Parabéns à Espanha, better luck next time, Argentina. Acabou a copa. Os europeus retomaram sua maioridade, a FIFA fez muito dinheiro, e Pelé foi mais uma vez contestado como o maior de todos os tempos. Mas já é de praxe. Tomados pelo imediatismo, pelas emoções do momento, pelos grandes jogos, nos vemos fantasiando e romantizando as narrativas que nos agradam, os craques que nos fazem crer que vivemos no instante mais belo da existência. E quem escolheria viver na amargura se a beleza está logo ali, virando a esquina?
Foi uma copa cheia de experiências novas para mim. Cobri o torneio pela primeira vez. Tirei fotos dos jogadores da seleção brasileira. Conheci e conversei com jornalistas que eu cresci lendo, ouvindo, assistindo. Em Nova Iorque, no Harlem, assisti ao jogo entre França e Senegal em um centro comunitário senegalês, conversando, em português, com imigrantes senegaleses que antes de chegar nos Estados Unidos passaram vários anos em São Paulo. Por lá, também bati um papo com um cinegrafista inglês, “torcedor do Liverpool, não da Inglaterra”, chamado Laurence McKenna. Me perguntou sobre a camisa do Brasil que eu usava no dia, e lhe disse que assistia a seus vídeos quando era adolescente. Conversamos sobre Ancelotti, lamentamos a seleção do Senegal que havia chegado a copa com tanta promessa, e falei do meu cauteloso otimismo em relação à seleção brasileira.
No final venceu a cautela, o otimismo ficou para trás junto com tantas outras seleções apaixonantes—Costa do Marfim, Egito, México—e zebras, algumas estreantes—Cabo Verde, Colômbia, Noruega. O estilo espanhol, que venceu o mundo pela segunda vez, é um estilo também pautado pela cautela. A Espanha se defende com a bola, troca passes à exaustão, enfeitiça o adversário que cai no sono e não percebe o tempo passar, sai o gol e o jogo acaba. É uma fórmula que aperfeiçoam há décadas, com Pep Guardiola, Luis Enrique, Vicente del Bosque, e agora Luis de la Fuente. É o ápice do jogo posicional, a antítese do estilo brasileiro imortalizado pela seleção de 1970. Mas é irônico, pois traça suas origens à Johan Cruyff e a escola de futebol holandesa, que, inspirados pela seleção de 70, trabalharam o carrossel holandês de 74, e codificaram um estilo chamado total football, sem posições fixas, baseado na ideia de que qualquer jogador poderia ocupar qualquer função em campo. Mas como tudo que é bom dura pouco, esse estilo regrediu ao de um futebol mais travado, duro, posicional. O futebol contemporâneo, campeão do mundo.

Também foi uma copa um tanto melancólica. Atraído pelo burburinho das seleções novas, algumas várias que nunca tinham participado de copa antes, me vi enfeitiçado pelo sentimento de festa. “A copa do mundo mais espetacular da história”, como bradou Donald Trump, gerou $15 bilhões de dólares à FIFA e aos países sede, em 40 dias de torneio. Mas ao fim a festa foi magra, porque nos EUA, em meio à guerra, eleição, invasão de governo soberano, apoio à genocídio e ao aquecimento global, não teria como se desenhar um espetáculo que fosse nada além de uma grande farsa.
Começando pelo fato de que a Argentina perdeu para o Egito. Aqueles que não se importam de vencer com fax ou carteirada, talvez venham a dizer no futuro que não, a Argentina ganhou bravamente dos pobres egípcios que ficaram a pedir intervenção do VAR por questão tão tola quanto racismo.
Além de gol do Egito mal-anulado, e falha do VAR em uma jogada que poderia terminar em pênalti para o Egito (mas a acabou terminando no gol de virada da Argentina), o árbitro da partida, o francês François Letexier, ignorou a tentativa do técnico Hossam Hassan de acionar o protocolo anti-racismo. O protocolo foi inaugurado durante a copa, em resposta a um escândalo que ocorreu no início deste ano. Em Fevereiro de 2026, durante um jogo entre Real Madrid e Benfica, em Portugal, pela champions league, Vini Jr. fez um golaço (daqueles que só ele sabe fazer) no início do segundo tempo, comemorou, sofreu racismo, reclamou e tomou um amarelo. O jogador que proferiu a ofensa, encobrindo a boca com a camisa do Benfica, foi o argentino Gianluca Prestianni, que só foi amarelado 20 minutos depois. O árbitro daquela partida foi o mesmo François Letexier.
É um juíz que vê o racismo com uma uma estratégia de jogo, e não um crime. A FIFA, pagando de boa moça, criou após Real Madrid x Benfica a lei “Vini Jr”, que penaliza com expulsão o jogador que proferir uma ofensa a um adversário com a boca encoberta. Seria uma maneira de evitar situações como a de Portugal, na qual a vítima de racismo toma um cartão amarelo, e o agressor sai impune. A nova regra foi colocada em uso pelo primeira vez durante essa copa, quando Miguel Almirón foi expulso durante o jogo entre Paraguai e Turquia. Após o incidente, a união europeia de futebol, a UEFA, rapidamente declarou que não adotará a lei “Vini Jr.” em competições como a champions league.

Na final da copa, após uma falta de Enzo Fernández em Pau Cubarsi (que terminou na expulsão do argentino), Messi tentou também acionar o protocolo anti-racismo. Pelo que vimos pela TV, e pelo que foi noticiado depois, não parece que o adversário teria proferido uma ofensa contra Messi. Mas naquele momento, com um a menos, o argentino teria visto uma oportunidade de tirar um espanhol de campo.
Durante a final, Ronaldo Fenômeno levou a taça da copa até Donald Trump, para que o presidente pudesse manuseá-la em seu camarote, ao lado do presidente da FIFA (e indicação de Trump para secretário geral da ONU) Gianni Infantino. Durante o show de intervalo, Justin Bieber cantou sua canção “Everything Hallelujah”, que escreveu após se reencontrar como cristão. Ao final da performance, no telão do estádio MetLife, em Nova Jersey, foi projetada uma foto junto ao nome da música. Na imagem vimos um torcedor da República Democrática do Congo, Michel Mboladinga, fantasiado do antigo primeiro ministro congolês e líder pan-africano Patrice Lumumba. Mboladinga ficou famoso durante a copa africana de nações de 2026 por suas aparições na arquibancada durante os jogos do Congo, nos quais se transformava em estátua-viva do primeiro ministro, e acabou virando um talismã da seleção. Lumumba foi assassinado pela CIA em 1961, durante um golpe de estado que buscava barrar a libertação do Congo dos anseios coloniais do Norte Global. Mboladinga teve seu visto de turismo para assistir a copa negado pelos EUA, mas sua foto foi à final.
Política e futebol sempre andaram de mãos dadas, e copa do mundo nunca foi uma festa perfeita. As seleções italianas que venceram as copas de 34 e 38 (nas quais a seleção alemã carregava a suástica nazista no peito) davam orgulho ao ditador fascista Benito Mussolini; o Brasil de 70 levou a taça Jules Rimet a Brasília, ergueu-a com o ditador Emílio Garrastazu Médici; a Argentina de 78 precisou de uma conversa entre seu ditador, Jorge Rafael Videla, e a seleção peruana, para que eliminassem o Brasil e avançassem ao título; em 2026, após impedir a entrada de um árbitro somali nos EUA pelo simples fato de ser somali, após impossibilitar uma participação digna da seleção iraniana na copa (copa essa a primeira na qual dois países estavam em guerra durante o torneio), o presidente dos EUA telefonou para o presidente da FIFA e pediu que suspendesse o cartão vermelho dado a um jogador estadounidense. Conhecendo um pouco a história da FIFA, quem se surpreendeu quando liberaram o atleta para jogar?
Além de sintomático, o “caso Balogun” é irônico. Folarin Balogun nasceu no Brooklyn, em Nova Iorque. Seus pais, nigerianos, moravam na Inglaterra, mas tiveram o filho nos EUA porque não foram autorizados a voltar para casa durante o estado avançado da gravidez. Balogun cresceu na Inglaterra. Jogou na base do Arsenal. Se destaca hoje em dia jogando pelo Mônaco, na liga francesa, mas compete pela seleção norte-americana graças à lei de cidadania do país, que garante que aqueles que nascem nos EUA são estadunidenses. Em seu segundo mandato, Trump tenta repelir esse direito para que possa aproximar os EUA ao país dos sonhos dos supremacistas-brancos.
Pelo lado de Balogun, a situação é um privilégio e uma tristeza. (É cômica também: o árbitro que expulsou Balogun, e foi, subsequentemente, alvo de relatórios compilados pelo governo estadounidense, é o brasileiro Raphael Claus.) Mais simples teria sido o VAR não entrar em campo, quando alertou o árbitro da partida sobre uma possível infração para cartão vermelho. Nessa copa, a seleção argentina cometeu 14 faltas por jogo mas só recebeu, no total, 15 cartões amarelos. Um total de 7,5 faltas por cartão amarelo, embora esse número tenha mudado muito após a final, onde recebeu 6 amarelos e não deu nenhum chute ao gol. Antes da final, só eram amarelados os jogadores argentinos a cada 10 faltas. Em sua estreia na copa, Messi deu um pisão na panturrilha de um jogador argelino, pisão esse que gera expulsão em 99% dos casos. Mas o árbitro não viu, e o VAR não chamou.

Após a final, vi muitos vídeos de brasileiros que torcem para a Argentina, tristes com o resultado, insultando os repórteres que foram ali buscar histórias curiosas que só ganham vida durante esses momentos, nos quais o mundo inteiro assiste ao mesmo programa. Em um dos vídeos, um desses torcedores chama brasileiros que torcem para o Brasil de “macaquitos”. Esses torcedores gostam da “raça” dos argentinos, bradam pela vontade de vencer que os jogadores demonstram (que dizem faltar aos jogadores brasileiros), defendem a seleção argentina como mais do que o jogo sujo, as atitudes desleais, os erros de arbitragem, o caminho “fácil” até a semifinal, o favorecimento metódico à narrativa “Messi é melhor do que Pelé”, etc. A seleção argentina não é só isso, dizem, também é o Messi.
Acho esse argumento perigoso. Escusa a atitude anti-esportiva, porque, ao final, ela se transformaria em “magia”, vontade de ganhar, “raça”. Durante a copa, nós que vivemos cronicamente online, assistimos ao desenrolar desse argumento, e a força oposta que buscava freá-lo. Nos feeds de Instagram e TikTok, nos esgotos a céu aberto do X, uma nova polarização divide até eleitores de Lula—que não sabem se apoiam argentinos como aliados sulamericanos; se repudiam os eleitores de Milei que jogam pela seleção; se bradam pelas Malvinas; ou se vomitam ao assistir Benjamin Netanyahu declarar seu apoio à Argentina—e Bolsonaro—que se coçam pela manifestação pelas Falkland Islands; se alegram ao ver uma seleção latina sem homens pretos; vêem nos argentinos uma chance de triunfo do projeto neo-liberal-oligarca-neo-pentecostal; chamam o “apolítico” Messi de herói, mas detestam o “comunista” Maradona.
A copa é mesmo uma farsa. Cria símbolos para os piores problemas do mundo, explicita os vilões da vida real, e no final embala o bebê, dá um laço de ouro no programa antes que o tumulto e as vaias deem cabo à mudanças verdadeiras. A disputa entre o bem e o mal acaba com o apito final.
No Brasil, agora, a disputa toma mais uma vez a forma que já tomou tantas outras; nada morre, tudo se transforma. De Bolsonaro pai para Bolsonaro filho, de Neymar-futebol para Neymar-pôker, fica a lição desse mês de copa: ganha quem trabalha, não quem busca a salvação no colo de Trump, Infantino, ou Jesus Cristo. Melhor seria se Neymar jogasse pela Argentina. Não pode ser mais a cara do Brasil. Tchau, tchau, e leve seu amigo Messi junto—eterno vice—adiós. Que venha agora uma geração de craques mais engajados. Mbappé, Yamal, e o próprio Vinícius já fizeram mais pelo mundo do que esses dois jamais tentaram.
Findada, enfim, a Copa do Mundo FIFA de 2026, agradeçamos a Espanha por ter inaugurado uma nova era do futebol, mas foquemos agora no nosso, e não na deturpação europeia do anseio de expressão do brasileiro, do congolês, ou do palestino. Pessoalmente, agradeço também ao Cabo Verde, única seleção que jogou contra as duas finalistas e não perdeu de nenhuma dentro dos 90 minutos de jogo. Se Pelé errou ao dizer que uma seleção africana seria campeã do mundo antes de o Brasil ser tetra, talvez errando também tenha acertado um pouquinho. Quem sabe antes de ser hexa?





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