247 – O analista Ricardo Almeida alertou para o agravamento da crise política e da tensão na Colômbia. Em entrevista ao programa Giro das Onze, nesta semana, o comentarista avaliou que o país presidido por Gustavo Petro atravessa uma transição marcada por contestação eleitoral, mobilização popular, possível perseguição judicial contra o campo progressista e consequências transfronteiriças da tensão no território colombiano. Fundador do movimento de extrema direita Defensores de la Patria, o empresário Abelardo de la Espriella foi declarado o novo presidente colombiano em 24 de junho, após cravar 49% dos votos, contra 48% de Iván Cepeda, do Pacto Histórico.
Em participação na TV 247, Almeida aproveitou para denunciar a formação de alianças de setores conservadores colombianos com o Judiciário, a imprensa empresarial e as forças de segurança para enfraquecer adversários. “Eles não têm política, não têm argumento a favor do povo. Eles usam os Lawfare da vida? A mídia, o jurídico e a força”, disse. “Tem uma crise institucional acontecendo”, afirmou.
Durante sua análise, o comentarista afirmou que organizações armadas, redes de narcotráfico e interesses políticos podem se cruzar nas áreas de fronteira, principalmente na região amazônica. Grupos mercenários ou milicianos atuam conforme as vantagens econômicas oferecidas por seus financiadores, alertou.
No Brasil, a Amazônia Legal tem mais de 5 milhões de quilômetros quadrados, distribuídos por nove estados: Amazonas, Amapá, Acre, Roraima, Rondônia, Pará, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso. A região corresponde a quase 60% do território brasileiro.
Cenário preocupante e a atuação de Petro
Declarado vencedor na eleição presidencial colombiana, Abelardo de la Espriella é apoiado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Na entrevista ao 247, Almeida avaliou que o grupo vencedor das eleições colombianas aumentou a instabilidade ao adotar uma postura de confronto contra Petro, Cepeda e as organizações populares. “Eu acho que muito mais provocada pelos vencedores da eleição do que pelo Petro e o Cepeda”, disse.
Em julho, Petro proibiu a realização da posse de Abelardo de la Espriella em uma instalação militar. A cerimônia foi marcada para 7 de agosto e, segundo Petro, deve ocorrer perante o Congresso, como determina a Constituição colombiana. A decisão foi anunciada após o direitista pedir ao novo Congresso autorização para prestar juramento em uma guarnição militar.
Na semana anterior à determinação de Petro, o político da extrema direita colombiana acusou o atual presidente de “destruir a Colômbia” e afirmou ter orientado o vice eleito, José Manuel Restrepo, a interromper o processo de transição.
Conforme avaliação feita por Almeida, setores ligados ao governo e ao candidato derrotado Iván Cepeda passaram a adotar a defesa da paz como eixo de mobilização. “Eles se apropriaram agora corretamente da bandeira da paz”, declarou.
O comentarista mencionou a expressão “desobediência civil pacífica” para definir o movimento feito por apoiadores do presidente Gustavo Preto, que representa o campo progressista.
Na Colômbia, a esquerda (oposição ao próximo governo) e representantes de movimentos populares pretendem manter a mobilização nas ruas sem abandonar os mecanismos institucionais, observou Almeida.
Onda conservadora na América Latina

A eleição do empresário Abelardo de la Espriella na Colômbia faz parte de um quadro mais amplo de avanço da direita na América Latina, com agendas que abrem as economias dos países da região aos interesses estrangeiros e cortam direitos sociais para favorecer grandes empresários.
Na América do Sul, Argentina e Chile têm como presidentes Javier Milei e Antonio Kast, respectivamente. Santiago Peña preside o Paraguai, Daniel Noboa governa o Equador e Rodrigo Paz governa a Bolívia.
A direitista Keiko Fujimori venceu Roberto Sánchez com 50,13% dos votos válidos, ou 9.223.396 votos, enquanto o adversário obteve 49,86%, ou 9.173.755 votos, apontou o Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE). A posse foi marcada para o próximo dia 28.
Ainda no continente latino-americano, Nayib Bukele é presidente de El Salvador, e Rodrigo Chaves preside a Costa Rica. Os dois países estão localizados na América Central.
Importância do Brasil
As eleições brasileiras, marcadas para o dia 4 de outubro, também geram preocupação no campo progressista, pois o Brasil é a maior economia da América Latina e, no cenário global, o governo Lula aumentou nos últimos anos as parcerias com a China, com o BRICS e com o Sul Global, que são três eixos de resistência à polêmica hegemonia dos EUA na economia internacional.
Em 23 de junho, o presidente estadunidense, Donald Trump, compartilhou em rede social um artigo afirmando que o pleito presidencial no Brasil será um “grande teste” para o “ressurgimento conservador” na América Latina.
O presidente sugeriu uma tentativa de interferência na eleição brasileira caso o presidente Lula seja o vencedor. A iniciativa pretendida pelos EUA viola a soberania brasileira e trata-se de um plano golpista, denunciam aliados do governo, estudiosos e ativistas.
Bolsonarismo e trumpismo: interseção golpista
A defesa de envolvidos em tentativas de ruptura democrática tornou-se um ponto de convergência entre o bolsonarismo e o trumpismo. Jair Bolsonaro (PL) e outras 28 pessoas foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal no inquérito da trama golpista.
Em outra investigação, o STF determinou 1,4 mil condenações relacionadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Em novembro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral aplicou uma multa de R$ 22,9 milhões ao PL depois que o partido acusou, sem provas, as urnas eletrônicas de serem passíveis de fraude.
Nos EUA, apoiadores de Trump invadiram o Capitólio, sede do Legislativo, em Washington. Os atos foram alimentados por acusações infundadas de fraude divulgadas pela extrema direita estadunidense.
A deslegitimação das eleições, dos tribunais e de outras instituições democráticas aparece nas formulações políticas associadas a Steve Bannon. Ex-assessor de Trump, o estrategista transformou a disseminação da desconfiança institucional em uma ferramenta de mobilização política e de radicalização das bases conservadoras.




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