUA podem comprar produtos do exterior e acumular déficits comerciais e fiscais imprimindo ou emitindo sua própria moeda, pois o resto do mundo aceita e demanda dólares.

Como governos e bancos centrais globais compram títulos do Tesouro americano (Treasuries) para guardar em suas reservas, os EUA conseguem se endividar pagando juros mais baixos diante dos pagos por outros países. Têm baixo custo de endividamento.

Ter o controle da infraestrutura monetária e financeira global permite aos EUA imporem sanções econômicas pesadas a nações rivais ao bloqueá-las do sistema de pagamentos em dólares. Esse poder geopolítico tem sido usado (e abusado) diante os demais países, tratados como fossem colônias submissas.

O privilégio exorbitante realmente amplia o poder de compra dos Estados Unidos, mas o Pix, isoladamente, não ameaça a hegemonia do dólar. Ele representa, isso sim, uma demonstração de a infraestrutura de pagamentos no âmbito nacional (talvez futuramente no Sul Global) reduz uma dimensão da dependência diante os americanos – e os incomoda.

Os Estados Unidos podem emitir à vontade sua moeda enquanto o restante do mundo acumulá-la (ou seus títulos de dívida pública) como reserva cambial. Os EUA compram bens reais emitindo ativos financeiros. É uma troca muito peculiar.

Considere os dois países. O Brasil exporta carne; recebe dólares; precisa acumular reservas em dólar. Os Estados Unidos importam carne; pagam emitindo depósitos bancários ou títulos do Tesouro. Na prática, Brasil entrega riqueza física e os Estados Unidos entregam ativos financeiros, denominados em sua própria moeda.

Outro país, caso acumulasse grandes déficits em conta corrente como os EUA, acabaria enfrentando fuga de capitais, crise cambial e escassez de reservas. Os americanos conseguem manter déficits externos persistentes, enquanto o mundo continuar aplicando em seus títulos do Tesouro, ações e ativos em dólar.

O dólar compra acima do justificado por sua produção doméstica. Imagine dois engenheiros. Um recebe lá US$ 10.000. Outro recebe aqui o equivalente a US$ 10.000 em reais. O americano pode adquirir praticamente qualquer produto mundial, porque praticamente todos aceitam dólares. O brasileiro depende da taxa de câmbio e se arrisca a ter menor poder de compra internacional.

O privilégio do dólar aumenta o poder aquisitivo internacional da renda americana. Não significa todos os americanos serem ricos. Mas significa seus salários, suas aposentadorias e seu patrimônio financeiro terem maior capacidade de compra internacional.

Um aposentado americano consegue viver relativamente bem em diversos países apenas convertendo dólares. O inverso raramente ocorre.

O Pix não concorre com o dólar porque atua apenas na função de meio de pagamento. Mas, antes do Pix, mesmo pagamentos domésticos dependiam de bandeiras de cartões americanos. 

Hoje, um brasileiro paga outro brasileiro instantaneamente, utilizando uma infraestrutura pública nacional. Isso reduziu custos e aumentou a eficiência do sistema de pagamentos.

O Pix simboliza algo além de um meio de pagamentos. Ele demonstra o Sul Global ter condições de desenvolver uma infraestrutura financeira própria sem depender da infraestrutura tecnológica construída pelos americanos. Isso tem enorme importância estratégica porque reduz a dependência tecnológica.

Entretanto, o Pix não pode funcionar internacionalmente de maneira direta. Há possibilidade de sua arquitetura ser conectada a sistemas semelhantes, por exemplo, dos demais países do BRIC: Brasil ↔ Índia via Pix ↔ UPI; Brasil ↔ China via Pix ↔ CIPS ou sistemas domésticos chineses; Brasil ↔ países do Mercosul via Pix ↔ sistemas locais. Nesses casos, seria possível liquidar pagamentos sem necessariamente utilizar dólares em todo o comércio externo.

Isso ainda não ameaça o dólar porque pagar é diferente de denominar contratos cuja unidade de conta é o dólar. Sua hegemonia monetária permanece.

 Para ocorrer uma desdolarização, exige-se quatro mudanças. Primeira: comércio bilateral em moedas nacionais. Por exemplo, o Brasil pagar em reais, serem convertidos cambialmente sem passar pelo dólar, e a China receber em yuan. 

Segunda mudança: Bancos Centrais, em vez de reservas em dólar ou títulos públicos americanos, estocarem ouro, yuan, euro e outras moedas.

Terceira mudança: criarem “mercados financeiros profundos” em outras moedas. Os chamados deep markets são ambientes de negociação caracterizados por altos volumes de transações, grande liquidez e pequenos spreads (diferença entre os preços de compra e venda). Nesses mercados, a entrada ou saída de grandes volumes de dinheiro provoca pouca alteração nos preços dos ativos. Hoje, o mercado americano continua sendo o mais líquido do planeta.

Quarta mudança: confiança institucional. Uma moeda internacional depende de estabilidade jurídica, previsibilidade, liquidez, segurança política. Essas características levam décadas para serem construídas.

Então o Pix representa hoje apenas uma perspectiva sistêmica. A partir da abordagem da complexidade, o “privilégio exorbitante” não decorre apenas do dólar. Ele emerge da interação de vários subsistemas: poder militar segurança geopolítica confiança internacional dólar como reserva mundial mercados financeiros profundos financiamento barato inovação tecnológica maior produtividade maior renda maior demanda mundial reforço da hegemonia do dólar. O dólar é apenas um dos nós dessa rede.

Da mesma forma, o Pix é um nó de outra rede: Pix menor custo de pagamentos maior inclusão financeira digitalização da economia integração com outros sistemas nacionais maior autonomia operacional. Essa rede aumenta a soberania da infraestrutura de pagamentos, mas não substitui, por si só, as funções internacionais do dólar.

O “privilégio exorbitante” permite aos Estados Unidos transformar sua moeda doméstica em um ativo global, ampliando o poder de compra internacional de empresas, governo e famílias americanas. Esse privilégio não decorre apenas da emissão de dólares, mas da combinação entre profundidade dos seus mercados financeiros, confiança institucional, poder geopolítico e liderança tecnológica.

O Pix não constitui uma ameaça direta a essa hegemonia. Entretanto, ele possui relevância estratégica, porque demonstra os países do Sul Global poderem construir infraestruturas próprias de pagamentos, reduzindo custos, ampliando a autonomia operacional e criando as bases para uma integração financeira regional. 

Se iniciativas como Pix, sistemas de pagamentos instantâneos em outros países, Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDC) e acordos de liquidação em moedas locais convergirem ao longo do tempo, elas poderão enfraquecer uma das dimensões da centralidade do dólar. Isso não implicará necessariamente sua substituição como principal moeda de reserva, mas poderá contribuir para uma ordem monetária internacional mais multipolar.

Todo o eleitorado brasileiro necessita entender: o voto no candidato Capachonaro representa um ataque à soberania nacional, seja quanto às armas, seja quanto à moeda nacional. Ele “dobra a coluna” perante o Imperador Donald!